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Diários virtuais de Lisboa

por Simone Cunha — publicado 10/11/2010 10h05, última modificação 11/11/2010 19h06
Uma garçonete e um condutor de bonde registram na internet impressões sobre os turistas
Diários virtuais de Lisboa

Uma garçonete e um condutor de bonde registram na internet impressões sobre os turistas. Texto e foto: Simone Cunha

Uma garçonete e um condutor de bonde registram na internet impressões sobre os turistas

O motorista do bonde mais famoso de Lisboa descreve uma turista brasileira que pede para ser avisada quando chegarem a determinada avenida e não espera que ele cumpra a promessa, puxa a cordinha antes. “Como sempre.” A garçonete de um restaurante no badalado bairro histórico do Chiado identifica os “amigos do samba” por cumprimentar todos os garçons com quem cruzam e perguntar o que sugerem para comer. “Sabemos o que é bom, o que nunca foi, sabemos quantos dias tem o bife.” Em funções pouco notadas no dia a dia da cidade – menos ainda quando se é turista –, eles observam mais à vontade do anonimato. Em seus blogs, mostram o que vê quem é, quase sempre, indispensável, mas invisível.

Com o exercício diário, dificilmente erram ao identificar os tipos a distância. “Principalmente os espanhóis, que falam alto e estão sempre em muitos. E cada um pergunta separadamente a mesma coisa, ainda que ouçam a resposta que dei ao outro”, diz Rafael Santos, 27 anos, o condutor do 28E – oficial e orgulhosamente guarda-freios do elétrico – e autor do Diá-rio do Tripulante. Os brasileiros, segundo país em número de turistas em Portugal neste ano, formam grupos cada vez maiores por ali e tiram fotos de tudo. “É que também há bondes no Brasil, no Rio de Janeiro, se não me engano.”

Vera Agostinho,  de 28 anos, mantém o “Pssht.. ó menina!” e aprecia turistas. “Para começar, estão de férias. Entram, comem rápido, não ficam uma hora com um café na frente e ainda deixam uma boa gorjeta.” O recorde da agilidade é dos espanhóis, diz, que resolvem essa questão nutritiva em 15 minutos. Acabam bem recebidos até quando só se espera ver clientes a levantar. A generosidade dos americanos ela se ocupa em confirmar cada vez que atende um, gastando bastante o inglês em dicas turísticas e perguntas simpáticas sobre aquele além-mar. Dos italianos, mal consegue falar sem rir: não entende por que, em Portugal, vão atrás de pizzas e massas no restaurante onde trabalha.

O esmero na classificação de clientes à base da ironia portuguesa está registrado nos escritos na internet. Vera aprendeu que de cliente surdo-mudo nem adianta esperar sequer um oi entre dentes: “Não quer saber de sugestões porque não está disposto a ouvir e responde com um grunhido porque não quer falar. Paga e sai. Nem um adeusinho”. No bonde, o maior sofrimento é com quem estaciona em cima dos trilhos, sai para um cafezinho e se irrita quando Rafael carrega na campainha. “Tá com pressa? Passa por cima!”, emendam. “Aí chegamos ao ponto e temos de ouvir desaforos: ‘ficam jogando cartas, ficam passeando’.” Dentro do veículo, concentra-se para ficar calado quando uma menina entra fuzilando “perdi meu exame por sua culpa” e reitera a incompetência do motorista por todo o trajeto. Dizer que ela poderia ter saído mais cedo de casa é besteira. “Há pessoas caçando briga e tentam conseguir uma até se o bilhete não passa na primeira tentativa.”

As formas de insulto variam e mudam quem as ouve. Um dia, Vera pergunta a um casal se é mesa para dois e ouve um “não, é pra 25”, com tom que para ela é de fim de 26 anos de casamento. No outro, avisa que o petit-gateau demora 15 minutos e é informada de que não está lidando com ignorantes. Antes ela ia para o banheiro chorar. Hoje, queima tudo no humor ácido do blog. “Os trato basicamente como retardados e, se forem um pouquinho inteligentes, percebem que estou sendo irônica.” Vera acredita que a forma de tratar o garçom mostra quem, realmente, se é. “Eu queria atender os meus amigos sem que soubessem, para ver se merecem ser meus amigos.”

Há também os que vêm menos pelo serviço e mais pelo tricô. O pequeno espaço à esquerda, entre a cadeira de Rafael e a lateral do bonde, é dos mais disputados pelos que buscam companhia. Tem quem termine de jantar e vá dar uma volta de bonde como quem senta na varanda. “Há passageiros que já entram olhando para o cantinho e vão direto ali. É um trabalho de assistência social. Não posso conversar para não me distrair do trânsito, há um aviso dizendo isso, mas nesses casos não dá.” No restaurante, bom é atender clientes maduros, por volta dos 50, 60 anos. “Os jovens são arrogantes, os mais velhos esperam serviço à moda antiga.”

Os blogs tornaram-se panfletos virtuais e mesa de boteco dos trabalhadores da área, que desabafam nos comentários. Ele queria ser operador de câmera e acabou guarda-freios em busca de estabilidade. Ela se formou em jornalismo e não conseguiu emprego. Entre os frequentadores, as trajetórias se parecem. “Eu mesma tinha preconceito com a profissão. Hoje percebo que não sou menos, por isso não trato bem quem me trata mal”, diz Vera. Era o que estava prestes a fazer naquele dia de restaurante cheio, em que uma senhora idosa a chamou vezes seguidas para pedir o mesmo prato. Ia saindo do sério quando chegou o filho, se desculpando: ela tinha Alzheimer. Viu que tinha de dar um desconto às vezes.

Começaram escrevendo às escondidas, sem mostrar o rosto no blog ou aos chefes, mas após três anos ganharam holofotes. Vera chega a 600 visitas por dia, Rafael atinge isso na semana. Vera era proibida de revelar o restaurante no qual trabalha. Depois que parte do “Pssht..” virou livro e a economia mundial foi à breca, vai se tornando garota-propaganda do Zafferano. “Agora meu patrão disse para começar a fazer fotos. A crise reduziu o movimento, então é um boa publicidade.”

A julgar pela curiosidade, ninguém se importa em saber que na segunda há algumas sobremesas velhas nem se sente invadido. Os clientes simpáticos – que “se contam nos dedos de uma mão” – acompanham os posts e gostam. Nomes, ela só dá dos famosos. Rafael também empresta anonimato a quem passa o dia, observando: apaga as placas dos carros fotografados sobre a linha e não descreve roupas. “Não tem nada de reality show, é só o dia a dia de um guarda-freios de Lisboa.

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