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Crônica / Matheus Pichonelli

Copa 2014: dez jogos para a História

por Matheus Pichonelli publicado 27/06/2014 13h58, última modificação 27/06/2014 16h50
Uma lista com dez motivos para gastar o play no YouTube e infernizar filhos e netos com episódios inesquecíveis protagonizados por Suárez, Neymar, Messi e cia
Foto: Ricardo Stuckert/ CBF
Neymar

Neymar comemora o seu segundo gol na vitória na estreia sobre a Croácia

Foram 136 gols em 48 jogos, média de 2,8 por partida. A primeira fase da Copa de 2014 (sim, está tendo Copa, e que Copa, amigos), encerrada na quinta-feira 26, deixou uma missão árdua para torcedores e colunistas das melhores casas do ramo: escolher os dez principais duelos até aqui. Com uma pequena ajuda dos amigos, tentei montar a lista dos principais jogos que já estão cravados na História das Copas – aqueles que, por diferentes motivos e contextos, levarão os fãs de futebol a gastar o play com reprises no YouTube para infernizar a vida dos filhos e dos netos daqui alguns anos e dizer: “rapaz, aquele dia foi fogo”.

Aos jogos (e não necessariamente na ordem de importância):

 

Brasil 3 x 1 Croácia
Depois de 64 anos, o Brasil voltava a sediar um Mundial de futebol. Logo na estreia, com todos os olhares, expectativas e desconfianças no gramado da Arena Corinthians, a tensão virou fratura exposta logo no início, com um gol contra do lateral Marcelo. Podia ser pior? Podia, caso o estreante Neymar não chamasse a responsabilidade para a virar o jogo com um petardo de perna esquerda e a conversão de um pênalti inexistente sobre Fred – Oscar, melhor em campo, ainda seria premiado com um gol, chorado, de bico, no canto. Se havia dúvidas sobre se o camisa 10, aos 22 anos, era capaz de liderar a equipe em uma Copa de tal magnitude, ela acabou naquele 12 de junho de 2014.

 

Espanha 1 x 5 Holanda
A estreia das equipes era simplesmente a reedição da última final da Copa. Os atuais campeões abriram o placar, davam pinta de que tudo se repetiria, e o jogo seguia equilibrado até a Holanda, mordida havia quatro anos, encontrar o caminho do gol com uma cabeçada acrobática de Van Persie, por cobertura e quase fora da área (um dos lances mais incríveis da história do esporte). O efeito foi tão plástico que fez passar boi e passar a boiada, conduzida pelo próprio centroavante e por Robben: com dois gols cada, eles ajudaram a equipe laranja a se vingar da derrota por 1 a 0 em 2010 com juros e correção monetária.

Austrália 2 x 3 Holanda


O gol de Cahil, num sem pulo de perna esquerda, para empatar uma partida que se encaminhava para ser um novo passeio para os holandeses, foi a síntese de uma partida a milhão. A Austrália ainda viraria o jogo e sofreria a virada na segunda etapa, com direito a outro gol antológico, desta vez de Depay, a favor da Holanda. Quem assistiu à partida, em casa ou na arquibancada, está até agora sem fôlego. (Foto: Camila Domingues/ Palácio Piratini)

Costa Rica 3 x 1 Uruguai

Antes de a bola rolar, a única dúvida no chamado grupo da morte era quem seriam os dois dos três campeões do mundo na chave a passar para a segunda etapa. Eram, afinal, sete títulos em campo. A Costa Rica era o alvo certo, o saco de pancada que estava ali apenas para os grandalhões acumularem gordura no saldo de gols. Pois logo na primeira partida a Costa Rica mostrou que não estava a passeio: venceu de virada, e com autoridade, os favoritos uruguaios. Quem imaginou que aquele seria apenas um acidente de percurso teve de se dobrar ao testemunhar à vitória da equipe sobre outra campeã, a Itália, na rodada seguinte, por 1 a 0, e ao empate sem gols contra uma já eliminada Inglaterra. De azarão, a Costa Rica fechou a primeira fase em primeiro lugar. Com sobras.


Uruguai 2 x 1 Inglaterra


Um mês antes da partida, Suárez saiu carregado em uma cadeira de rodas de um hospital após sofrer uma cirurgia no joelho. Fora da primeira partida, a derrota para a Costa Rica, ele voltou para liderar a primeira das duas únicas cartadas da equipe para matar e não morrer. Com dois gols do atacante, ídolo do Liverpool – uma cabeçada no primeiro tempo e uma paulada na entrada da área quando os uruguaios eram dominados pelos rivais – o Uruguai matou a Inglaterra e chegou vivo ao duelo contra a Itália. O atacante, que em 2010 morreu para dar sobrevida à equipe ao salvar com as mãos um gol certo de Gana, no último lance das quartas-de-final, desenhava naquele dia o segundo de seus três capítulos definitivos na História em Copas.

 

Itália 0 x 1 Uruguai

 

Teve de tudo na partida que definiu a classificação uruguaia para as oitavas-de-final, e a eliminação, pela segunda vez seguida, dos tetracampeões italianos ainda na primeira fase da Copa: cabeçada, correria, empurra-empurra, cruzamento em sequencia, defesas fantásticas, expulsão por uma entrada dura e até mordida. O lance, analisado pela Fifa por meio de vídeo, fez com que o atacante Suárez, símbolo do renascimento uruguaio na partida anterior, fosse punido com nove jogos de gancho e desse adeus ao Mundial. Ah, sim, e teve gol, de Godin, iluminado zagueiro que semanas antes levava o Atlético de Madri à gloria. Ele marcou de cabeça, no segundo andar, de costas, após cobrança de escanteio. O Fantasma de 1950 acabava de aprontar outra das suas.

 

Suíça 2 x 5 França

As duas principais equipes do grupo se enfrentaram na segunda rodada para medir forças. Em uma partida tão movimentada quanto surreal, a França desembestou a fazer gol em um jogo – garantem os especialistas – equilibrado. Com 5 a 0 no placar, a equipe conseguiu tomar sufoco dos suíços, que anotaram dois após os 35 minutos do segundo tempo e por pouco não transformaram a goleada em vitória apertada. Se tivesse oito dias de jogo corrido, seriam oito dias de gol a cada dez minutos, e com a vitória francesa sob risco.


Grécia 2 x 1 Costa do Marfim
Desta vez não havia nenhum dinossauro no caminho da seleção de Costa do Marfim, do craque Drogba, que logo na primeira partida saiu do banco para comandar a vitória de virada da equipe sobre o Japão. Mas a derrota para a surpreendente Colômbia, na segunda rodada, transformou o duelo contra a Grécia, eterno saco de pancadas em Copas, em um jogo de vida ou morte. Em um duelo de destino aberto, a vitória dos gregos só veio nos acréscimos, com um gol de pênalti de Samaras aos 47 minutos do segundo tempo. Um dia para a história da Grécia e do futebol.

Irã 0 x 1 Argentina

A poderosa argentina atacou e foi atacada. Em nenhum momento teve o domínio da partida, que poderia entrar para a História como um dos maiores vexames dos bicampeões mundiais em Copas diante de um humilde, mas aplicado e atrevido, Irã. Faltou combinar com Leonel Messi, que já nos acréscimos, ao seu estilo, carregou e bola para o meio e resolveu acabar com o marasmo com uma curva característica que morreu no fundo das redes e garantiu a classificação antecipada da equipe. Um lance que será visto e revisto até o fim dos tempos como um lance de gênio, e um dos mais belos gols na história das Copas. (Gil Leonardi/ Imprensa MG)


Alemanha 2 x 2 Gana
Favorita ao titulo, e com moral após os 4 a 0 sobre Portugal, a Alemanha percebeu que ninguém teria vida fácil em 2014 ao entrar em campo contra a aplicada equipe de Gana, derrotada na primeira rodada pelos EUA. Os alemães abriram o placar, sofreram o empate pouco depois, tomaram a virada no segundo tempo, passaram sufoco até o fim e só tiraram o pescoço da degola graças a um gol de Klose, atacante que naquele dia se tornou o maior artilheiro da história das Copas ao lado de Ronaldo Fenômeno.


Menção honrosa:

Coréia do Sul 2 x 4 Argélia


Patinho feio do domingo, o confronto entre duas seleções com tanta tradição em mundiais quanto a Claudia Leite se tornou a partida mais movimentada da rodada. A Argélia, quem diria, pavimentou o caminho até as quartas com uma sapecada que por pouco não ruiu. Fez três gols em sequencia, sofreu um, ampliou na segunda etapa, mas viu a Coréia do Sul partir para cima, diminuir a vantagem, e quase estragar a caminhada para a fase seguinte. Em 2014, quem subestimou qualquer partida se deu mal: quem havia desligado a tevê viu o murmurinho nas redes sociais e voltou correndo para o sofá para testemunhar que partida era aquela. Coréia e Argélia acabavam de provar que não é preciso ser grande para transformar uma partida desinteressada em um clássico de primeira. (Foto: Ivo Gonçalves/ PMPA)