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Drogas psicodélicas teriam poupado muito sofrimento, diz especialista

por William Vieira — publicado 25/10/2014 06h39
Maior defensor das pesquisas com essas substâncias, Rick Doblin defende em entrevista que elas seriam úteis para tratar de depressão a vício em drogas e lamenta preconceito
Divulgação
Rick Doblin

Rick Doblin, o fundador da MAPS

Rick Doblin é hoje o maior defensor das pesquisas com drogas psicodélicas do mundo, tendo fundado a MAPS, uma organização voltada para o financiamento de estudos na área e para fomentar o esclarecimento a respeito do tema. Sem a MAPS, boa parte da atual pesquisa jamais teria acontecido. Mas, diferentemente dos primeiros visionários a defender o caráter terapêutico de drogas como LSD e DMT nos anos 1960, como Timothy Leary – em quem, aliás, se inspirou, ao fazer uma reanálise do experimento com presidiários feitos por Leary à época, o que ficou conhecido como o Projeto Prisão Concord –, Doblin não mistura ciência e misticismo. Sabe que a única forma de avalizar a pesquisa sobre o uso de tais drogas para tratar doenças como depressão, estresse pós-traumático, ansiedade e vícios em drogas e álcool é conquistar o reconhecimento da academia e da opinião pública.

E, para isso, insiste no respeito total aos protocolos científicos e na separação entre história, cultura, diversão e pesquisa, doenças, cura. “É realmente uma tragédia que essa pesquisa foi travada por quase 50 anos por causa de preconceito e falta de compreensão”, afirma. “Imagine quanto sofrimento poderia ter sido evitado se as pesquisas tivessem continuado e tratamentos tivessem se tornado disponíveis?”

Psicólogo de formação, Doblin fez doutorado em políticas públicas em Harvard, onde estudou a regulação do uso das pesquisas com drogas psicodélicas. “Tanto dinheiro tem sido gasto com tratamentos que não funcionam e essas drogas psicodélicas de repente trazem uma luz no fim do túnel, oferecem um caminho de mais qualidade de vida para milhões de pessoas”, afirma. “Então eu creio que, com novas doações e financiamento, com os resultados positivos continuando a sair, vamos convencer mais gente das possibilidades terapêuticas dessas drogas.” Abaixo, a entrevista concedida por telefone a CartaCapital.

CartaCapital: Uma série de novos estudos sobre as possibilidades terapêuticas têm sido realizados com LSD, MDMA (substância contida no ecstasy), psilocibina, quetamina e ayahuasca. É possível falar em uma renascença da ciência psicodélica?

Rick Doblin: É definitivamente uma renascença. Atualmente há mais pesquisa com drogas psicodélicas do que nos últimos 45 anos. E, ironicamente, ao menos nos EUA, há mais pesquisa com psicodélicos do que com maconha legal. Infelizmente, a produção de maconha que possa ser usada em pesquisa é monopolizada pelo governo americano. Para MDMA, LSD, para essas drogas há produtores privados licenciados. Isso sem falar das pesquisas com ayahuasca que tem tido resultados incríveis mundo afora. O mundo está mudando. A controvérsia produzida pelo uso de tais drogas não é nem de longe o que era antes.

CC: Seu foco pessoal tem sido sobre a pesquisa com MDMA para tratar estresse pós-traumático. Há alguma previsão de quando o tratamento se tornará público?

RD: Estamos agora a cerca de um ano de finalizar os estudos do estágio 2 para conseguir transformar o MDMA em um medicamento. Após esses estudos, teremos uma reunião com o FDA para começar os estudos do estágio 3, para testar a eficácia. Prevemos que teremos MDMA aprovado como medicamento (com prescrição) para estresse pós-traumático, por exemplo, em 2021, em sete anos. É uma previsão confiável. Os resultados preliminares que obtivemos em pessoas em quem outros tratamentos falharam são muitos positivos. Estamos a poucos passos de aprovar com o FDA um estudo para usar o MDMA para ajudar pessoas a viver com a ansiedade com doenças que ameacem a vida.

CC: Qual a relação entre essas drogas e a psicoterapia?

RD: A droga não é a medicina por si mesma. Do nosso ponto de vista, a psicoterapia deve estar associada à droga no tratamento. Há mais esperança do efeito com psicodélicos na psicoterapia do que no funcionamento do cérebro em si. E isso também faz as pessoas mais confiantes, aceitarem o tratamento.

CC: Mas ainda há obstáculos para ampliar a pesquisa?

RD: Há dois principais obstáculos à nossa pesquisa atualmente. O primeiro é o financiamento. Dependemos totalmente de doações privadas. Elas não têm vindo o governo, nem da indústria. O governo federal é o último estágio de mudança para o fim da proibição. O proibicionismo é baseado em medo, no medo de que tais drogas sejam perigosas, o que é usado para justificar essa guerra às drogas que põe tanta gente nas cadeias.

CC: Isso não mudou com a guinada liberal de Obama?

RD: Claro, isso tem mudado um pouco com Obama, no sentido de que esse sistema é injusto e racista. Mas o governo federal ainda tem muito a mudar. E essas pequenas mudanças ainda não se traduziram em financiamento e reconhecimento. Temos, por outro lado, feito parcerias com os militares em pesquisas sobre o uso do MDMA para o estresse pós-traumático. Verdade, nos anos 1950 os militares foram pioneiros nesse estudo, mas apenas visando controle mental para a guerra, para interrogatórios, não razões de saúde. Hoje a pesquisa se foca em tratamento de estresse pós-traumático em soldados, em cura. Mas, de novo, somos nós que estamos pagando por ela. Há esperança de que os estudos futuros serão financiados por eles. Mas isso não ocorre agora.

CC: O maior obstáculo é financiamento. E o outro?

RD: O segundo obstáculo é treinar psicoterapeutas. Como treinar os terapeutas? Temos permissão do FDA para prescrever MDMA apenas durante a terapia, o que tem funcionado bem. Mas, assim que deixemos os projetos-pilotos e sigamos para estudos mais amplos, do estágio 3, vamos precisar treinar novos 40 ou 60 terapeutas. Ou mesmo bem mais. Esse é nosso desafio agora. Então nosso problemas agora são basicamente financiamento e pessoal.

CC: Os britânicos têm enfrentado problemas graves para obter aprovação do governo para pesquisas com psicodélicos. Isso ainda ocorre nos EUA, como era comum nos anos 1990?

RD: Do ponto de vista regulatório, tem sido cada vez mais fácil. Até porque os resultados que temos conseguido, de que é possível realmente ajudar as pessoas, têm sido muito positivos. Então a aprovação para as pesquisas é cada vez mais certa. Claro, ainda é preciso passar pelo crivo da FDA e do DEA  e por comitês de pesquisa, mas a questão principal nos EUA é mesmo conseguir financiamento público, o que é inexistente ainda.

CC: E o preconceito do público em relação a drogas tão associadas à contracultura, como o LSD e durante muito tempo demonizadas pelos conservadores por isso?

RD: Existe, mas tem diminuído. De fato é maior com o LSD. Ele foi o primeiro psicodélico a ser pesquisado e continua, sim, muito importante. Há poucos anos fizemos na Suíça um estudo com pacientes terminais. Aplicamos LSD e psicoterapia juntos. As pessoas têm mais medo de morrer do que de usar drogas, sabe. Então elas estão abertas à experiência. Há ainda pesquisas na Inglaterra mostrando como a droga funciona no cérebro. Mesmo a mais controversa de todas as drogas, tão culturalmente influenciada, tem tido aceitação no mundo científico. Como eu disse, nos EUA hoje, é mais fácil fazer pesquisa com LSD do que com maconha.

CC: E os novos estudos estão relacionados com os pioneiros, realizados por Leary e sua equipe nos anos 1960?

RD: Eles estão diretamente relacionados. Os primeiros estudos conduzidos nos anos 50 e 60 com LSD se voltavam para o alcoolismo e o vício em heroína. O mesmo ocorreu com MDMA para traumas ou com a psilocibina e a ayahuasca. Estamos retomando essas pesquisas onde elas pararam. É realmente uma tragédia que essa pesquisa foi travada por quase 50 anos. Imagine quanto sofrimento poderia ter sido evitado se as pesquisas tivessem continuado e tratamentos tivessem se tornado disponíveis? Uma coisa é impedir o uso recreativo. Mas proibir pesquisas médicas com drogas que tinham estudos promissores? Não faz sentido.

CC: Então não há chance de uma nova onda de proibição sobre os psicodélicos?

RD: Sempre pensamos o que aconteceria se nossas pesquisas foram paralisadas novamente por uma onda de proibição, justo agora que resultados positivos têm sido confirmados. Seria uma nova tragédia. Mas, honestamente, não acho que isso possa acontecer. Estamos muito esperançosos. Estamos trabalhando com os militares com MDMA para estresse pós-traumático, com LSD para ansiedade e qualidade de vida em pacientes terminais, adições, depressão... tanto dinheiro tem sido gasto com tratamentos que não funcionam e essas drogas psicodélicas de repente trazem uma luz no fim do túnel, oferecem um caminho de mais qualidade de vida para milhões de pessoas. Então eu creio que, com novas doações e financiamento, com os resultados positivos continuando a sair, vamos convencer mais gente das possibilidades terapêuticas dessas drogas.

CC: Qual o papel da opinião pública e mesmo da imprensa nesse sentido?

RD: A educação do público sobre essas drogas foi feita nas últimas décadas com base no medo, da proibição. Com os benefícios sendo trazidos à tona de forma clara, positiva, as pessoas mudarão de ideia e logo a sociedade como um todo. Recentemente fui a um talk-show na tevê americana falar sobre uso de MDMA para tratar estresse  pós-traumático. Isso seria inimaginável anos atrás.

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