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Sociedade

Análise/João Feres Junior

Completando a equação

por Fórum de Interesse Público — publicado 24/06/2013 10h30
A urubologia finalmente chegou às ruas, aliada a outra grande pauta midiática: o neo-udenismo
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Protestos em Brasília

Em Brasília, polícia e manifestantes entraram em confronto

 

Por João Feres Junior

Nos dias que vão, o movimento das ruas é acompanhado avidamente pelos analistas de plantão, entro os quais me incluo por dever de ofício e gosto pelas coisas da política.

Nem todas as análises produzidas são boas ou mesmo originais, e seu coro se confunde, ou melhor, se funde à cacofonia do próprio movimento que ora toma o País.

Um exemplo de contribuição arguta à análise desse fenômeno é o artigo de Leonardo Avritzer publicado neste fórum no site da CartaCapital. Nesse texto, o autor se pergunta sobre o significado dessas manifestações e oferece como resposta a tese de que a inclusão social e política de uma larga fatia da população brasileira nos últimos dez anos trouxeram um forte aumento da demanda por bens e serviços públicos, demanda essa que só pode ser atendida com investimentos em infraestrutura.

Em resposta a tal demanda, o governo Dilma teria apostado em políticas de infraestrutura "old school", insensíveis à inclusão participativa da sociedade civil no processo decisório. Belo Monte e Copa do Mundo são dois exemplos lapidares. Ainda segundo Avritzer, é à sombra dessa alienação da sociedade civil produzida pela concepção antissocial de políticas de infraestrutura do governo federal que movimentos legítimos como o MPL se forjaram e obtiveram sucesso.

Acho que essa tese está correta. Em que pese a distorção informacional produzida pela grande mídia em relação a tudo que advém do governo federal, que pode nos levar a fazer julgamentos exagerados acerca dessa ou daquela política pública, é fato que o governo Dilma não estabeleceu canais sólidos de conversação com os movimentos sociais, forças fundamentais na refundação da democracia brasileira e também do próprio Partido dos Trabalhadores.

Falta à presidente Dilma, um quadro de origem tecnocrática, oriundo de um partido de quadros, o PDT, sensibilidade e disposição para ouvir a sociedade organizada, qualidades essas demonstradas por Lula, esse sim oriundo do próprio movimento social e fundador do partido.

Contudo, a tese explica somente parte do fenômeno: sua liderança, ou seja, o Movimento pelo Passe Livre. Quem teve a oportunidade de assistir à entrevista dos líderes paulistas do MPL no programa Roda Viva ou teve contato direto com seus militantes, como aconteceu comigo ao participar de uma mesa redonda promovida pelo Jornal Brasil Econômico, pode constatar o preparo e articulação desses quadros. Conhecem a questão do transporte a fundo e têm uma concepção mais ampliada do problema do transporte no âmbito do exercício da cidadania no ambiente urbano.

São genuinamente militantes de esquerda, parecem ter uma boa compreensão do balanço entre os fins estratégicos (permitam-me não dizer táticos) e os fins substantivos de suas ações, e sabem se desviar ou rebater os petardos que os agentes da grande mídia lhes dirigem. O MLT, com seus líderes, muitos deles militantes de partidos à esquerda do PT, coloca uma pressão saudável sobre a agenda pública, exatamente no que toca uma questão de infraestrutura fundamental para nossa sociedade, o transporte público urbano.

Mas e o resto do "movimento", a parte massiva das manifestações que não pertence ao MPL, que não está integrada a ele sequer por redes estáveis de comunicação? Esse resto não pode ser explicado pela mesma causa. Basta ver a pletora de demandas que empunham, e o sentimento geral que expressam: rejeição da política, dos políticos e das instituições políticas. Há uma questão informacional de fundo aqui que está sendo solenemente ignorada pela maioria dos analistas. Enquanto a liderança do MPL é organizada e tem elaboração própria das questões de sua pauta, a massa que completa o movimento é composta por pessoas comuns que obtém a quase totalidade de suas informações sobre política da grande mídia.

É inegável o investimento de anos dos principais órgãos de mídia de nosso país na desvalorização da política institucional, investimento esse que se expressa cotidianamente na redução da política à questão da corrupção, na ode ao judiciário e a seus agentes como heróis da causa pública, na demonização de políticos e também de instituições políticas fundamentais, como a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e também a Presidência da República. Em outras palavras, o neo-udenismo.

É claro que hoje é comum encontramos quem diz que a grande mídia perdeu seu poder de agendamento e enquadramento da política para a internet. Tal argumento é ainda mais tentador se levarmos em consideração o fato de que a massa de manifestantes, sobre a qual ora falamos, parece ser composta majoritariamente por jovens de classe média (velha e nova), isto é, gente que tem acesso a canais de comunicação alternativos da internet. Esse me parece ser um grande engano de avaliação, pois a despeito da pluralidade de canais de comunicação na internet, as fontes produtoras de conteúdo estão quase todas nas mãos da mesma grande mídia que controla os jornais, revistas e TVs abertas.

De onde vem o conteúdo senão dos portais UOL, G1, R7, Terra etc? Quais são os produtores alternativos de conteúdo brasileiro hoje na internet? Quase nenhum. Qual o poder que os alternativos têm para competir com os grandes conglomerados da mídia? Praticamente nenhum.

Na verdade, com raríssimas exceções, a camada mais crítica do jornalismo na internet é composta por comentadores que se esforçam para, a partir de informações já agendadas e enquadradas pela grande mídia, reinterpretar fatos e versões. Tentam tirar leite de pedra, nesse trabalho incessante de hermenêutica da suspeita. Muito rico e valoroso, mas ao mesmo tempo pífio quando comparado ao poder informacional da grande imprensa.

Assim, não deve espantar o fato de os slogans da massa inorgânica ao movimento espelharem os enquadramentos e agendamento midiático: fora Dilma! Abaixo os políticos! O povo unido governa sem partido! Como poderiam fazer outra coisa? São gente comum, não intelectuais, estão sujeitos ao bombardeamento diário de jornais, revistas, programas jornalísticos na tevê e internet. Todos repetindo incessantemente a mesma mensagem.

Chega então o momento de completar a análise voltando para o governo e para o principal partido do governo, o PT. Pois o governo Dilma não falhou somente em apostar em políticas de infraestrutura pautadas por um desenvolvimentismo tacanho, antissocial; errou também ao não estabelecer canais sólidos de comunicação com a população, canais esses que incluíssem a classe média, tanto a velha quando a ascendente - em que pese a imprecisão desses conceitos. Apostou que a inclusão econômica de amplos setores sociais, conquistada mormente nos governos Lula, e a continuidade dos programas sociais fossem suficientes para "comunicar" à maioria do eleitorado as virtudes do governo. Desistiu da luta ideológica, como se dizia há não muito tempo, baseado em uma interpretação economicista simplista dessa própria luta ideológica. Agora o governo e seus aliados estão atônitos ao ver centenas de milhares de pessoas irem às ruas protestar em um momento que a economia cresce e o país atravessa um longo período de pleno emprego. Ora, aí está mais uma prova. Em termos políticos o que conta não são os números duros da economia, mas a percepção que se tem deles. E no noticiário da grande mídia o país se encontra em plena crise econômica, incapaz de crescer e assolado por uma inflação "galopante", como ouvi outro dia de um estudante de direito da UERJ.

A urubologia finalmente chegou às ruas, aliada a outra grande pauta midiática que é o neo-udenismo. A situação é de um paradoxo duplo: essa massa em movimento partilha da percepção de um país imerso em uma crise econômica combinada à falência das instituições políticas, enquanto no país real a economia vai bem, a renda do trabalho vai melhor ainda, e as instituições políticas funcionam melhor e mais democraticamente do que na maioria dos países dos BRICS ou mesmo do mundo ocidental como um todo. Como isso é possível?

Embalados pelos altos índices de aprovação do governo e de Dilma nas pesquisas de opinião, o governo e muitos de seus apoiadores fizeram pouco da questão do debate ideológico e do problema da mídia na formação de opinião. Ou melhor, não fizeram o suficiente. Onde foi parar a agenda da democratização da mídia no governo Dilma? O que foi feito? Não me refiro aqui a ações pontuais, mas à "Big Picture", como se diz em inglês. E o PT e seus aliados, quais foram os esforços empreendidos por essas forças políticas para consolidar canais alternativos produtores de conteúdo e com capacidade de atingir fatias maiores da população? Nada ou quase nada.

Justiça seja feita, esse não é um problema do governo Dilma somente. Seu antecessor também não teve sucesso nessa seara. Pode até ter se empenhado em alguns momentos, mas não o suficiente para produzir qualquer mudança significativa. Esse talvez seja o dado mais irônico e talvez perverso dessa estória. Acostumados a apanhar dos grandes meios de comunicação, Lula e o PT viram as seguidas vitórias eleitorais do partido como um sinal inconteste de uma mudança cataclísmica na "histórica desse país": de agora em diante a grande mídia não ganha mais eleições. A combinação desse diagnóstico com os altos índices de aprovação dele e de sua sucessora explicam o abandono do front da comunicação social, aquele no qual a população adquire as informações e tem contato com argumentos que formarão sua opinião. Essa é a faceta anti-social mais preocupante da política do governo, mais ainda que aquela das medidas de infraestrutura. Deixar a formação de opinião à mercê das poucas famílias que controlam a grande mídia no Brasil, cuja ficha corrida demonstra inclusive falta de compromisso com as instituições democráticas, é um grave erro.

Deu no que deu. Agora quem vai refrear a massa inorgânica ensandecida? O MLT tem capacidade limitada para fazê-lo. Nega-se a assumir o papel de representante. Seus líderes tem mesmo um pavor rousseauniano pela ideia de representação, por mais paradoxal que isso possa parecer. As forças repressivas do Estado? A primeira onda de repressão só fez crescer o tamanho e estridências das manifestações. Mais repressão pode produzir tragédias e maior deslegitimação das instituições políticas.

O problema é sério.

Para resolvê-lo é preciso que os políticos eleitos venham a público acalmar a população mostrando que não há falência da economia ou das instituições. Muito pelo contrário, comparados a outros países do mundo estamos bem nos dois quesitos. É preciso mostrar também consciência sobre os problemas das políticas públicas, ao mesmo tempo informando os cidadãos acerca de seus avanços. É preciso condenar publicamente aqueles interessados no ataque às instituições. É preciso, mais do que nunca, virtude política.

 

João Feres Junior é doutor em Ciência Política pela City University of New York, é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (UERJ).