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Crônica / Matheus Pichonelli

Copa 2014: Palco da abertura, por enquanto, é um barranco

por Matheus Pichonelli publicado 25/04/2014 10h41, última modificação 25/04/2014 16h35
A 48 dias do pontapé inicial, não há local em São Paulo com menos clima de Copa do que o entorno do Itaquerão, relata Matheus Pichonelli
Matheus Pichonelli
Itaquerão

Terrão entre a calçada e as costas do estádio

Um estrangeiro que desembarcasse na quinta-feira 24 em São Paulo para conhecer o lugar onde se dará o pontapé inicial da Copa das Copas, conforme a denominação da presidenta Dilma Rousseff, provavelmente imaginaria que errou de endereço ou de temporada. A impressão de quem desce da estação Itaquera do Metrô, a poucos metros da Arena Corinthians, é que as obras estão a mil, só que para receber o Mundial de 2018.

A 48 dias da partida de abertura da Copa do Mundo, entre Brasil e Croácia, em 12 de junho, o que se vê no entorno do estádio é um amontoado de barro, barranco e concreto (clique na galeria ao lado para conferir). À esquerda de quem chega, o shopping Itaquera é o único ponto de referência a quem quer entrar no clima da Copa. Está decorado com as cores da bandeira, luminárias a imitar bolas quadradas de futebol (sim, elas existem, Quico) e um imenso “Gooooool” a ilustrar as costas de uma escada rolante vista de baixo. A cada três lojas, duas são de camisetas, calçados ou materiais esportivos, quase todas com o uniforme do Brasil à entrada. Até a ótica aderiu ao clima: os kits de óculos e lentes de contatos têm a companhia do Fuleco, o mascote da Copa, nas vitrines decoradas. Quem nunca viu um tatu-bola de óculos é porque nunca visitou o shopping Itaquera.

Em um entreposto entre o shopping e o estádio, centenas de pessoas se amontoavam, naquela manhã, na área do Poupatempo com a carteira de trabalho em mãos. Em um dos cantos, sem o mesmo frenesi dos assentos lotados, um senhor ditava a uma voluntária do programa Escreve Carta, do governo estadual, a missiva a ser entregue a alguém distante. O estrangeiro que quisesse conhecer o Brasil real, incapaz de ensinar seus habitantes a ler e a escrever, não precisaria andar quilômetros pelo Brasil profundo: bastaria atravessar a rua do Contorno.

Fora do shopping, tudo está em obra. Uma obra que, aparentemente, começou pelo telhado. As calçadas de pedras recém-colocadas e tomadas pelo pó parecem tudo, menos calçadas. Quem anda distraído corre o risco de topar com buracos, entulhos e declives. Não existem postes de iluminação nem cestos de lixo. A passarela é tomada por faixas amarelas a indicar que ali é “proibido passar”. Embaixo dela o terminal está em obras. A cobertura para o ponto de ônibus não foi sequer instalada.

De um lado a outro, o tráfego de caminhões trazendo e levando areia e barro é intenso. Entre guindastes, homens de capacete circulam pela obra com olhares sérios entre os trabalhadores de uniforme azul e alaranjado. “É preciso combater esse clima de não-Copa”, diz um visitante a um dos encarregados antes de se despedir e se encaminhar ao metrô. Quem seria?

De perto, é possível observar o tamanho do desafio, agravado naquela manhã por uma garoa fina e insistente. O lugar que dali a 48 dias estará no centro das câmeras de todo o Planeta ainda não afixou sequer os assentos vendidos feito água pelo sistema eletrônico da Fifa, a dona do evento. Se o estrangeiro estivesse com o ingresso em mãos, pensaria ter comprado um assento em um estádio onde só existe um esqueleto de vigas e concreto. É como comprar a passagem de um avião que ainda não existe.

Com a exceção de um crachá abandonado por um visitante, a indicar que por lá passou uma delegação de autoridades, não há nada por ali que pareça menos com uma obra padrão-Fifa. O crachá está jogado no barranco, um entre tantos que se erguem em uma área de terra inabitada em um bairro onde vivem 520 mil pessoas na zona leste.

Um dia antes, após visitar as mesmas estacas, o secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke, avisou que o calendário das obras não poderia mais sofrer alterações.

“Não há um único minuto a perder, temos muito trabalho pela frente. É uma corrida contra o tempo.”

O dirigente foi modesto. São poucos dias para a estreia do Mundial e o palco da abertura não está pronto. Haverá tempo suficiente para transformar aquele bloco de concreto e arame em um estádio? Possivelmente sim. A engenharia humana já obteve feitos mais notáveis em menos de 50 minutos.

Mas hoje quem visita a região percebe que, diferentemente do que diz o ministro Gilberto Carvalho, para quem o problema dos organizadores foi não ter dado visibilidade à parte boa do megaevento, não há muita pílula a dourar: o entorno do estádio ainda em obras é apenas um grande barranco.

Em São Paulo, não poderia haver menos clima de Copa do que o entorno do Itaquerão.