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Da 'sloper' da alma

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 22/05/2009 15h51, última modificação 21/09/2010 15h58
No Centro da Cidade. Pegue a Rua Gonçalves Dias, dobre a Ouvidor à esquerda, saia na Uruguaiana e se depare com a loja que abrigou a Casa Sloper, hoje ocupada por uma rede de roupas populares, um tanto sufocante e poluída, com aquele mau gosto dos que copiam toscamente tudo o que está na moda

No Centro da Cidade. Pegue a Rua Gonçalves Dias, dobre a Ouvidor à esquerda, saia na Uruguaiana e se depare com a loja que abrigou a Casa Sloper, hoje ocupada por uma rede de roupas populares, um tanto sufocante e poluída, com aquele mau gosto dos que copiam toscamente tudo o que está na moda. Onde foi parar o brilho das bijuterias e do imenso lustre de cristal que pendia do teto de um pé direito altíssimo, circundado por um jirau?

Os berloques dourados da Sloper eram tão objetos de desejo de senhoras e senhoritas elegantes que inspiraram os versos finais de Bijuterias, música de João Bosco: ”Transparentes, feito bijuteria da Sloper da Alma”. A canção fez sucesso como tema da novela “O Astro” (1977/78), de Janete Clair, em que Francisco Cuoco era um vidente de araque.

Numa interpretação livre, a expressão bosquiana “sloper da alma” sugere um estado de espírito elevado, o mesmo que tomava conta dos cariocas, que iam às compras ou levavam os filhos para passear no Centro, no tempo em que a arquitetura urbana, ainda ordenada, lembrava Paris.

Tanto que, mais adiante, ainda na Ouvidor, esquina do Largo de São Francisco, as madames da alta sociedade tinham também a Notre Dame de Paris, palco de um delicioso conto de Joaquim Manuel de Macedo, em que um casal de noivos se perdia (perder, perder mesmo) naquela “loja de modas” (sic), considerada imensa, um magazin como a Printemps parisiense. Imagine se o escritor fluminense tivesse conhecido uma loja como a antiga Mestre & Blatgé, a Mesbla, na Rua do Passeio, em plena Cinelândia.

A Sloper era a uma loja de departamento compacta também nos moldes europeus. E à altura do ambiente fino e perfumado se comportavam as balconistas da loja, mesmo que de origem humilde, em seus uniformes e penteados impecáveis. Muitas meninas que iam à loja acompanhadas de suas mães tinham como projeto trabalhar na Sloper quando crescessem. Na seção de maquiagem, as clientes sentavam-se em frente ao balcão e a atendente criava, com acuidade, uma cor personalizada de pó- de-arroz para cada cútis. Vangarde em customização?

Um presente da Sloper era garantia de bom gosto para uma classe média ainda cheia de esperança. Além de acessórios, o magazine vendia cosméticos, vestuário feminino, masculino e infantil, roupa de cama e mesa, brinquedos, cristais e objetos de decoração. E o seu elevador quase transparente de portas douradas era uma espécie de nave sideral segura, subindo e descendo. Ai, ai. Quem ainda pegou a loja em seus tempos áureos, sabe que entrar lá era uma viagem para crianças e adultos.

Na zona norte do Rio, a loja tinha filiais menos charmosas, mas igualmente simbólicas, na Tijuca e no Méier. Na Bahia era o point mais porreta das madames soteropolitanas, no endereço da famosa Rua Chile, 21, no centrão de Salvador.

A Sloper de Copacabana, na Nossa Senhora de Copacabana, esquina com Raimundo Correa, teve um melhor destino que a do Centro e virou uma livraria. Nem isso cura a nostalgia de quem, desavisadamente, caminha pela área da Rua Uruguaiana e é capturado pela estupefação da realidade.

A poucos metros do Edificio Sloper, o nome resiste no prédio de salas comerciais, em direção à estação do Metrô Uruguaiana, cruza-se com o lúmpem – mendigos, doentes, desocupados, drogados - cujos áis se misturam ao pregão dos camelôs. A maioria vendendo cópias piratas de filmes em cartaz e que podem ser vistos na tela de uma tevê caquética, plugada a um gato de luz, sobre um caixote, bem no meio do seu caminho.

Melhor submergir na estação do metrô e tomar um trem para Copacabana? Não sabemos.

Guerras de religião Por que cargas d’águas a Igreja Católica está colocando o filme Anjos e Demônios, até agora um super-blockbuster internacional (quer dizer, católicos e não católicos e ateus estão se lixando para a falta de um nihil obstat), no seu índex filmorum proibitorum?

Trata-se de um filme de suspense e aventuras, em que o bandido morre no fim e a Igreja, o Vaticano, sai ganhando, pois a Religião acaba por vencer a Ciência, prometendo, entretanto, manter uma convivência pacífica com os novos herdeiros de Galileu.

Convenhamos, são os tycoons de Holywood que mais têm gostado do reacionarismo de Sua Santidade, o Papa alemão. Que, diga-se de passagem, não tem conquistado novo fiéis, e sim perdido ainda mais.

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