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Do assentamento à universidade

por Paula Thomaz — publicado 11/11/2011 14h06, última modificação 16/11/2011 08h25
Acostumados com as lutas pela reforma Agrária e outras questões que envolvem a terra, assentados que encararam o desafio da graduação em Geografia se formam esta semana
Acostumados com as lutas pela reforma Agrária e outras questões que envolvem a terra, assentados que encararam o desafio da graduação em Geografia se formam esta semana

Acostumados com as lutas pela reforma Agrária e outras questões que envolvem a terra, assentados que encararam o desafio da graduação em Geografia se formam esta semana

Do assentamento à universidade o caminho é bastante longo. Não só fisicamente, mas socialmente também. A luta pela reforma agrária é a prioridade na vida de muitos agricultores e para Iury Charles Bezerra, de 25 anos, não é diferente.

Um dos coordenadores do grupo de produção agrícola do Movimento dos Atingidos por Barragem, no Ceará, Charles viu no curso de Geografia uma maneira de ir além na sua militância. Foi uma luz para muitas questões que envolvem seu cotidiano no assentamento.

Essa mesma visão teve o professor Antonio Thomaz Jr., coordenador do Curso Especial de Graduação em Geografia (CEGeo) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Foi graças a ele e outros professores como Bernardo Mançano Fernandes, Raul Borges Guimarães e Fátima Rota, que Iury e mais 45 assentados de sete estados do Brasil, se formam geógrafos nesta sexta-feira 11.

Para o professor Thomaz Jr., “os alunos venceram diversas dificuldades para alcançarem tal êxito, mas essa conquista se deve também ao apoio de diversas pessoas que entenderam a amplitude e grandeza do projeto”.

Ele lembra que a iniciativa nasceu dos movimentos sociais aglutinados no âmbito da via campesina que se aproximaram da universidade com a ideia. Foi então que começou a articulação para criação do curso que, durante dois anos, enfrentou barreiras dos órgãos colegiados. “O projeto ficou enroscado nos colegiados superiores. Eles alegavam que a universidade tem que primar por qualidade e que não deve se abrir para projetos que não cumpra os rituais que todos os alunos têm de cumprir”, revela. E continua: “eles diziam que a gente queria ganhar dinheiro. Ficou evidente que eles não liam o projeto.”

Com o apoio do então reitor Marcos Macari e o vice Herman Jacobus Cornelis Voorwald, a inciativa começou se concretizar. E depois de passarem por uma seleção dentro dos assentamentos, os futuros estudantes fizeram um vestibular especial preparado pela Vunesp. “Não é uma turma que acabou de se formar no ensino médio ou que fez cursinho. Então, foi elaborado um vestibular apropriado para a situação deles”, explica o coordenador do CECeo.

Resultado da parceria entre a Unesp, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), por meio do Pronera (Programa Nacional de Educação e Reforma Agrária) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), a turma foi iniciada em 2007 e teve aulas presenciais, nos meses de janeiro e fevereiro, no campus da Unesp de Presidente Prudente; e nos meses de julho e parte de agosto, na ENFF. As atividades de campo transcorreram em assentamentos.

Passados os cinco anos de desafios, com novas ferramentas nas mãos proporcionadas pelo curso, o formando Iury Charles Bezerra, o mais novo geógrafo do Movimento dos Atingidos por Barragens do Ceará, diz que vai aplicar todo o conhecimento adquirido no assentamento cearense de forma mais qualificada. “Agora a gente tem uma capacidade maior de análise e de reflexão da nossa prática nos assentamentos. O curso não é uma conquista só minha, é uma conquista inclusive dos trabalhadores que estão nas áreas de assentamentos. Foi isso que me permitiu fazê-lo. Então a minha tarefa é reforçar esse aprendizado junto com eles para que possam, de alguma forma, com a minha contribuição, melhorar a vida, as relações sociais e a realidade deles. Essa é a intenção”, compromete-se o formando que embarca de volta para o Ceará dia 15.

O professor Thomaz Jr., afirma que “os alunos conseguiram, com muito esforço e mérito, sem ter o hábito de escrever, como é na academia, com apoio da equipe, fazer suas monografias, e nos ficamos muito satisfeitos com os resultados.”

Bezerra também. Orgulhoso, ele fala do tema de seu trabalho de conclusão de curso, sobre privatização da água, e revela sua nota. “Tirei 9.”

Com tanto sucesso, porém, ele diz que a continuação de sua vida acadêmica está diretamente ligada a uma necessidade real da organização que participa. “Se eles acharem necessário que eu continue estudando, isso vai acontecer, caso não, vou continuar fazendo meu trabalho nas comunidades. Mas eu não descarto a possibilidade de entrar numa pós-graduação”, sonha.

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