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Sociedade

Crônica do Menalton

Dinheiro e popularidade

por Menalton Braff publicado 22/07/2013 09h35
Não acredito em academias: assim como existem escritores da mais alta qualidade na ABL, há outros de tanta ou até mais qualidade do lado de fora
Wolfhardt / Wikimedia Commons
ABL

A sede da Academia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro

Pode ser irrelevante a opinião deste escrevinhador. Em muitos outros assuntos, como neste caso de academias, ter opinião não significa ter razão. Desqualificado, assim, por mim mesmo, evito que outros gozem o prazer de me desqualificar. E isso, como dizer, é apenas um recurso de retórica. Truque antigo, observado principalmente entre animais, que tantas e tão belas lições costumam dar ao homem. Ameaçado por cão maior, o menor arroja-se em puro decúbito dorsal no chão, saudando sua ameaça com pernas e cauda movendo-se festivas. Se você, caro leitor, ainda não presenciou cena igual a essa, não está autorizado a falar da sabedoria (melhor seria dizer esperteza) animal.

Mas o título ainda não se justificou e não sei como fazê-lo sem que tome algum atalho. Com medo de sair arranhado por galhos e espinhos, que são da própria essência dos atalhos, continuo pela estrada larga que me leva por longas voltas de curvas suaves.

O que me cabe aqui dizer, portanto, é que não acredito em academias. No Brasil do século XVIII, houve verdadeira onda de academias: Esquecidos, Renascidos, e a lista vai longe. A coroa portuguesa incentivava a formação destas organizações não governamentais na colônia como modo de manter sob tutela todo cidadão pensante deste lado de cá do oceano. Havia certa homogeneidade social que justificava o espírito de grupo, a regulamentação do ato de escrever. Por muito tempo foi assim. O espírito de 22 implodiu toda estrutura literária acadêmica. A diversidade social dos principais atores literários (escritores e leitores) foi uma das causas dessa implosão. Em espírito, pelo menos, as academias já faliram. Pense, por exemplo, num Goya submetendo-se às humilhações que teve de suportar para ser considerado um pintor. E quem o humilhava? A academia e seus acadêmicos. Hoje ninguém mais pede vênia a academia nenhuma para ser considerado o que quer que seja.

Isso posto, vamos ao título. Não, meu caro leitor. Ainda não. Preciso antes dizer que, apesar de não acreditar em academias, respeito muito alguns dos acadêmicos da ABL. Existem escritores da mais alta qualidade tomando chá com biscoito no Petit Trianon. Assim como existem escritores de tanta ou até mais qualidade do lado de fora. Para quem acredita em imortalidade, deve ser bem incômodo permanecer à frente do portão entre os torcedores que não conseguiram ingresso. Para quem não acredita, isso é irrelevante.

Como toda gente sabe, é preciso morrer alguém lá de dentro para que seja escolhido seu substituto entre os que circulam por aí como simples mortais. Pois bem, não faz muito que dois acadêmicos, apesar da imortalidade, acabaram morrendo como todos nós um dia vamos morrer. E isso causou uma revoada de pretendentes ricos e populares, como nunca antes se viu no Brasil. É verdade que senso crítico, mas sobretudo autocrítico, é mercadoria por demais escassa. Não se encontra na feira. Sei de pelo menos uma vintena de escritores com muito menos dinheiro e quase nenhuma popularidade, mas, meu Deus do céu, apetrechados com anos luz a mais de competência.

Se academia já é um anacronismo, imaginem pessoas que mal conseguem escrever umas mal traçadas linhas tomando conta daquilo lá. Torna-se um cenário de ópera bufa. Os acadêmicos que nos merecem o respeito não merecem algumas das companhias com que certas pessoas os ameaçam.

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