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Sociedade

Crônica

De mordidas e outras violências

por Menalton Braff publicado 03/07/2014 15h58, última modificação 03/07/2014 16h00
Tenho visto agressões muito bem comportadas, apesar de minha pouca frequência à televisão e frequência nenhuma aos estádios
Javier Soriano/AFP

Estou pasmo com a atitude do Luisito, o Suárez. Fingiu que estava dando um beijinho no ombro do italiano quando, na verdade, estava tentando alimentar-se com sua carne. Ou não. Às vezes se mordem coisas que nem servem de alimento. No caso, principalmente, seria terrível que um jovem civilizado, nascido na Suíça sul-americana, cometesse a antropofagia. Não acredito. A mordida deve ter sido apenas um ato de violência, uma violência terrível, fora dos padrões da Fifa. Por isso foi banido por quatro meses do futebol e suspenso por nove jogos. Sim, porque prefiro imaginar apenas uma agressão em lugar de ato de alimentação.

E por falar em agressão, tenho visto agressões muito bem comportadas, apesar de minha pouca frequência à televisão e frequência nenhuma aos estádios (mas, enfim, alguém vai me explicar a diferença entre arena e estádio?).

Com “agressão bem comportada” quero significar aquelas que se mantêm nos limites da normalidade. E, neste caso, estou me lembrando de um jogo do Brasil contra outra seleção que já não me lembro bem qual foi. (Eu não disse que pouco entendo de futebol? Gosto de assistir a um jogo apenas por seu lado plástico, a coreografia, digamos, que pode produzir evoluções até com certa poesia.)

Mas não nos afastemos do libelo que estou tentando criar contra o Luisito. Ah, sim, o nome do brasileiro, também se não me engano é Leonardo. Com seu cotovelo quebrou os dentes do adversário na presunção, talvez, de que o mesmo intentasse morder-lhe o rosto. Problema nenhum. Recebeu, me parece, um cartão amarelo, pois quebrar dentes com o cotovelo está perfeitamente dentro dos parâmetros estabelecidos pela Fifa. Não há necessidade de banimento, como no caso da mordida. Cotovelo não é dente.

Um outro atleta, dos mais respeitados do Brasil, em um jogo de campeonato nacional, quando a bola já estava (como diriam os cronistas esportivos da época) a mais de vinte jardas da dupla, mirou a perna do adversário e, sem lá grande delicadeza, entrou de sola conseguindo fraturar não me lembro se a tíbia ou o perônio (diz-se atualmente fíbula) do desinfeliz em sua frente. Foi advertido verbalmente, tendo o árbitro admoestante informado que na próxima perna quebrada ele seria punido com um cartão amarelo. Ora, pé é instrumento necessário ao jogo, sua ferramenta, o que não ocorre com os dentes.

Isso tudo eu vi. E vi muito mais. Cusparada em juiz eu também vi. Bem, mas cusparada é uma agressão que não contunde, não é mesmo? Então não há necessidade de banimento. Banir é só no caso de mordida, porque ombro de italiano não é alimento.

A Fifa vingou a Inglaterra? Ora, ora, que papo tolo. A Fifa, apesar de a Inglaterra ser o berço do football game, não é inglesa. E tenho dito.

Ah, me lembrei de mais um assunto. Tenho sido acusado de muita coisa, mas principalmente de usar excesso de ironia nas crônicas. Nem sempre, meus caros. Nem sempre. De vez em quando, contudo, brincar com as palavras, não é a luta mais vã, no entanto brincamos mal rompe a manhã. O Drummond que o diga.