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De Volta para o Passado no Brasil de Cunha

por Mauricio Moraes publicado 22/10/2015 09h17
Projetos conservadores são cortina de fumaça para tirar o foco da corrupção
Lula Marques / Agência PT
Carlos Sampaio e Eduardo Cunha

Carlos Sampaio, líder do PSDB, ao lado de Cunha após entrega de pedido de impeachment

O dia 21 de outubro de 2015 era a data em que o jovem Marty McFly aterrissaria com seu carro supersônico em um então distante futuro, isso lá nos idos de 1985. O protagonista do clássico filme De Volta Para O Futuro, vivido por Michael J. Fox, chegava em um mundo com carros voadores e garçons holoágricos – uma modernidade ímpar. Tivesse aterrissado em Brasilia, no entanto, a realidade seria um tanto diferente, não menos extravagante. 

O dia 21 de outubro de 2015 será lembrado como o dia em que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo das 23 contas na Suiça Cunha, fez tramitar na Comissão de Constituição e Justiça da Casa seu famigerado projeto de lei que criminaliza a heterofobia. 

O PL é uma grande peça de ficção (que faz inveja ao dito filme aqui), por considerar que os heterossexuais brasileiros estão ameaçados por gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. É como se os heteros andassem levando golpes de lâmpada na cabeça enquanto andam na Avenida Paulista, como se homens e mulheres fossem brutalmente mortos nas ruas por andarem de mão dadas ao melhor estilo tradicional família brasileira. 

A tal heterofobia é tão real quanto as declarações de Cunha de que ele não tinha nenhuma conta no exterior. Aliás, Cunha, espertalhão como é, sabe que não existe heterofobia. Essa história é só uma cortina de fumaça na tentativa de desviar a atenção das investigações que mostram suas digitais na roubalheira de dinheiro público, agora escancaradas com as fotocópias de seu passaporte e com detalhes bizarros como os carros de luxo comprados em nome de seu site Jesus.com.

Também serve para fazer uma média com sua base de religiosos fundamentalistas que acreditam em "ditadura gay" e coisas do tipo. É o tal ópio do povo já alertado pelo velho Marx. 

O perigo maior do Cunha camicase, ciente do perigo de ser defenestrado da presidência da Câmara sem ter conseguido emplacar o impeachment da presidenta da República, nem é aprovar a tal lei da heterofobia – o projeto é tão absurdo e folclório que (assim espero) não deve passar no Plenário.

A maior ameaça paira sobre os direitos das mulheres brasileiras. No mesmo dia 21 de outubro, a mesma CCJ aprovou outro projeto de lei que restringe ainda mais o direito da mulher a seu próprio corpo, e que pode ganhar maior apoio entre os deputados (é bom lembrar que 90% dos congressistas são homens). 

Segundo o projeto, as vítimas de estupro (um dos poucos casos no qual o aborto é permitido no País) terá de se submeter a um exame de corpo de delito para confirmar o crime antes de receber o devido tratamento médico. Hoje, basta a palavra da vítima. É muita humilhação para quem já sofreu tamanha violência… O projeto ainda dificulta a venda de abortivos.

Dia 21 de outubro também foi o dia em que Cunha das Contas Suíças recebeu mais um pedido de impeachment para derrubar a presidenta da República. Recebeu das mãos de sorridentes líderes da oposição, como Carlos Sampaio, do PSDB, e Paulinho da Força, do Solidariedade, que berraram contra a corrupção que seria representada por Dilma, sem sequer citar ao menos uma das 23 contas de Cunha no exterior. Indignação seletiva no mais alto grau, o da desfaçatez. 

E quando em Brasilia a gente já achava que tinha visto de tudo, no outro lado do mundo o primeiro-ministro de Israel protagoniza outra cena digna de ficção, dizendo que Hitler não foi o arquiteto do Holocausto. Culpou os palestinos pelo genocídio de milhões de judeus na Segunda Guerra. 

O revisionismo histório de Benjamin Netanyahu é bastante revelador de como funcionam as mentes maníacas de líderes que não sentem qualquer constrangimento em falar as maiores besteiras para dar sustentação a planos maquiavélicos contra quem consideram inimigos. Por lá, os palestinos. Por aqui, os LGBTs. Afinal, Cunha e Netanyahu são muito parecidos e dariam um par perfeito.

Tivesse chegado ao futuro neste dia 21 de outubro de 2015, Marty McFly talvez se decepcionasse com o fato de não termos carros que voam. O que ele tampouco imaginaria é que, por aqui, haveria gente interessada mesmo em voltar para o passado. No Brasil de Cunha, a vanguarda do atraso dá o tom.

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