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Desenvolvimento X, Geração Y

por Marina Barbosa — publicado 10/08/2010 11h31, última modificação 10/08/2010 15h14
Em sua estreia como colunista de CartaCapital, a antropóloga Marina Barbosa fala sobre os desafios da geração atual para promover o desenvolvimento

Convidada para integrar a equipe de colunistas da CartaCapital e, sobretudo, ter o espaço para dividir minhas experiências e opiniões com os leitores da revista, pretendo expressar de uma maneira espontânea o que sinto, penso e como entendo as coisas da vida. Livremente, sem muitas voltas e marcações. Pretendo abordar temas relacionados às questões humanas e à natureza, ao desenvolvimento, ou falar sobre a vida de pessoas de procedências diversas, buscando elucidar perspectivas diferentes, necessárias à consolidação das novas referências que regerão a sociedade do século XXI.

A questão do desenvolvimento, em particular, não é algo simples, pelas diversas correntes de pensamento que existem por aí e por estarmos na transição entre o fim do velho paradigma – ruína do socialismo real e a recente desestabilização do sistema capitalista – e o surgimento de um momento totalmente novo, ainda em formação.

Os valores que nortearam as sociedades até o presente parecem ter sido excludentes de uma forma ou de outra. O PIB, por exemplo, indicador consagrado para avaliar a saúde de uma economia, não traduz a realidade de cada indivíduo que compõe os grupos sociais.

Nesse sentido, concordo com a assertiva de Amartya Sen de que deveriam existir outros parâmetros para medir o desenvolvimento de uma dada sociedade. O premiado economista, que recebeu o Nobel de Economia em 1998, sublinha, em sua teoria sobre o desenvolvimento, a importância de se incluírem, por exemplo, o valor das capacidades e talentos dos indivíduos, a supremacia do ambiente democrático e de livre pensamento nas estatísticas sociais (que, de alguma forma, o IDH vem tentando suprir), como base fundamental para o florescimento e o avanço social.

Seria interessante serem consideradas as contribuições de pessoas que vivem à margem das instâncias de decisão. Vide o exemplo de Yoani Sánchez, premiada blogueira cubana, escritora do Generación Y. Mesmo sendo cidadã de um país politicamente fechado, teve a coragem e a criatividade para driblar os mecanismos de censura estatal e seguir em sua luta na construção de um mundo mais humano, democrático e livre.

Yoani, mãe, filóloga, amante da informática, encontrou na rede mundial de computadores - internet, o meio para transformar as frustrações com a política da família Castro, o isolamento e as limitações do cotidiano de Cuba em liberdade de ser quem é. Alguém que, a despeito de expressar as mazelas da realidade de um regime socialista desgastado, fadado a ser enterrado junto com seu líder, escolheu permanecer em Cuba, ser cubana, como porta-voz de uma geração que deseja ter mais espaço e recursos para ser, crescer e se desenvolver.

Participei em Cuba, em 1991, a convite do governo local, do Acampamento Internacional da Juventude, na praia de Varadero, quando pude conviver com os jovens cubanos, hoje adultos integrantes da geração Y narrada por Yaoni. Era o fim da guerra fria e, consequentemente, do financiamento do regime socialista pela ex-URSS, momento em que já eram notáveis as políticas de racionamento, como, por exemplo, do combustível. Adolescentes entre 12 e 15 anos, procedentes do lado de lá da cortina de ferro – soviéticos, tchecoslovacos e poloneses – convivendo com outros tantos do ocidente, sobretudo os que estavam alinhados ideologicamente com os movimentos sociais de esquerda. Sentados em rodas todas as tardes ou em filas para comer mirabel, esses adolescentes sonhavam com um futuro promissor, idealizavam Che Guevara e valorizavam as posições políticas de líderes como do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, Fidel Castro e Nelson Mandela, reunidos na festa do 26 de julho, próximo ao local do acampamento, para celebrar a data da Revolução Cubana.

Como testemunha ocular desse momento histórico e lendo as narrativas atuais de Yoani Sánchez, é fato que os ideais de desenvolvimento social, exaltados naquela época, ruíram. O modelo ali simbolizado, que propunha igualdade, educação e saúde para todos, definhou com o bloqueio econômico americano e usurpou o direito de expressão, de ir e vir e de sonhar desta geração que, hoje, ainda espera ser protagonista da construção de um país livre e economicamente desenvolvido, procurando entre os escombros, o norte, o caminho a seguir.

Como contemporânea dessas pessoas, situada do lado de cá dessa realidade, em um ambiente de abertura política, voltado às premissas do livre mercado, eu constato também os desafios e as contradições para ser e se viver em uma sociedade democrática e livre. Deparamo-nos frequentemente com as dificuldades de adequação aos fundamentos do mercado, no qual as qualidades inatas dos indivíduos muitas vezes são desqualificadas ou sobrepostas por um padrão de funcionamento sistemático, também excludente, que não condiz com as necessidades e características da grande maioria dos membros da coletividade.

É certo que os obstáculos e as oportunidades nunca antes imaginadas existem nos diversos regimes e formas de organização social na atualidade. A geração Y, hoje à frente desta construção social, tem a tarefa de consolidar uma nova identidade que permita superar as adversidades do passado e promover o desenvolvimento X, capaz de garantir a expressão plena de suas potencialidades.

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