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Wadih Damous: Morte de torturador não é caso comum

por Marsílea Gombata publicado 28/04/2014 13h25, última modificação 28/04/2014 15h52
Presidente da Comissão da Verdade do Rio cobra acompanhamento federal sobre o assassinato de Paulo Malhães, ex-agente do Centro de Informações do Exército

As controvérsias em torno da morte do coronel reformado Paulo Malhães, ocorrida na quinta-feira 24, alimentam suspeitas em torno do laudo médico no qual a causa mortis é descrita como “edema pulmonar, isquemia do miocárdio, miocardiopatia hipertrófica, evolução de estado mórbido [doença]”.

“Tudo isso é muito estranho. A investigação e a conclusão sobre a morte de Malhães não podem ser baseadas apenas nessa perícia”, alertou o advogado Wadih Damous, presidente da Comissão da Verdade do Rio. “É preciso ouvir novamente a mulher de Malhães, sua filha, o caseiro e outras pessoas.”

Segundo Damous, a morte de Malhães não pode ser vista como um caso comum. “Do meu ponto de vista, pelo passado dele e pelo o que ele representou, esse caso tinha de ter tido um acompanhamento federal. Não pode ser tratado como mera tentativa de assalto”, afirmou. “Por isso queríamos que a Polícia Federal acompanhasse. Por exemplo, a tentativa de asfixia pode ter gerado um infarto? Não sei. São questões técnicas que não sei responder, mas que sempre permanecerão como dúvida.”

Na sexta-feira, logo depois de Malhães ter sido encontrado morto em sua casa na zona rural de Nova Iguaçu (RJ), o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, solicitou ao Ministério da Justiça que a Polícia Federal acompanhe as investigações, atualmente a cargo da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

À CBN o delegado William Pena Júnior, da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), disse não descartar a possibilidade de a morte de Malhães ter sido motivada por vingança, depois de um dos mais polêmicos depoimentos à CNV, no qual confessou ter torturado, matado e descrito técnicas para ocultação de cadáveres de militantes que passaram pela Casa da Morte, centro clandestino de tortura em Petrópolis.

Segundo CartaCapital apurou, em depoimentos anteriores às declarações feitas à CNV, o ex-agente do Centro de Informações do Exército (CIE) deixara claro que temia por sua vida. Segundo um integrante da Comissão da Verdade do Rio, em uma conversa privada, ao ser questionado sobre nomes de militantes infiltrados aliados ao regime ou mesmo de outros agentes da repressão, Malhães disse ter medo e que não podia deixar escapar nomes porque estaria correndo risco de vida.

O corpo do ex-agente do CIE foi enterrado na tarde de sábado 26, no Cemitério Municipal de Nova Iguaçu. Ele morreu na quinta-feira, quando três homens invadiram sua residência e detiveram também sua esposa e um caseiro. Do local, foram levadas diversas armas que Malhães colecionava e também computadores.

Nesta segunda-feira 28, quatro parentes de Malhães serão ouvidos pela DHBF. Além disso, os agentes buscam imagens de câmeras de segurança que possam auxiliar na identificação da autoria do crime. Ao 76 anos de idade, Malhães vivia com a mulher, Cristina Batista Malhães, e se locomovia com a ajuda de cadeira de rodas.

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