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Corpos e almas

por Thomaz Wood Jr. publicado 01/10/2010 09h57, última modificação 01/10/2010 09h57
Dois filmes de grandes qualidades e pequenas audiências retratam os efeitos da colonização da vida privada pelas ideias do management

Dois filmes de grandes qualidades e pequenas audiências retratam os efeitos da colonização da vida privada pelas ideias do management

Os métodos e ideias do management começaram a ser concebidos há um século. Desde o início, o management tomou status de ideologia, baseada em uma fé inabalável no mercado, nos procedimentos racionais de gestão e no gênio empreendedor dos indivíduos. Nos anos 1990 e 2000, o management ganhou o mundo e transbordou das empresas para o governo, dos domínios corporativos para as esferas da educação e da cultura, das escolas de administração para as ruas, da iniciativa privada para a vida privada.

Hoje, respiramos – e transpiramos – as ideias do management. Semiconscientes, vamos impregnando nossas experiências, estilos de vida e decisões pessoais com conceitos vindos do mundo dos negócios. Nós calculamos o investimento em nossos filhos, avaliamos o custo-benefício de nossas amizades, gerenciamos nossas atividades de lazer e fomentamos nossas redes sociais, procurando delas extrair o máximo proveito.

Após duas décadas de intoxicação, os anos 2010 parecem configurar-se como o momento da ressaca: uma ressaca ética, cultural e social. Os incomodados pensam em mudar, mas não encontraram ainda voos para a sua Pasárgada. Dois bons filmes recentes (indicações do excelente blog de cinema Laranja Psicodélica) retratam o espírito da época e os efeitos da colonização da vida privada pelas ideias do management.

Confissões de Uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience, 2009), dirigido pelo veterano Steven Soderbergh, é um drama experimental. Sasha Grey, uma atriz de filmes pornográficos, interpreta a garota de programa Chelsea. Seu “diferencial” é oferecer aos seus clientes uma “experiência de namorada”. No decorrer do filme, Chelsea e seus clientes sentem os reflexos da crise econômica. Ao mesmo tempo, ela é aconselhada por diferentes especialistas a divulgar melhor sua “marca”, usando as mais modernas técnicas de marketing digital.

A vida de Chelsea é narrada em paralelo com a vida de Chris, seu namorado. Chris (interpretado por Chris Santos, um treinador e atleta) é um personal trainer, que vende fundamentalmente o mesmo que Chelsea: atenção, cuidado... uma experiência. O que os diferencia são as respectivas receitas: o ganho por hora de Chris é uma fração do ganho por hora de Chelsea. Na busca do sucesso profissional, Chelsea encontra-se com o Connoisseur Erótico, o proprietário de um website pornográfico que publica rankings de garotas de programa. Chris, por sua vez, viaja com seus clientes para Las Vegas, esperando viabilizar seu plano para expandir os negócios. No final do filme, a relação entre Chelsea e Chris está estremecida, suas vidas pessoais seguindo rumos incertos, ditados pelos humores da economia.

Almas à Venda (Could Souls, 2009), dirigido pela estreante Sophie Barthes, é uma comédia dramática. O ator Paul Giamatti faz o papel de um ator chamado... Paul Giamatti. Nas cenas iniciais, ele luta para interpretar o personagem Tio Vânia, da peça homônima de Anton Tchecov. A peça está prestes a entrar em cartaz. Paul é atormentado por suas dificuldades e está amargurado com a sua vida. Então, descobre um “armazém de almas”, uma clínica na qual os pacientes podem retirar sua alma e estocá-la. Paul é atendido pelo amável e sofisticado Doutor Flintstein. O ator segue em frente com o procedimento e retira sua alma.

Vivendo sem alma, Paul é outro homem, mais leve, assertivo e sem angústia. Entretanto, torna-se incapaz de interpretar o Tio Vânia, consternando o diretor e o elenco da peça. Paul retorna então à clínica, onde, pasmo, descobre que sua alma foi levada para a Rússia.
Em São Petersburgo, um empreendedor sem escrúpulos mantém um esquema cruel de aliciamento de doadores e tráfico de almas, que são transportadas para os Estados Unidos no corpo da “mula” Nina.

Determinado, Paul vai à Rússia para recuperar sua alma. No final do filme, Paul retorna à clínica, onde descobre que a instituição foi vendida para um fundo de investimentos. Os novos acionistas estão agora avaliando seus “ativos” e definindo novas políticas de preço com base no risco associado ao investimento realizado.

Confissões de Uma Garota de Programa e Almas à Venda são bons filmes, de pequeno orçamento e, infelizmente, reduzidas audiências. Em ambos, as ideias do management constituem uma sombra densa, a condicionar a vida dos personagens. Chelsea, Chris e seus clientes são seres frágeis que misturam afetos e negócios, os últimos a determinar os primeiros. O angustiado Paul e a mula de almas Nina aceitam com resignação o comércio de almas. Em suas obras, Barthes e Soderbergh conseguiram registrar com perspicácia e criatividade o espírito sombrio de uma época que insiste em misturar vida pessoal e vida profissional.

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