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Sociedade

Reitoria ocupada

Dividido em tribos, movimento estudantil enfrenta radicalismos

por Clara Roman — publicado 07/11/2011 17h39, última modificação 09/11/2011 12h23
Especialista explica por que estudantes da Universidade de São Paulo não conseguem dialogar entre si e como o radicalismo é a palavra-chave do movimento estudantil atual

O  coro “Ocupa! Ocupa!” contrapunha-se ao “Senta!Senta”, que tentava amainar o ímpeto de ocupação, na Assembleia Geral dos estudantes da USP do dia 1º  de novembro, que decidiu encerrar a ocupação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e terminou com um grupo de alunos na reitoria da Universidade. Os gritos de guerra refletiam os sentimentos conflitantes entre os participantes do fórum, com aproximadamente mil pessoas. E que, quase uma semana depois, ainda fornece pistas sobre o complexo mosaico que é a maior universidade do país.

iniciou um movimento de protestos contra a Polícia Militar na faculdade e, depois de uso de força de ambas as partes, a ocupação da administração da própria faculdade. No dia 1º, o movimento se mudou para a Administração Central.

Dos cerca de 89 mil alunos, a grande maioria divide seu tempo entre estudos, estágio e cursos de línguas. A despolitização é geral, ao contrário do que sugere a imagem do “estudante da USP” estereotipado nas últimas semanas.  Dentre os ativos no movimento estudantil, há tanto uma minoria afeita a gestos radicais, como é o caso dos três grupos que encampam a ocupação na reitoria, estudantes ditos “independentes”, cuja atuação ocorre sobretudo nos diversos centros acadêmicos das unidades, e militantes de partidos de alguma imersão na política “real”, mas tidos na sociedade como grupos de extrema-esquerda – entre eles, PSOL e PSTU são os mais expressivos.

A decisão de ocupar o prédio administrativo da reitoria no dia 1º criou uma polêmica sobre a validade ou não do ato. Isso porque a mesa da assembleia já havia decretado seu fim quando um grupo composto sobretudo de membros dos Movimentos Negação da Negação (MNN), LER-QI (Liga Estratégia Revolucionária – Quara Internacional) e Partido da Causa Operária (PCO) decidiram pela ocupação. Ao mesmo tempo, alguns alunos dizem que a mesa da Assembleia do dia 1º, que culminou com o ato, foi alvo de manobra.

Esse enfrentamento entre forças do próprio movimento estudantil é permeado pela questão da Polícia Militar no Campus e pela legalização da maconha. Nesse quesito, a divergência ocorre com a ala mais à direita, menos organizada em relação a movimentos e partidos, mas que soube preparar um protesto de cerca de 300 pessoas pedindo a presença da Polícia na terça-feira 1º - e que tem tido vertiginoso crescimento nos últimos anos.

O sociólogo Carlos Henrique Metidieri Menegozzo, especialista em movimento estudantil, tenta explicar o surgimento de tantas divergências no mesmo ambiente.  “A Universidade deixou de ser um espaço de convívio e de troca de experiência”, afirma. Segundo ele, um dos fatores é que, ao longo das últimas décadas, o ensino tornou-se mais técnico, houve uma desvalorização progressiva de cursos de áreas mais filosóficas e a comunidade universitária tornou-se diluída, fragmentada. Isso se reflete na sociabilidade dos estudantes. “O processo hoje é de formação de guetos dentro da universidade”, diz. “São diversas tribos unversitárias, que se diferenciam culturalmente, criando um problema de diálogo”, aponta.

No Facebook, trava-se outra batalha entre as diversas facções dos estudantes. Um cartaz com 1527 compartilhamentos circulava pela rede intitulada “Dois tipos de alunos da USP” com fotos dos protestos a favor da PM e os dizeres “O primeiro tipo estuda, trabalha, defende a lei, quer segurança na USP, agem democraticamente e não têm medo de mostrar seus rostos (sic)"  e fotos dos alunos da ocupação e a frase “O segundo tipo de alunos raramente estuda, não trabalham, desrespeitam a lei, defendem traficantes, impõem sua vontade de maneira não democrática e escondem seus rostos da mesma forma que os criminosos (sic)". Outro, dizia “Eu não fumo maconha e sou contra a PM no Campus”.

Além da fragmentação e falta de diálogo, existe também a emergência de movimentos radicais para os dois extremos. São processos distintos, explica Menegozzo. Os da esquerda, na definição sociológica, são em parte resultantes de uma ideologia do descondicionamento de classe, “surgida quando o estudante é desobrigado de criar condições para seu próprio sustento”. Nesse caso, o estudante universitário, em sua maior parte de classe média e relativamente dependente dos pais, tem a impressão de que pode tudo.

“O aluno imagina que pode assumir um comportamento político desligado de condições materiais e de interesses de sua classe origem”, comenta o especialista. Essa ideologia, diz, é a base da construção de políticas muito extremadas, que não conseguem perceber certas limitações objetivas impostas ao avanço de suas lutas.

Já a direita, segundo Menegozzo, é reflexo da expressão de um movimento da classe média de maneira geral e que influencia o comportamento estudantil. “Com o governo Lula, há uma mudança no posicionamento das classes”, afirma. Enquanto segmentos da classe trabalhadora ascenderam a um status de classe média (a “Classe C”) e a classe rica foi favorecida pelas políticas econômicas, a “velha” classe média teve uma sensação relativa de perda de status e poder. O crescimento do pensamento conservador neste setor foi, portanto, uma reação a esse sentimento de “queda”. O movimento estudantil reproduz essa polarização, afirma o especialista. São exemplos disso as declarações contra as cotas raciais para o ensino superior, os movimentos contra nordestinos, entre outros.

Outro ponto destacado pelo pesquisador é a falta de diálogo entre a reitoria e os alunos. "O fato de a instituição estar fechada para o debate leva a uma certa polarização de posições", comenta. Na mesma linha, a "grife" das humanas da instituição, como José Geraldo Souto Maior, da Faculdade de Direito, Vladimir Safatle, da Filosofia e Raquel Rolnik, da Arquitetura, manifesta-se contra o que chamam de autoritarismo da reitoria.

"A atual reitoria tem dificuldades de dialogar com todos os setores da comunidade acadêmica", escreveu Safatle. "Há um enorme 'déficit' democrático na Universidade de São Paulo que de um tempo pra cá a comunidade acadêmica, integrada por professores, alunos e servidores, tem pretendido pôr em debate", defendeu Souto Maior. Rolnik aliou esse debate também à falta de mobilidade espacial no campus como um dos fatores de insegurança no campus - que está no cerce, portanto, da discussão sobre o policiamento no local. "O modelo urbanístico do campus, segregado, unifuncional, com densidade de ocupação baixíssima e com mobilidade baseada no automóvel é o mais inseguro dos modelos urbanísticos, porque tem enormes espaços vazios, sem circulação de pessoas, mal iluminados e abandonados durante várias horas do dia e da noite".

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