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Crônica

Como perder uma Copa do Mundo

por Aurélio Munhoz — publicado 23/06/2011 17h20, última modificação 23/06/2011 17h20
Após a final da Libertadores, a alegria pacífica dos torcedores de verdade foi ofuscada pela violência de uma minoria medíocre

Mino Carta já escreveu, neste mesmo espaço, que ficará muito feio para o Brasil organizar mal a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Referiu-se, com sua costumeira lucidez, aos incomensuráveis estragos que serão causados à agora positiva imagem do País no Exterior caso não solucionemos nossos crônicos problemas de infra-estrutura e logística.

Ouso repicar o comentário de Mino, sob outro enfoque: a necessidade de torcedores e dirigentes de futebol adotarem uma postura de mais respeito, honestidade e competência na sua relação com o esporte – e, sobretudo, com os seres humanos, incluindo aqueles que ostentam camisas de futebol diferentes das suas.

Não foi o que se viu, muitas vezes, durante as comemorações pela brilhante conquista do terceiro título do Santos na Copa Liberadores da América, em São Paulo. As cenas seguintes à embriaguês da vitória, diante do uruguaio Peñarol, foram indignas da nação que sediará a próxima Copa do Mundo de Futebol, campeã do planeta cinco vezes e pátria de Pelé, símbolo do fair play no esporte.

A alegria pacífica dos torcedores de verdade foi ofuscada pela violência e pelo desrespeito de uma minoria medíocre, mas barulhenta e irascível. Violência dentro das quatro linhas do campo, fruto da invasão de uma turba de vândalos travestidos de torcedores, que deflagraram uma briga de conseqüências por pouco trágicas. Com crianças por perto, inclusive.

Desrespeito nos vestiários, provocado pela entrada irregular e inesperada de pessoas alheias ao Santos, mas amigas e parentes de diretores do clube, que se excederam na tietagem às estrelas da partida. Desrespeito, ainda, de  um dirigente do clube, que ocupou uma vaga de estacionamento reservada a idosos e deficientes físicos, com a desculpa de que possuía autoridade para tanto.

A estes dois vícios de muitos torcedores e dirigentes, acrescente-se outra dupla de ataque de peso: a desorganização e a incompetência. A TV Bandeirantes de São Paulo mostrou imagens de cerca de cem torcedores santistas irados porque haviam comprado ingressos falsos para a partida e, claro, não puderam assistir ao jogo. Outros, pagaram dez vezes mais pelos ingressos a cambistas, sob os olhares plácidos da PM. 

Tinha sido assim, também, durante vários momentos da Libertadores da América. Sim, cenas deploráveis semelhantes a estas se repetiram ao longo da competição em vários outros estádios, em vários outros países, de hermanos apaixonados por futebol, como os brasileiros.

Não se diga, portanto, que este problema é exclusivo do Santos ou de qualquer outro clube de futebol latino-americano. Para nossa desgraça, os exemplos desta forma estúpida de curtir o esporte mais popular do planeta se multiplicam em praticamente todos os grandes estádios dos grandes clubes deste continente ainda, justificadamente, classificado de Terceiro Mundo.   

É preciso fazer algo para mudar este cenário. E fazer urgentemente. Dirigentes de clubes, governantes, atletas e a própria sociedade precisam se mobilizar para garantir que, por meio de campanhas educativas de massa e da adoção de mecanismos rigorosos de punição aos abusos, surja uma nova e radical mentalidade em relação ao esporte que consagrou o Brasil mundo afora.

Sou brasileiro, porém. Logo, dentro do campo, desejo que a Seleção Brasileira confirme seu favoritismo e conquiste a Copa do Mundo de Futebol pela sexta vez, em 2014. Fora dos gramados, no campo da civilidade e da organização, já estamos dando uma vergonhosa aula ao mundo do futebol de como perder a tão cobiçada taça.