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Dê um rolê

por Jean Wyllys publicado 17/01/2014 15h50, última modificação 17/01/2014 15h58
Como a classe média brasileira se comportaria se as elites dos EUA e Europa fechassem suas fronteiras aos seus "rolezinhos" nos shoppings de Miami, NY e Paris?
Reprodução / YouTube
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Adolescentes durante "rolezinho" no Shopping Internacional Guarulhos, em dezembro

Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que em pleno século XXI um colunista de uma revista semanal brasileira foi capaz de escrever essa "pérola" sobre a garotada das periferias que participam dos chamados "rolezinhos":

"Não toleram as 'patricinhas' e os 'mauricinhos', a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização".

Só mesmo a revista Veja - hoje tribuna dos mais odiosos conservadores e reacionários racistas, classistas e homofóbicos do Brasil - podia abrigar tamanho descalabro. Vejam que a palavra "inferioridade" usada para se referir à juventude que faz os "rolezinhos" - palavra emprestada do vocabulário dos tempos da segregação racial e do Apartheid, nos quais, negros e pardos eram tido e tratados como "raça inferior" - convive, no texto supracitado, com outras expressões como "turba de bárbaros" (que evoca a velha dicotomia entre civilização e barbárie), "baderna", "selvagens" e "pivetes". Aliás, vale a pena reproduzir o contexto em que esta última palavra é usada pelo tal colunista: "Se a maioria de casos envolvendo pivetes nesses estabelecimentos ocorrer pelas mãos de pessoas com determinado estereótipo, então parece natural, apesar da afetação politicamente correta, que os seguranças ficarão mais atentos e preocupados quando alguém com tal tipo adentrar o local". Em outras palavras, o fulano diz que, independentemente de participarem de "rolezinhos" ou não, todas as pessoas com as características físicas dos que participam da ação - "inferiores" e "selvagens"em sua avaliação - também são perigosos e, por isso, devem ser policiados. Para o tal colunista, a segurança do shopping mais a PM deveriam agir como polícia de fronteira, conferindo o "visto" materializado na cor da pele, roupas, uso de determinadas variedades linguísticas e nos traços culturais e, assim, selecionar os que podem ou não adentrar o espaço. E eu que imaginava que as teorias racistas de Cesare Lombroso estavam sepultadas!

Não é por algum interesse em promover a leitura da mencionada revista que cito as palavras do tal colunista, mas porque elas são úteis para entender o racismo mal disfarçado e o elitismo que estão por trás da reação de alguns aos "rolezinhos" organizados por jovens das periferias e das favelas de São Paulo e outras cidades nos shoppings que frequentam a classe média e as elites urbanas. Eles são criminalizados não por terem cometido algum delito, mas por serem considerados "inferiores", "bárbaros", "selvagens" e, sobretudo, "invasores" dum espaço que não lhes pertenceria — sim, a palavra "invasor" também aparece no texto do tal colunista. Como diz a jornalista Eliane Brum, eles estão sendo criminalizados por ousarem cruzar as fronteiras físicas e simbólicas que os separam dos privilégios das elites e os distinguem destas: "Os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imaginário nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. Não geladeiras e TVs de tela plana, símbolos da chamada classe C ou “nova classe média”, parcela da população que ascendeu com a ampliação de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca".

A ascensão econômica de largas parcelas da população brasileira na chamada "era Lula" veio por meio, principalmente, da ampliação das possibilidades de consumo. Essa foi e continua sendo a medida do sucesso da mobilidade social. Todavia esse consumo, claramente segmentado, não veio acompanhado de mudanças estruturais nem de serviços públicos. Ascender socialmente é pagar escola privada, ter plano de saúde e comprar um bom carro, porque a escola, o hospital e o transporte público continuam deficitários e, por isso mesmo, signos de pobreza no imaginário de quem está "melhorando de vida". Ora, nesse imaginário, ascender socialmente é também poder usar ou pelo menos desejar de perto a calça, a camiseta, a cueca, o tênis, o boné, os fones de ouvido e o relógio de grifes... É poder comprar ou ao menos desejar de perto, volto a dizer, os signos da "vida boa" que publicidade constrói e enaltece no intervalo da programação televisiva e em revistas de celebridades. Muitos já não aceitam mais, diante dessa "festa" do consumo que os homens da publicidade armaram pra nos convencer, ficar apenas "na porta, estacionando os carros"!

Ora, se estamos construindo uma sociedade não de cidadãos, mas de consumidores, regulada pelas regras do mercado e não por aquelas derivadas do direito e da dignidade da pessoa humana, então, nesse contexto, há que se entender o fascínio pelo consumo — e também, claro, pelo consumo de luxo — que expressa o "funk ostentação" e que está na gênese de movimentos como o "rolezinho" no shopping.

Ou seja, no "rolezinho" como no "funk ostentação", não há "protesto contra o sistema" --como supõem certos desorientados à esquerda-- mas a expressão do desejo de fazer parte dele; de querer estar do lado de dentro, desfrutando do "fetichismo das marcas" e as ostentando como signos do sucesso na vida como o quer a onipresente e irresponsável publicidade. E é esse desejo que parece espantar aqueles que, à direita do espectro político, defendem o privilégio e a exclusividade que o mesmo capitalismo lhes prometeu. Mesmo parte da antiga classe média - que não é sequer rica - considera-se acima desses "marginais" que estão invadindo e desafiando os códigos de um território que acreditavam só dela.

Em Cenas da vida pós-moderna, a ensaísta argentina Beatriz Sarlo diz que o shopping "produz uma cultura extra-territorial" que fascina e atrai os que menos consomem ou podem consumir apesar do convite onipresente da publicidade para tal. Os mais pobres, diz Sarlo, "carecem de uma cidade limpa, segura, com bons serviços, transitável a toda hora; vivem em subúrbios onde o Estado se retirou e a pobreza impede que o mercado tome seu lugar; suportam a crise das sociedades vicinais, a deterioração das solidariedades comunitárias e o anedotário cotidiano da violência. O shopping é exatamente uma realização hiperbólica e condensada das qualidades opostas e, ademais, como espaço extra-territorial, não exige vistos especiais". Contudo, ela adverte, "na outra ponta do arco social", o acesso dos que menos consomem ao shopping "poderia afetar o que os setores médios e altos consideram seus direitos".

Essa reação em defesa do privilégio e o racismo, classismo e elitismo que a contaminam não se apresentam apenas na indignação contra os - e no apelo à criminalização dos - "rolezinhos". Ela também está presente na rejeição às cotas raciais nas universidades (aquele território que sempre foi tão branco). Ela está na notícia, veiculada semanas atrás, de que a PM carioca revistaria os ônibus e as vans que se dirigirem à praia e à zona sul, vindo das periferias além-Túnel Rebouças, contrariando o mito da democracia nas praias da Cidade Maravilhosa. Ela está na TV, quando o negro é apresentado sempre em papeis subalternos e o pobre é estigmatizado em seus modos e expressões, apresentados de maneira caricata. Está no preconceito linguístico. Está nas políticas públicas das prefeituras que fazem diferentes investimentos e oferecem diferentes serviços de acordo com o CEP de seus contribuintes. E está na reação de parte da mídia aos direitos trabalhistas que a lei reconheceu às empregadas domésticas.

Eu pessoalmente não tenho apreço pelo consumismo; e a minha idéia de felicidade e vida boa está mais associada ao ser (cidadão, inteligente, crítico, solidário e humanista) que ao ter (acessórios de grife vendidos em shopping). Como diz a canção, eu "só tô beijando o rosto de quem dá valor; pra quem vale mais um gosto do que cem mil réis". Mas nem por isso acho certo querer fechar as fronteiras dos templos de consumo aos "rolezinhos" da juventude das periferias. Quem quer isso escorrega ainda na hipocrisia; afinal, como a antiga classe média e a classe alta brasileiras se comportariam se as elites americana e europeia decidissem fechar suas fronteiras aos "rolezinhos" que muitos membros dessas classes costumam dar em shoppings de Miami, Nova York e Paris?

Enquanto eles se batem para responder a essa questão, dê um rolê!