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Decisão acertada

por Aurélio Munhoz — publicado 08/06/2011 16h48
Ao indicar Gleisi para o cargo, a presidenta fez muito mais do que se livrar do elefante em loja de cristais em que Palocci havia se convertido

Não poderia ter sido mais acertada a decisão da presidenta Dilma Rousseff de delegar à senadora petista Gleisi Hoffmann a hercúlea tarefa de substituir Antônio Palocci no ministério mais importante do organograma do Governo Federal. A Casa Civil da Presidência da República necessitava, de fato, de alguém com o perfil da senadora. Dilma, pessoalmente, também.

Ao indicar Gleisi para o cargo, a presidenta fez muito mais do que se livrar do elefante em loja de cristais em que Palocci havia se convertido. O outrora poderoso ministro-chefe da Casa Civil havia criado um problema político-institucional tão grave que, mais do que prejudicar gravemente o PT, iniciava uma crise de governabilidade no próprio Palácio do Planalto. Para Dilma, decididamente, Palocci já vai tarde.

A presidenta da República acertou na escolha de Gleisi por pelo menos três razões. Em primeiro lugar, porque se livrou do compromisso que havia assumido com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter Palocci no posto. É verdade que a indicação da senadora petista também recebeu o aval de Lula mas, livre do passivo político imposto pelo líder maior do PT, Dilma conquista um grau de autonomia bem maior em relação ao ex-presidente. Não há exagero em se dizer que, ao menos no aspecto político, o governo que a presidenta queria fazer quando se elegeu começará a ser desenvolvido agora, de fato. No aspecto político, o governo Dilma, mais do que nunca, ganha a sua cara.

Dilma Rousseff também acertou na escolha porque Gleisi Hoffmann constitui-se em um dos melhores quadros políticos do PT. Não nos referimos apenas ao fato de a petista ter sido a senadora mais votada do Paraná nas últimas eleições (com 3,2 milhões de votos, Gleisi ficou à frente do ex-governador Roberto Requião-PMDB, dono de três mandatos à frente do Palácio Iguaçu) e de ter sido a principal artífice da delicada obra de engenharia política que uniu PT-PMDB-PDT em torno do então senador pedetista Osmar Dias como candidato ao Governo do Paraná, nas eleições do ano passado. 

Referimo-nos, acima de tudo, ao fato de Gleisi simbolizar o que há de mais novo (na acepção dupla do termo) no rol de lideranças políticas expressivas do Partido dos Trabalhadores. Sua recente incursão no rol de estrelas nacionais da legenda e seus 45 anos, reduzidos pela aparência mais jovem e um quase sempre presente sorriso no rosto, garantem à nova ministra o frescor político que o PT perdeu por conta dos fracassos eleitorais e/ou dos grosseiros erros administrativos de vários medalhões da legenda que estavam cotados para o cargo.

Não faz nenhum sentido dizer, como insiste em afirmar a oposição e amplos setores da mídia, que a senadora não tem experiência política para a tarefa. Lideranças políticas como o senador Alvaro Dias (curiosamente, paranaense como Gleisi e a única voz contundente contra o governo) e as pessoas que acompanham os atores sociais do Estado conhecem a tenacidade da petista no embate político. Esquecem-se, além disso, que a pessoa que assumiu este mesmo ofício entre 21 de junho de 2005 e 31 de março de 2010 recebeu críticas do mesmo teor e é, hoje, presidenta da República.

Finalmente, Dilma acertou no alvo ao indicar a senadora porque Gleisi tem um perfil fortemente técnico. A petista exerceu com competência todos os cargos que ocupou no Executivo. Primeiro, como secretária de Reestruturação Administrativa do ex-governador Zeca do PT, no Mato Grosso do Sul. Depois, como secretária de Gestão Pública do ex-prefeito de Londrina Nedson Micheletti. Mais tarde, como integrante ativa da equipe de transição de governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Finalmente, como diretora financeira da Itaipu Binacional.

Trajetória, aliás, similar à da própria Dilma Rousseff, que alavancou sua carreira política com base em uma forte atuação nocampo técnico - primeiro, na Prefeitura de Porto Alegre, na gestão de Alceu Collares. Depois, nos governos do próprio Collares e ainda no de Olívio Dutra. Finalmente, como ministra das Minas e Energia e da Casa Civil do governo Lula.

Ainda é muito cedo para se fazer uma avaliação sobre o impacto que a indicação da nova ministra da Casa Civil da Presidência da República causará no Paraná. O fato é que a simples indicação do seu nome já movimenta o cenário político do Estado, com vistas à sucessão de 2014. Fontes do PSDB paranaense admitem que aumentou sua preocupação com o risco de que um eventual mandato bem sucedido de Gleisi dificulte consideravelmente a candidatura à reeleição do governador Beto Richa.

No cenário nacional, porém, ao indicar a senadora para o ministério mais importante da República, Dilma Rousseff não deixa dúvidas sobre o futuro do seu governo. Redimiu-o do grave equívoco de ter em seus quadros a figura incômoda e Palocci e, a um só tempo, renovou o próprio PT, que agora vê surgir uma nova (e grande) liderança nacional.

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