Sociedade

De Viola Davis ao Brasil: websérie com mulheres negras em destaque

por Djamila Ribeiro publicado 21/09/2015 13h18, última modificação 23/09/2015 09h46
Discurso da atriz na cerimônia do Emmy vai ao encontro a projeto que conta as histórias das mulheres negras sob a ótica das mulheres negras
Acervo Pessoal
Criadoras do projeto 'Empoderadas'

As criadoras do projeto: à esquerda, Renata Martins e, à direita, Joyce Prado. No centro, Raquel Trindade

No domingo, 20, a atriz Viola Davis foi a primeira mulher negra a ganhar um Emmy como melhor atriz em série dramática em 67 anos. Isso diz muito sobre como a mídia retrata a mulher negra.

Viola fez um discurso emocionante. Citando Harriet Tubman, disse “em meus sonhos e visões, eu via uma linha, e do outro lado da linha estavam campos verdes e floridos e lindas e belas mulheres brancas, que estendiam os braços para mim ao longo da linha, mas eu não conseguia alcançá-las”. E finalizou: “Deixem-me dizer uma coisa: a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”.

O discurso de Viola, além de mostrar a falta de oportunidades para mulheres negras nos EUA, vai ao encontro do objetivo de um projeto muito interessante, o Empoderadas, criado por mulheres negras brasileiras.

Contar a história sob o nosso ponto de vista, talvez possamos definir assim o objetivo da websérie Empoderadas que pretende entrevistar e contar a história de mulheres negras de diversas formações e áreas de atuação. Um trabalho de protagonismo que, ao mesmo tempo que coloca a mulher negra num papel destaque, denuncia a invisibilidade dessa mulher na mídia hegemônica.

O projeto foi concebido pelas cineastas Renata Martins e Joyce Prado que se incomodavam com o modo como a mulher negra é retratada pela mídia. “Há uma construção histórica, ideológica, violenta e equivocada entorno do 'ser mulher negra'. Essa construção passar por vários símbolos que se tornaram signos ao longo da história: tom de pele, textura do cabelo, largura do nariz, quadril, ausência de capacidade intelectual, entonação da voz, entre tantos outros. Estas significações sempre utilizadas de forma violenta tentam negar a nossa humanidade, subjetividade e individualidade, pois, nos forçam ser uma, quando na verdade, somos várias. No entanto o que se perpetua historicamente são os estereótipos reiterados por vários suportes midiáticos.”, explica Renata.  

Já foram produzidos diversos vídeos, sendo que um dos últimos com a MC Soffia, uma rapper de apenas 11 anos, viralizou na internet por mostrar a consciência e visão dessa jovem mulher negra.

“Comecei a perceber que a cumplicidade entre nós era muito grande e sinto que ela vem a partir das experiências que compartilhamos como mulheres negras. Não temos a mesma idade, os mesmos conhecimentos e experiências, mas mesmo assim compreendemos umas às outras e compartilhamos de algo que é meio indescritível que tem a ver com identidade e identificação. É mais forte do que empatia”, diz Joyce

Num país que teve quatro gerações de paquitas loiras, dizendo abertamente que meninas negras nunca poderiam participar daquele grupo, e que ainda insiste em manter mulheres na invisibilidade ou em papéis que reforçam estereótipos, o discurso emocionado e Viola e a websérie Empoderadas cumprem um papel importante.

“Pensar em imagens e em representação de mulheres negras é pensar de como eu gostaria de ser vista e o projeto tem possibilitado me apresentar para sociedade mediada por mulheres muito parecidas comigo; mulheres fortes, apaixonadas, sensíveis, frágeis, talentosas, feridas, resilientes, criativas, contraditórias, inspiradoras, enfim, humanas. O Projeto Empoderadas nada mais é do que uma forma de existirmos juntas”, finaliza Renata.

Viola Davis
A atriz Viola Davis é a primeira mulher negra a ganhar um Emmy como melhor atriz em série dramática em 67 anos. Foto: Valerie Macon / AFP