Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Coxinha

Sociedade

Coxinha

por Alberto Villas publicado 10/06/2014 18h55
A coxinha dos tempos do exílio quase matava a gente de saudade

Numa época sem Internet, Skype, Instagram e WhatsApp, haviam dez mil exilados em Paris, gente que não podia nem sonhar em colocar os pés no Galeão. Era, ao lado dessa gente disposta a derrubar o general Emilio Garrastazu Médici, que eu sentia na pele o que era saudade.

Saudade da família, dos amigos, do sol dourado e de pequenas coisas do meu país como  guaraná, feijoada, farofa, paçoquinha, bala Chita, cocada baiana, pé de moleque, cajuzinho. Quando alguém chegava trazendo uma garrafinha de Guaraná Caçula da Antarctica, uma lata de feijoada completa da Swift ou uma paçoquinha Amor, mesmo que meio estropiada, Paris virava uma festa.

O desespero era tamanho que um dia, um amigo cearense, numa crise de abstinência de farinha de mandioca, teve a ideia de fazer uma farofa usando serragem. Ele sonhou com isso, acordou, foi numa loja de bricolagem e voltou com um saquinho de serragem nas mãos. Colocou manteiga na frigideira, estalou dois ovos, jogou uma pitada de sal, um pouco e salsinha e, aos poucos, foi derramando aquela serragem. Na primeira garfada, o sonho acabou.

Tínhamos saudade do quiabo, do quibe, do ensopadinho de chuchu, do maxixe, do suco de caju, da carne seca com abóbora, do acarajé, do mugunzá, do bolo de rolo, do bobó de camarão, uma coisa assim meio música do João Bosco e Aldir Blanc. Mas, saudade mesmo, tínhamos era da coxinha de Dona Elvira.

Dona Elvira morava numa casa enorme no bairro do Carmo, em Belo Horizonte. Era uma casa que cheirava a farinha e ovo porque ela passava o dia fazendo rissoles, empadinhas, pasteizinhos portugueses e coxinhas. O cheiro se espalhava pelo bairro  inteiro, deixando todos os moradores com água na boca.

Era da coxinha de Dona Elvira que aqueles exilados de Paris, sei lá, acho que até abririam mão da luta armada em troca de umazinha.

Coxinha é uma invenção portuguesa mas, pensando bem, é coisa nossa. E nem tão difícil de fazer mas que nenhum filho de Deus perdido em Paris, ousou um dia levar adiante e fazer. Por que será? Era só pegar 2 litros de água, 1 quilo de farinha de trigo peneirada, 2 tabletes de caldo de galinha, 1 colher de margarina, uma pitada de sal e o frango pro recheio. Mas ninguém fez uma coxinha sequer naquela Paris dos anos 1970, apenas sonhou com ela.

Eu me lembro um dia em que um brasileiro chegou vendendo coxinhas numa fila de telefone quebrado, onde nós ligávamos de graça pra casa. Eram umas coxinhas tão esquisitas que custei a reconhecer que se tratava mesmo daquela da cozinha brasileira. Estavam meia amassadas, tortas, escuras, estranhas e frias.

Mesmo assim tirei umas moedas de francos do bolso e encarei uma. Havia um abismo entre aquela gororoba e uma coxinha de Dona Elvira, meio redondinha, crocante, quentinha, cheirosa e com um palito imitando o osso.

Tantos anos depois, começo a ouvir as pessoas dizendo coxinha pra cá, coxinha pra lá. Custei a entender que era a nova maneira de chamar os mauricinhos. Acho uma grande sacanagem chamar essa gente de coxinha, um desrespeito para com ela. Coxinha pra mim sempre vai ser aquela de Dona Elvira e pronto.

registrado em: