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Sociedade

Ross Perrett

Delírio tropical ou visão de futuro?

por Ricardo Carvalho — publicado 07/11/2011 13h00, última modificação 07/11/2011 13h00
O australiano garante que está muito lúcido. E vai além: ‘as Olimpíadas podem fazer com que o Brasil entre no cenário internacional de golfe e ganhe muito dinheiro com isso
Turquia

Na Turquia, o escritório de Ross Perrett projetou campos de golfe que ajudaram a fazer da região de Belek, próxima ao Mediterrâneo, um pólo para a prática do esporte

Ross Perrett traça um futuro ambicioso para o Brasil no golfe. Sócio da companhia Thomson Perrett, especializada no design de campos para a prática do esporte, o arquiteto australiano está no Brasil para acompanhar a escolha dos projetos finalistas para a construção do campo olímpico no Rio de Janeiro.

O golfe voltará a figurar entre os esportes olímpicos em 2016. E projetar o espaço no qual a modalidade será disputada após mais de 100 anos fora da lista do Comitê Olímpico Internacional (COI) apresenta-se como uma oportunidade de ouro. De acordo com Perrett, não será apenas o escritório selecionado que se beneficiará da instalação do complexo a ser construído na região da Barra da Tijuca. “O Brasil também pode ganhar muito com esse legado.”

Diversos escritórios de arquitetura especializados disputam o direito de projetar o campo. O anúncio dos oito finalistas deve ocorrer na próxima semana e o vencedor terá 300 mil dólares para planejar o empreendimento. Mas o que o Brasil teria a ganhar com o investimento num esporte praticado por apenas 25 mil pessoas, segundo dados a Federação Brasileira de Golfe?

A razão está numa indústria bilionária. Anualmente, segundo a Associação Internacional de Operadores de Turismo de Golfe, os golfistas amadores movimentam cerca de 48 bilhões de reais ao ano. Aliado à infraestrutura hoteleira da capital carioca, o campo pode se tornar um pólo de atração do turismo de golfe no País. “As mulheres vão para a praia e os homens para os carrinhos de golfe”, diz Perrett, em tom de brincadeira.

Neste ponto da conversa o australiano se anima. Pede a caneta do repórter e rabisca no verso de um envelope o que deveria se parecer com o contorno da costa brasileira. “Aqui é o Rio. Agora imagine outras cidades, como as do Nordeste, com campos de golfe associados à complexos hoteleiros.” O turista de golfe, lembra Parrett, costuma gastar bastante dinheiro por onde passa.

Exemplos de empreitadas similares não faltam. Na Turquia, a Thomson Perrett projetou um campo de golfe na cidade de Belek, às margens do Mar Mediterrâneo. A região tornou-se um imã de golfistas, principalmente europeus. “Os países do norte da Europa têm de interromper qualquer prática de golfe durante os meses de inverno. Por isso eles vão para a Turquia. E não há razão para eles não virem para o Brasil”, diz o arquiteto.

Mas fixar o Brasil no mapa mundial dos destinos do esporte requer mais do que projetos milionários. É preciso atrair competidores de renome e prestígio internacional para dar visibilidade aos campos brasileiros. Como trazer um atleta do nível de Tiger Woods para o Brasil? “Bem, antes de tudo é preciso dar dinheiro em premiações.”

Ao olhar os números da Federação Brasileira de Golfe, vê-se porque as estrelas internacionais passam batido pelas competições do País. Enquanto as etapas nos Estados Unidos costumam distribuir mais de cinco milhões de dólares em prêmios aos competidores, o último Aberto do Brasil desembolsou 250 mil reais. A título de comparação, o campeão do Aberto brasileiro recebeu 45 mil reais, enquanto que nas etapas do PGA Tour norte-americano os vencedores costumam ser agraciados com boladas acima de um milhão de dólares.

Diante desse cenário, o sonho de Ross Perrett pode parecer um delírio. Talvez desses delírios tropicais que acometem os estrangeiros quando se deparam com a exuberância das terras brasileiras. O australiano, entretanto, vê razões bastante concretas para o otimismo. “Todos estão falando do Brasil no exterior. Não prevejo dificuldades para atrair investimentos num país em franco crescimento. Além do mais, a diversidade da costa brasileira permitiria projetar diferentes campos de golfe de acordo com as especificidades de cada terreno.”

Mas como o senhor projetaria – pergunto – um campo de golfe olímpico no Rio de Janeiro? Os olhos de Perrett, com a mesma empolgação com que ergueram no verso de um envelope pelo menos oito complexos hoteleiros cinco estrelas, com seus respectivos campos de golfe, ao longo da costa atlântica, voltam a brilhar. “Well... well. Nós temos um conceito de respeito pela terra, respeito pela cultura e respeito pelo jogo.” Em seguida, o arquiteto fala de um campo de golfe rodeado pela vegetação predominante da Barra da Tijuca. “É sempre melhor manter as árvores nativas no campo, elas crescem naturalmente felizes. Imagino também os uniformes dos caddies (funcionários responsáveis por levar os tacos dos competidores) representando a alegria brasileira, com cores bastante chamativas. Hum... o primeiro buraco deveria dar o taste do restante do campo e o último tem que ser como um estádio, com espaço para milhares de espectadores.”

Falo sobre as competições do Pan-Americano no Rio de Janeiro e de obras deixadas às traças após a realização dos jogos. Como manter um campo de golfe após o evento olímpico? “Well... well. Acho que a manutenção de um campo destas proporções custaria em torno de um milhão de dólares ao ano.” A construção, pondera, deve girar em torno de 10 a 15 milhões de dólares. Perrett toma de novo a caneta do repórter. “Na Austrália há campos que têm até 15 mil rounds (volta completa nos 18 buracos) por ano. Se as famílias pagarem de 20 a 50 dólares para praticar, já há uma receita. Mas isso requer que o esporte seja mais popularizado.”

Se popularização é uma palavra forte demais, é certo que o esporte pelo menos tem se deselitizado nos últimos anos. Há 15 anos, só praticava o jogo quem fosse sócio de um clube fechado, nos quais o acesso é restrito aos sócios. Hoje, muitos campos abrem suas portas para que qualquer mortal arrisque umas tacadas mediante o pagamento de uma taxa. Nesse sentido, o campo olímpico na Barra da Tijuca deve permanecer aberto ao público após a realização do mega-evento esportivo. Ainda assim comparações com a Austrália soam perigosas. Naquele país, são mais de dois mil campos de golfe para uma população que por pouco passa a linha dos 20 milhões de habitantes. No Brasil, de acordo com a Federação Brasileira de Golfe, são apenas 115 campos.

Mas Ross Perrett não vacila. “Look... na medida em que a economia for crescendo, haverá demanda por campos de golfe. E os empresários brasileiros vão perceber que dá para ganhar muito dinheiro com isso.” Ele parece bastante convincente.

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