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Declarações de ex-jogadores alemães revelam doping no futebol

por Deutsche Welle publicado 22/08/2013 15h46
Assunto veio à tona com estudo sobre doping na Alemanha Ocidental. Depoimentos de estrelas como Franz Beckenbauer e Bernd Schuster revelam que uso de substâncias era comum
Jan Bauer / AP
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Assunto veio à tona com estudo sobre doping na Alemanha Ocidental. Depoimentos de estrelas como Franz Beckenbauer revelam que uso de substâncias era comum

Grandes estrelas do futebol alemão têm falado abertamente sobre o tema doping nos últimos dias. O lado obscuro do esporte ganhou atenção após o jornal Süddeutsche Zeitung revelar um polêmico estudo da Universidade Humboldt de Berlim sobre o doping na Alemanha, no início de agosto. Enquanto isso, a Federação Alemão de Futebol faz esforços para intensificar os controles sobre a prática.

"É claro que nós tomávamos injeções de vitamina. O médico dizia que eram injeções de vitamina. Mas uma injeção de vitamina simplesmente melhora o desempenho ou é doping? Eu não sei. Afinal, o que é doping?", disse recentemente aquele que é considerado o maior jogador do futebol alemão de todos os tempos, Franz Beckenbauer, no programa de televisão Aktuelles Sportstudio.

Assim como diz não saber o que é doping, o jogador diz desconhecer, portanto, o conteúdo das tais injeções de vitamina. Mas Beckenbauer diz saber que o doping não é realmente efetivo no futebol. "Doping no futebol não faz sentido, porque se tem uma partida a cada dois, três ou quatro dias. E sabe-se que, quando o atleta se dopa, ele consegue um efeito ergogênico [de aumento de desempenho]. O corpo precisa, então, de um tempo para se recuperar", disse Beckenbauer.

Polêmica

A afirmação de Beckenbauer de que o doping no futebol não faz sentido por ser muito desgastante entre os jogos é, para especialistas, uma justificativa ousada do "imperador" (Kaiser) do futebol alemão – já que os repetidos níveis altos de estresse em curtos períodos de tempo são justamente o argumento usado para alguns atletas se doparem e, assim, aumentarem a capacidade regenerativa do corpo. É o que fazem os ciclistas profissionais.

Enquanto as afirmações de Beckenbauer provocaram risos dos espectadores, declarações de outro herói do futebol alemão evidenciam a seriedade do problema do doping.

Bernd Schuster, campeão europeu em 1980 e atual treinador do clube espanhol Málaga, disse à revista Sport Bild que, se doping for usado com finalidade "puramente regenerativa", ele não tem nada contra a prática. "Ela até faz sentido, se um jogador machucado se recuperar duas ou três vezes mais rápido após uma lesão." O objetivo é que o jogador lesionado volte o mais rápido possível ao seu desempenho regular, considera o treinador.

"Todo mundo tomava alguma coisa"

Assim como Beckenbauer, Schuster não parece não ter se importado com o que tomava na época em que era jogador. Era costume "tomarmos algumas coisas dadas por médicos e fisioterapeutas nas manhãs antes dos jogos. Todo mundo tomava alguma coisa."

As declarações causaram polêmica, já que no mundo do futebol, as questões relacionadas ao doping costumavam ser ignoradas. Assim, Schuster, que jogou em times como o Real Madrid, FC Barcelona e Bayer Leverkusen, revelou que o uso regular de drogas era habitual no futebol nos anos 1980 e 1990.

Tendo em vista a geração atual, Schuster fala em um ainda maior número de formas de tratamento no mundo do futebol. "Alguns jogadores têm em suas bolsas mais pílulas e comprimidos que desodorante ou perfume. Eles são muito sensíveis e precisam de pílulas para tudo", afirma.

Obviamente, as declarações de Schuster e Beckenbauer não permitem tirar conclusões definitivas sobre o que os medicamentos utilizados hoje pelos jogadores. E o doping no futebol continua não sendo um problema.

"Antes, não conhecíamos a palavra 'doping' como conhecemos hoje", diz Schuster. Trata-se de uma afirmação curiosa, já que a palavra existe desde o final do século 19, e os testes antidoping, desde 1968. Além disse, no livro Anpfiff (Apito Inicial), publicado em 1986, o autor e ex-goleiro Harald "Toni" Schumacher já revelara o uso de doping com estimulantes pela seleção alemã.

Prática não é novidade

Casos de doping no futebol não são algo inédito. O "banco de dados antidoping" do jornalista norueguês Trond Huso, por exemplo, lista mais de 170 casos no futebol.

Há indícios, também, de que a seleção alemã campeã do mundo em 1954 tenha tomado substâncias que aumentavam o desempenho. Traços de efedrina também foram encontrados em jogadores alemães na Copa do Mundo de 1966, quando a Alemanha perdeu para a Inglaterra na final.

Além disso, testes indicaram o uso de efedrina pelo argentino Diego Maradona em 1994, e de nandrolona pelo atual técnico da equipe alemã Bayern de Munique, Pep Guardiola, em 2001. A substância também foi usada pelo ex-jogador da seleção holandesa, Frank de Boer, que atualmente treina o Ajax de Amsterdã.

Nos anos 1990, testemunhas e decisões judiciais levantaram a suspeita de um sistema de doping no clube italiano FC Juventus e no francês Olympique de Marselha.

Um estudo recente na Alemanha Ocidental também mostra que a palavra doping já havia sido associada ao futebol. "Seria presunçoso pensarmos que o doping só ocorre entre atletas e nadadores", disse Paul Breitner, campeão mundial em 1974, à emissora austríaca TV Servus.

Breitner fez claras referências aos anos de 1986 e 1987, época do lançamento do livro de Toni Schumacher. "É claro que, nos anos anteriores já podíamos ver que o doping era um problema no futebol. Para mim, quem disser o contrário é um hipócrita."

Mortes misteriosas de jogadores italianos

Tais hipócritas parecem também existir no futebol italiano, que teve problemas graves com doping nos anos 1990, com consequências graves até hoje. Nos últimos anos, diversos jogadores italianos morreram ou foram diagnosticados com a "doença de Gehrig", também chamada de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença grave do sistema nervoso motor.

Em junho deste ano, o ex-jogador da seleção italiana Stefano Borgonovo morreu aos 49 anos. A partir de um estudo com jogadores profissionais italianos, a universidade de Pavia constatou "um sério aumento do risco de progressão de ELA" antes dos 49 anos. O advogado especialista em investigações relacionadas ao doping Raffaele Guariniello está determinado a reunir provas e levar o caso adiante, para avaliar se o doping no futebol italiano teria conduzido a doenças letais nos casos dessas mortes.

Autoria: Joscha Weber (mas)
Edição: Luisa Frey

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