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Copa do Mundo e Olimpíada: investimento público, lucro privado

por Fernando Vives — publicado 26/07/2011 10h42, última modificação 06/06/2015 18h16
Veja a íntegra da entrevista com o geógrafo norte-americano Christopher Gaffney, especialista no legado urbano de grandes eventos esportivos

Veja a íntegra da entrevista do geógrafo norte-americano Christopher Gaffney, especialista no legado urbano de grandes eventos esportivos, publicado na edição desta semana de CartaCapital (veja online ).

Nesta conversa,Gaffney critica a organização da Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 pelas entidades brasileiras responsáveis. "O planejamento urbano está sendo dirigido pelos grandes eventos e não usando os grandes eventos para melhorar as cidades. É uma oportunidade única de usar um investimento federal imenso mas que está sendo mal pensado e mal usado", afirma.


CartaCapital:
Quando começou a estudar o impacto urbano da Copa do Mundo?
Christopher Gaffney: Eu comecei a pensar nisso quando vi que construírem 20 estádios para a Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e no Japão. A utilidade deles hoje é quase zero. No Japão, apenas dois dos dez estádios estão sendo utilizados regularmente. O futebol lá segue ainda com muito menos público que o beisebol. E foram construídos em uma época de crise econômica asiática. Isso marcou uma nova fase da Fifa, para trazer a Copa para novas fronteiras e acelerar o processo de lucro da entidade. Começou-se a usar os grandes eventos esportivos financiados com dinheiro público para lucros privados: o governo assume o risco e os patrocinadores é que vão receber os benefícios. Aí estudei todas as copas e olimpíadas, pesquisei a história dos dois eventos.

CC: Os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, são considerados um marco nos lucros da cidade-sede, não?
CG: Exatamente. Em 1984 só tinha uma cidade candidata a sediar os jogos, porque até então era certeza que a cidade só perderia dinheiro com o evento. Em Los Angeles, não se usou dinheiro público e não se construiu nada, foram empreendimentos públicos usados com patrocinadores privados. Deu um lucro tremendo. Já em 1988, em Seul, a coisa mais marcante foi que não houve muitas mudanças de infra-estrutura urbana, mas o marketing subsidiado pelo governo para Hyundai, Daewoo lançarem-se mundialmente. E houve forte relutância de estudantes contra o governo (que havia deixado de ser uma ditadura militar em 1987). Nos anos anteriores, a ditadura usava a organização da olimpíada para reprimir o movimento estudantil em nome da segurança pública. Esse papel de transformação da olimpíada que tem hoje foi cada vez mais marcante para a cidade desde 1984, culminando com a transformação da cidade de Barcelona com os Jogos de 1992.

CC: Barcelona é considerado o exemplo mais bem sucedido de adequação da através dos Jogos Olímpicos. É um exemplo a ser seguido?
CG: Depende do critério. A olimpíada ajudou a cidade a se transformar num dos principais centros turísticos do mundo, com 55 milhões de visitantes por ano. E era uma cidade pequena, em 1992 tinha 1 milhão de habitantes, o que facilita a transformação. Mas é preciso lembrar que Barcelona tinha um plano diretor desde o início dos anos 1980 e a olimpíada fez parte dessa transformação de 20 anos. Os jogos foram pensados como parte do processo, mas não foram o fator determinante para essa transformação.

CC: Então Barcelona melhorou mas não foi só por causa dos jogos, mas sim por conta do plano diretor que envolvia a olimpíada para melhorar a cidade.
CG: Exatamente. Mas tem o outro lado: com a olimpíada, o aluguel explodiu na região central da cidade e expulsou as classes mais baixas, recém-imigrantes e população estudantil. Mudou a cultura da cidade. Quem pode viver no centro da cidade é classe média alta e alta, gente que tem lá casa de veraneio. Isso mudou para sempre a cultura da cidade. O (geógrafo britânico) David Harvey declarou que gostava muito da Barcelona de 1991, mas que já não reconhecia a cidade em 1993. Ela perdeu sua essência histórica. Hoje é menos para ser vivida e mais para ser apreciada, fotografada.

CC: O senhor acompanhou a preparação para os Jogos Panamericanos de 2007 no Rio de Janeiro. Como avalia o legado que ficou para a cidade?
CG: O Comitê Organizador para a Copa e para os Jogos Olímpicos diz que não houve nenhum legado urbanístico do Pan. O legado maior foi que essas mesmas pessoas que organizaram o Pan se credenciaram para sediar a Olimpíada. Só que a preparação para o Pan foi uma desorganização total, houve fortes indícios de superfaturamento e tudo foi orçado em 400 milhões e no fim acabou custando 4 bilhões de reais. Dez vez mais e sem legado, portanto. A vila do Pan (onde os atletas se hospedaram) tem uma taxa de ocupação de 35% agora. Fizeram dois leilões para vender apartamentos. Não conseguiram. O (centro de natação) Maria Lenk não é adequado para os Jogos Olímpicos, a Arena HSBC arena é só usada para shows grandes e no estádio do Engenhão toda hora falta luz. O estádio era pra ter custado 120 milhões de reais, e custou 430 milhões. Desorganização, falta de transparência.

CC: Em São Paulo, o Corinthians e a Odebrecht, construtora responsável por erguer o Itaquerão, receberam isenção fiscal para erguer o estádio porque ele traria benesses para a Zona Leste, região mais pobre da cidade. Faz sentido esse argumento?
CG: Não conheço nenhum caso em que isso tenha ocorrido. Conheço um caso em Baltmore (EUA) em que algo parecido talvez tenha ocorrido, mas o fato é que a maioria das pessoas não querem morar perto de um estádio. Significa que por volta de 60 vezes por ano há 40 mil pessoas chegando e fazendo barulho, às vezes com confusão. O comércio no entorno do Engenhão, por exemplo, segue igual, não houve melhoria nas ruas nem na vida das pessoas. Não existem exemplos, muito menos no Brasil, de estádio que traz benefícios para o entorno. A cultura de ir ao estádio, sobretudo a brasileira, é o cara que quer ir de carro, pará-lo dentro do estádio e depois ir embora após o jogo. Não existe essa coisa de o sujeito que passa o dia na região fazendo compras pra só depois ver a partida. Qual exatamente seria a vantagem de se abrir, por exemplo, um bar ou restaurante em volta do Engenhão se a possibilidade de lucro só ocorre 60 dias por ano? A lógica econômica dessa afirmação simplesmente não existe. Na maior parte do tempo o estádio está fechado.

CC: Sobre a Copa do Mundo 2014, é possível fazer uma comparação entre ela a a da África do Sul, que são países com economia e sociedade em níveis similares. Pelo que você viu na África, foi uma boa experiência?
CG: Pesando na balança, vou dizer que sim. Foi boa culturalmente para os sul-africanos, para reconhecer suas diferenças, para quebrar um pouco as barragens sociais que ainda são muito fortes por lá. Houve melhorias de transporte em Joanesburgo, por exemplo. Mas a dívida sul-africana com as obras do Mundial eram de 4 bilhões de dólares para sediar a Copa, a mesma quantia que a Fifa anunciou como lucro. Foi uma transferência direta de dinheiro público sul-african o para a Fifa. E nove dos dez estádios não estão sendo utilizados. O de Bloemfontein é o único regularmente utilizado por um clube.

CC: Então acabou sendo para a África do Sul porque passou uma mensagem para o mundo diferente daquela do apartheid, historicamente associado ao país. Mas financeiramente foi ruim.
CG: Exato. Abriu uma nova perspectiva para o país, mas são números bem significativos, gastou-se muito para um país que tem tanta carência que foi transferido para uma empresa privada como é a Fifa. Se você gasta 4 bilhões de dólares, deveria ter 8 bilhões de lucro.

CC: E como vê a organização da Copa do Mundo pelo Brasil?
São cinco ou seis pessoas comandando, e todos são ligados diretamente ao Ricardo Teixeira. A filha dele (Joana Havelange) é secretária geral do comitê. E é a primeira vez da história da Copa do Mundo que o presidente da federação nacional é também o presidente do comitê organizador local. E a estrutura permite que ninguém assuma responsabilidades: quando há um problema, o COL joga para o Ministério do Esporte, que pode jogar para a Infraero, que joga para a CBF, que diz que não tem nada com isso porque diz que os contratos são com as cidades, que pode jogar para o Estado, que pode jogar para a CBF. Não existe uma estrutura centralizada da Copa. E se você procura informações sobre a organização na internet, você chega só nas páginas da Fifa. Não há informações. E depois, quando apertar, a responsabilidade vai cair no colo do governo federal, como houve no Pan e na Olimpíada. Quando foi o Rio foi eleita a cidade-sede dos Jogos de 2016, Lula assinou um cheque em branco de 29 bilhões de reais ao assinar o contrato com o COI. Na hora do aperto, o poder público vai ter que arcar com os custos.

CC: E a seleção das cidades-sede? Há cidades como Natal e Cuiabá que nem têm como absorver o uso dos estádios que estão construindo...
CG: Cuiabá, Manaus, Brasília, Natal e Fortaleza. Em Recife, os três clubes têm seus estádios, não vão querer jogar em São Lourenço da Mata (cidade-satélite de Recife, onde está sendo construída a nova arena). O que há são jogos políticos, o Lula queria dar presentes para alguns políticos, como, por exemplo, o Blairo Maggi no Mato Grosso. Com o pretexto de aumentar o turismo no Pantanal, fazem um estádio para 40 mil pessoas em Cuiabá com uma nova linha de monotrilho urbano. É um investimento absurdo. E lembrando que estamos derrubando estádios que poderiam ser reformados.

CC: Você vê algo de bom na organização da Copa no Brasil?
CG: Estou vendo como uma oportunidade perdida. Um dos grandes problemas é o que vai ser entregue como transporte nas cidades. Em vez de entregar uma coisa faraônica como o trem bala, por que não estamos pensando para a Copa sobre o que o Brasil vai precisar daqui a 50 anos em termos de transporte público? Por que não construir uma malha ferroviária nacional em vez de ligar Campinas ao Rio de Janeiro com trem bala? O mesmo dinheiro pode ligar boa parte do Brasil com ferrovia convencional. Mas estamos tentando construir aeroportos para atender a demanda de 2014 no lugar de preparar as demandas de 2050. É tudo pensado a curto prazo. O planejamento urbano está sendo dirigido pelos grandes eventos e não usando os grandes eventos para melhorar as cidades. É uma oportunidade única de usar um investimento federal imenso mas que está sendo mal pensado e mal usado.

CC: E as Olimpíadas do Rio em 2016 estão no mesmo caminho?
CG: Absolutamente. Se você ver o mapa da região metropolitana do Rio e comparar com o mapa olímpico você vai ver que este último atinge só um pedacinho da região metropolitana: a Barra da Tijuca. E todo o sistema de transporte pensado está em um raio de cinco quilômetros de lá. Estamos privilegiando uma zona da cidade já privilegiada, estimulando ainda um aumento histórico da especulação imobiliária. De quem são os interesses por trás disso? O (prefeito) Eduardo Paes foi subprefeito da Barra e todos os interesses econômicos da reigão estão por trás dele. Faz parte do jogo político, inclusive da Copa. Todo megaevento traz especulação imobiliária. E no Rio de Janeiro, a Copa está sendo uma justificativa para retomar algumas partes da cidade que ficaram longes do poder público por muito tempo e tornar, por exemplo, a zona portuária, como uma espécie de Puerto Madero, em Buenos Aires, para se ter um padrão de consumo de classe internacional de turista que não pertence ao Rio de Janeiro.

CC: Então pode ocorrer no Rio de Janeiro o que houve em Barcelona?
CG: Com certeza. Estudantes e famílias de classe média baixa têm que ir para a Tijuca, São Cristovão ou Niterói, onde não existe melhoria de transporte com as Olimpíadas. Na teoria, a ideia de se sediar os Jogos é de se laçar uma malha de transporte por toda a cidade, mas na prática está isolando comunidades e cortando a cidade em pedaços talvez para sempre. Há três linhas de Bus Rapid Transit (que, aliás, foi pensada para os anos 80 e o Rio a usa atualmente). Elas saem do Galeão, Santa Cruz e Teodoro, todas em direção à Barra. É onde menos precisaria. Nenhuma linha vai para o Centro, ou Niteroi, ou Baixada Fluminense. Os fluxos atuais de tráfego não estão sendo atendidos pelas novas linhas que estão sendo criadas.

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