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Rio de Janeiro

Desaparecimento do pedreiro Amarildo preocupa e comove no Rio

por Deutsche Welle publicado 02/08/2013 10h54, última modificação 08/08/2013 15h41
Amarildo de Souza foi visto pela última vez sendo levado de casa por policiais da UPP da comunidade da Rocinha. Anistia Internacional pede esclarecimento do caso
Tânia Rêgo / ABr
Amarildo Souza

Ato simbólico na Praia de Copacabana lembra o desaparecimento do pedreiro Amarildo Souza, morador da Rocinha

Manifestações nas redes sociais e nas ruas têm pressionado autoridades brasileiras para que apresentem informações sobre o paradeiro do pedreiro Amarildo de Souza, de 43 anos, morador da favela da Rocinha, no bairro de São Conrado, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Ele está desaparecido desde o dia 14 de julho, quando foi levado de sua casa por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do bairro, aparentemente por ter sido confundido com um traficante.

Na quinta-feira 1, um novo protesto fechou uma autoestrada que liga dois grandes bairros na zona sul da cidade e um grupo de manifestantes saiu da Rocinha em direção à residência do governador do estado, Sérgio Cabral. Carregando faixas e cartazes, os manifestantes pedem o esclarecimento do caso. Jornais brasileiros também repercutiram protestos semelhantes em São Paulo. Mais cedo, a polícia fluminense anunciou a troca no comando das investigações, que agora estão a cargo da Divisão de Homicídios (DH).

Um dia antes, a ONG Rio de Paz organizou ato simbólico nas areias da praia de Copacabana, usando manequins que simbolizavam desaparecimentos registrados pela Polícia Civil que ainda não foram solucionados. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) dão conta de que, desde 2007, já foram registrados quase 35 mil desaparecimentos no estado, segundo informa a Agência Brasil.

Nas redes sociais, aumenta o número de participantes de grupos como a comunidade chamada "Cadê o Amarildo?". A página no Facebook da ONG de defesa de direitos humanos Anistia Internacional mudou sua imagem de capa, também usando a mesma frase.

Para Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil, o desaparecimento de Amarildo é grave e "coloca a política de segurança do estado mais uma vez diante de sérios questionamentos sobre sua maneira de operar, especialmente em áreas de favelas e territórios pobres da cidade", segundo nota oficial. A organização pede "esclarecimento pleno" do ocorrido e "punição exemplar de eventuais responsáveis".

Prioridade

Segundo informações da Agência Brasil, o delegado da Divisão de Homicídios, Rivaldo Barbosa, recebeu ordens para tratar o caso como prioridade. "Estamos alinhados com o Ministério Público para procurar a maneira mais rápida para dar uma resposta satisfatória à família, à comunidade e a toda a sociedade", declarou.

O procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Marfan Vieira, reconheceu que violações de direitos humanos no Brasil são "crônicas". Segundo ele, existem duas principais linhas de investigação: uma que associaria o desaparecimento e eventual morte de Amarildo à ação truculenta dos policiais da UPP; e outra que trata o caso como consequência da ação de traficantes.

A polícia analisa imagens das câmeras de segurança instaladas na Rocinha e as que estavam funcionando próximas à UPP – duas delas apresentavam defeito no dia do desaparecimento. Além disso, também estão sendo processadas informações do aparelho e GPS das viaturas. Nesta quinta, o Instituto de Pesquisa e Perícias em Genética Forense da Academia de Polícia Civil do Rio de Janeiro comparou uma amostra de sangue encontrada em um dos carros da polícia com DNA fornecido pelos familiares de Amarildo, mas o resultado foi negativo.

Proteção para a família

Desde o dia 24 de julho, familiares do pedreiro estão no programa de proteção a testemunhas. Em conversa com jornalistas na ocasião em que a proteção foi anunciada, o secretário de Assistência Social, Zaqueu Teixeira, disse que a proteção permite que os familiares saiam da comunidade em segurança.

A esposa de Amarildo, Elisabete Gomes da Silva, diz acreditar que o marido esteja morto e teme retaliação. "Tenho certeza de que meu marido está morto. Já procuramos em todos os lugares, e nada. Não recebi nenhuma ameaça, mas estou com medo de que, quando a poeira baixar, os policiais possam fazer uma maldade contra mim e minha família", disse Elisabete em declaração à imprensa na última semana.

Autoria: Ericka de Sá, de Brasília
Edição: Alexandre Schossler


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