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Corra, Neide, corra

por Ricardo Carvalho — publicado 26/04/2011 16h38, última modificação 28/04/2011 10h51
Há mais de 10 anos Neide Santos comanda projeto no Capão Redondo que integra moradores em torno do esporte e forma maratonistas
Corra, Neide, corra

Há mais de 10 anos Neide Santos comanda projeto no Capão Redondo que integra moradores em torno do esporte e forma maratonistas. Por Ricardo Carvalho. Foto: José Eduardo Cunha

Meados de 1973, Capão Redondo, São Paulo. A menina Neide Santos, de 14 anos, foi convocada a substituir uma colega que tinha faltado no revezamento 4 por 100 metros num torneio intercolegial do bairro. Apesar de apaixonada pelas aulas de educação física e pelos jogos de queimada, vôlei e handebol, ela nunca tinha participado de uma corrida. Ao percorrer os 100 metros no menor tempo do dia, Neide deu-se conta do que queria fazer pelo resto da vida. A partir daí, não parou mais.

Aos 50 anos, pouco mais de 1,60 metro de altura, cabelos curtos e sempre com roupas esportivas, Neide já participou de 37 maratonas. Foram 28 edições da São Silvestre, desde 1977. “Nunca abandonei uma”, orgulha-se. A infância pobre e a necessidade de trabalhar desde a adolescência fizeram com que a maratonista, nascida em Porto Seguro (BA), desde os 8 anos no Capão Redondo, não conseguisse dar sequência a uma carreira profissional. Os treinos e as competições sempre dividiram espaço com a profissão de lojista e, posteriormente, de decoradora.

Conhecida no bairro pelo jeito extrovertido e pela dedicação ao esporte, Neide foi procurada por seis moradoras, em 1999, em busca de aulas de ginástica e corrida. “Depois de uns 15 dias, eu tinha 30 alunas.” O local escolhido para a prática dos exercícios foi o Parque Santo Dias, uma das únicas opções de lazer na região. A iniciativa evoluiu para o Projeto Vida Corrida, que conta com mais de 300 integrantes, 80% mulheres. As atividades são direcionadas a crianças, adultos e idosos. “A mais velha aqui tem 74 anos”, diz Neide. No domingo 17 de abril, numa etapa do Circuito Popular de Corrida de Rua de São Paulo, foi anunciada a construção da sede do projeto ao lado do parque, fruto de uma parceria com a Nike. A premiação tomou contornos de grande celebração. Neide faz questão de lembrar, porém, que houve um longo caminho a ser percorrido.

Nos primeiros meses do projeto, ela teve de trabalhar conceitos de postura, alongamento e corridas curtas. Os materiais esportivos, como pesinhos, eram improvisados com latas de tomate cheias de cimento. Para as modalidades com obstáculo, as barreiras eram improvisadas com cones e ripas de madeira. Antes de dar início aos exercícios, ela instruía as alunas a procurar o posto de saúde local para fazer o exame de condicionamento físico. “Muitas nunca tinham ido ao médico antes.”

Maria Helena de Jesus, de 55 anos, foi uma das primeiras a aderir à iniciativa, em 2000. Por sugestão do irmão, aceitou participar do projeto e começou pelas caminhadas. Dez anos depois, encara sem problemas os 5 quilômetros da etapa Campo Limpo do Circuito de Corrida de Rua da capital e orgulha-se dos “seis troféus e mais de cem medalhas conquistadas”, além de ter concluído quatro meias-maratonas, três na Universidade de São Paulo e uma em São Bernardo do Campo. Se antes se queixava de cansaço e desânimo, atualmente participa dos grupos de ginástica às segundas, quartas e sextas-feiras, além de treinar corrida às terças e quintas-feiras.

Com o número cada vez maior de corredores e corredoras, foi preciso achar financiamento. A gestão, define Neide, sempre foi “autossustentável”. Para a compra de materiais esportivos, como roupas apropriadas e colchonetes, as mulheres vendiam óleo de cozinha reaproveitado a uma usina que fabrica biodiesel. Para as inscrições em provas de rua, como a São Silvestre e as corridas em comemoração ao Sete de Setembro e ao aniversário de São Paulo, eram promovidos bingos e rifas na comunidade. “Com o dinheiro, sorteávamos os nomes de todos e os vencedores podiam se inscrever. Não tínhamos como pagar as inscrições, que variam de 40 a 150 reais.”

A garagem da casa de Neide, localizada a 300 metros do Parque Santo Dias, funciona, até a conclusão da sede, prevista para 2012, como o escritório do Vida Corrida. As reuniões, em que os sorteios são realizados, acontecem no botequim em frente ao parque. A falta de opções de lazer fez com que famílias inteiras aderissem às corridas. É o caso de Nilza Oliveira Almeida, de 34 anos. “Eu, minha filha de 5 anos, meu filho de 13, e meu marido participamos das atividades.”

A criação, em 2009, do Circuito Popular de Corrida de Rua de São Paulo foi a vitrine que Neide precisava para tornar o Vida Corrida conhecido. O circuito organiza um total de 25 provas ao longo do ano em regiões não atendidas pelas principais provas paulistanas. As inscrições são gratuitas. Na primeira participação do projeto no circuito, foram 20 inscritos do Vida Corrida. Nas edições de 2011, o projeto reúne uma média de 110 a 130 corredores por etapa.

Foi em uma das etapas que Neide tomou conhecimento de um prêmio oferecido pela Nike para projetos inovadores de inclusão de mulheres no esporte. O Vida Corrida ganhou o prêmio de 5 mil reais e comprou o primeiro computador do projeto. Com outra premiação, esta do Bradesco, deu início à regularização do projeto como uma ONG. “A documentação deve estar pronta no início de maio.” Ainda com a mesma quantia, quatro atletas do Vida Corrida, entre elas a própria Neide, puderam participar de duas etapas da meia-maratona de Lisboa, em 2010 e 2011.

Além de incentivar a prática de esportes, o Vida Corrida formou atletas competitivos, que disputam as primeiras colocações nas etapas do Circuito de Rua de São Paulo. Na corrida Campo Limpo, dois dos medalhistas, Silvanio do Nascimento e Cláudio Roberto Macedo, iniciaram no esporte sob a tutela de Neide. Na categoria feminina, a terceira, a quarta e a quinta colocadas foram formadas no projeto. Chamada ao palco durante o anúncio da construção da nova sede, Neide comentou, emocionada, o esforço para a construção do Vida Corrida ao longo de mais de dez anos. “Eu fiz o que sei fazer de melhor. E eu sei correr.”

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