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Morto na quinta-feira, coronel Paulo Malhães temia por sua vida

Ex-agente do Centro de Informações do Exército foi encontrado morto um mês depois de prestar depoimento no qual confessou ter torturado, matado e ocultado cadáveres
por Marsílea Gombata publicado 25/04/2014 18:47, última modificação 26/04/2014 23:43
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malhães

Paulo Malhães em depoimento à CNV, em março

Encontrado morto em sua casa em Nova Iguaçu (RJ), nesta sexta-feira 25, o coronel da reserva Paulo Malhães sabia que corria risco ao revelar atrocidades de um passado que o Brasil busca ainda conhecer, apurou CartaCapital.

De acordo com um integrante da Comissão da Verdade do Rio, o ex-agente do Centro de Informações do Exército (CIE) deixara claro, em depoimentos privados, o temor do que poderia vir a ocorrer com ele. Em uma das conversas anteriores ao depoimento público de março à Comissão Nacional da Verdade, Malhães foi questionado sobre nomes de militantes infiltrados aliados ao regime ou mesmo de outros agentes da repressão. O coronel reformado contava ter medo, e dizia que não podia deixar escapar nomes porque estaria correndo risco de vida.

Malhães sabia, portanto, que estava sujeito a ameaças de quem não quer que a verdade seja conhecida. E mais: temia o justiçamento daqueles que temem ver seus nomes atrelados aos crimes imprescritíveis praticados pela ditadura brasileira.

Em 25 de março, Malhães foi autor de um dos depoimentos mais fortes prestados à CNV. Na sede do Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, Malhães contou, entre outras coisas, como o Exército fez para desaparecer com os restos mortais do deputado federal Rubens Paiva durante a ditadura civil-militar e como agentes do CIE mutilavam corpos das vítimas da repressão na Casa das Morte, em Petrópolis (RJ) – faziam isso arrancando suas arcadas dentárias e as pontas dos dedos para impedir a identificação dos corpos, caso fossem encontrados.

Não foi apenas o teor da fala de Malhães que chocou quem acompanhou o ex-agente do CIE dizendo ter matado “quantos foram necessários”. A frieza e a coragem em descrever as ações dos agentes torturadores contra militantes contrários ao regime militar também surpreenderam.

Malhães, que ali contribuía para a produção de provas sobre os crimes cometidos pelo Estado ditatorial, estava se expondo. O ex-agente CIE foi encontrado morto exatamente um mês depois de ter falado publicamente sobre as atrocidades cometidas por algozes do regime militar. O intervalo de tempo tão curto entre o depoimento e a morte causa estranheza.

Assustado com o fato de a morte por asfixia de Malhães ter ocorrido dias após o depoimento à CNV, Wadih Damous, presidente da Comissão da Verdade do Rio, não descarta a morte por queima de arquivo. "Qualquer profissional ligado à investigação vai trabalhar com essa hipótese. Pode ter sido assalto, mas fica difícil acreditar nisso uma vez que ele foi morto por asfixia quando andava de cadeira de rodas. É uma morte extremamente suspeita", afirmou Damous ao ressaltar a necessidade de uma investigação rigorosa sobre o caso.

A Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) investiga as circunstâncias da morte, e já ouviu a viúva e o caseiro. Além disso, os agentes buscam imagens de câmeras de segurança que possam auxiliar na identificação da autoria do crime. Ao 76 anos de idade, Malhães vivia com a mulher, Cristina Batista Malhães, na Baixada Fluminense, e se locomovia com a ajuda de cadeira de rodas. O crime teria tido início na tarde de quinta-feira 24, quando um grupo entrou na casa na zona rural de Nova Iguaçu. Malhães, a mulher e o caseiro foram amarrados em cômodos separados, até que no início da noite Malhães teria sido asfixiado com um travesseiro. De acordo com informações da Polícia Militar, o grupo levou uma submetralhadora 9 mm, uma pistola 9 mm, um revólver calibre 38, alguns rifles e duas carabinas.

O coordenador da CNV, Pedro Dallari, solicitou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que a Polícia Federal acompanhe as investigações, a cargo da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Para a CNV, o crime e sua eventual relação com as revelações feitas por Malhães devem ser investigados com rigor e celeridade.

Ainda que não se saiba o que motivou o assassinato de Malhães, o fato de ele ter sido encontrado morto pouco tempo depois de ter admitido ter torturado e matado com o aval do Estado evidencia as falhas em se garantir proteção aos delatores. Sem tal garantia fica ainda mais difícil não deixar expostos os agentes da repressão, como parece ter ficado o coronel. Não é demais lembrar que, em novembro de 2012, o também coronel e ex-membro do DOI-Codi Júlio Miguel Molina Dias foi encontrado morto em Porto Alegre. Dentre seus pertences foram achados documentos ligados ao caso Rubens Paiva.

Sem poder de intimação judicial, a CNV planejava convocar para a audiência pública sobre o caso Riocentro, semana que vem no Rio, a viúva do sargento Guilherme do Rosário, que morreu com uma das bombas do atentado fracassado no colo. Com a morte de Malhães, as chances de Suely José do Rosário comparecer parecem ínfimas – assim como a de qualquer agente da repressão em audiências futuras. Além de Malhães, o crime pode ter uma outra vítima: os próprios trabalhos da Comissão da Verdade.

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