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Sociedade

Crônica do Menalton

Das diferenças

por Menalton Braff publicado 15/07/2016 14h14
Sou diferente, sim, nem por isso paquiderme
Renaud Camus/Flickr
Estante de livros

Como fecho da entrevista, o jovem me pediu a indicação de algum livro, com algumas palavras sobre ele

De meu falecido pai aprendi algumas lições importantes. Esta, do respeito pelas diferenças, veio-me dele. Praticamente aprendi a andar ouvindo que se devem respeitar as diferenças.

Hoje, quero crer que uma das causas do terrorismo que assombra muitas nações seja justamente a humilhação que sofrem muitos diferentes. E pôr fim ao terrorismo, como propalam gargantas desafinadas com o mundo, torna-se impossível, pois eles, os diferentes-humilhados-terroristas estão em toda parte e não são reconhecidos antes de praticarem o terrorismo.

Existem os românticos, que acreditam nos poderes de Batman, acreditando que ao matarem fulano ou ao reconquistarem aquele território, o problema esteja resolvido. Esquecem ingenuamente os “lobos solitários”.

Quem são eles? Ninguém sabe antes de saber.

Bem, mas não era disso que eu queria falar. Então vamos à crônica.

Tempos atrás um jovem repórter pediu-me uma entrevista, e tenho por norma jamais me recusar, mesmo sob condições adversas. Tenho consciência do que representa a mídia para mim e aprendi a respeitá-la. Apesar de tudo, pois existe mídia e mídia.

Como fecho da entrevista, o jovem me pediu a indicação de algum livro, com algumas palavras sobre ele. Se vivo entre livros, e os manipulo diariamente, não foi difícil escolher um, cuja leitura me parece fundamental para qualquer pessoa que se queira culta. Mas o repórter não estava satisfeito. Acabou pedindo a indicação de um DVD. Arregalei os olhos, e ele, gentilmente, explicou: algum show que o senhor recomende.

Quando percebeu minha atrapalhação, olhou-me com sorriso sardônico:− Mas nenhum? Eis aí um cara diferente, deve ter pensado, um ser que não nos merece crédito tampouco atenção.

Fez-me sentir um paquiderme, um ser fora de seu planeta. Não tive como responder na fogueira do tempo, mas agora tento explicar-me. Procurei uma resposta rapidamente, mas não havia show algum na algibeira do meu paletó nem na manga do meu colete. Embasbaquei.

Meu caro jovem, amo a música, que estudei até certa altura da adolescência, quando me engolfei na palavra. Eduquei meu ouvido para sutilezas de timbre, combinações, variedades rítmicas. Tenho necessidade de música, que costumo curtir muitas vezes de olhos fechados, para não perder nada.

De show não, de show não entendo. Mas me parece que não é música o que se busca em um evento desses, senão a comunhão com os da tribo, numa espécie de rito que não me diz nada.

Sou diferente, sim, nem por isso paquiderme.

Nem melhor, nem pior, apenas diferente.