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Sociedade

Análise

Como nasceu a militância pela internet livre

por Observatório da Privacidade e Vigilância publicado 02/12/2015 04h52
Há 16 anos surgiam os coletivos que se tornaram expoentes do ativismo por liberdade e privacidade na rede
Magnus Manske / Wikimedia Commons
OMC

Em 30 de novembro de 1999, policial de Seattle joga spray de pimenta em manifestante anti-OMC. Violência policial marcou a data

A última segunda-feira marcou os 16 anos do protesto que ficou mundialmente conhecido como N30, ou a Batalha de Seattle, quando, no dia 30 de novembro de 1999, mais de 40 mil ativistas “antiglobalização” (entre membros de ONGs, anarquistas, sindicalistas, ambientalistas) se organizaram de maneira descentralizada para protestar contra Organização Mundial do Comércio (OMC). Na cidade norte-americana, a OMC dava início à rodada do milênio para negociar maior abertura do comércio mundial, no auge do neoliberalismo. A manifestação foi violentamente reprimida, mas terminou vitoriosa com o cancelamento da rodada.

A Batalha de Seattle é um dos marcos iniciais do uso da internet como ferramenta política e espaço de disputa: os manifestantes usaram uma improvisada rede de comunicação, com celulares, rádios e notebooks, para publicar na rede imagens e relatos – prática que é hoje protocolar em qualquer organização política – inaugurando um formato de publicação que mais tarde se converteria e popularizaria nos blogs.

Essa percepção da internet como ferramenta, mas também como espaço de disputa, levaria ao surgimento de uma militância responsável justamente por desenvolver e aplicar ferramentas para a utilização de criptografia, navegação anônima e outros mecanismos de segurança na internet, em um esforço de garantir a liberdade e a comunicação segura de organizações e movimentos sociais – são os chamados coletivos técnicos radicais.

“Nós já sabíamos que a polícia invadia as contas de email de ativistas e, além disso, já que protestávamos contra grandes corporações, não queríamos depender delas para nos comunicar”, conta Micah Anderson, americano nascido em Seattle e membro-fundador do coletivo americano Rise Up, criado em 1999, durante os protestos.

Desde então, o Rise Up funciona como um servidor autônomo que oferece serviços gratuitos de email, listas de discussão, serviços de mensagem instantâneas, hospedagem de servidores, (todos seguros e criptografados), para movimentos sociais e ativistas. “Naquele momento estávamos mais preocupados em criar alternativas seguras e eficientes para nos comunicar na internet, do que com espionagem massiva”, relembra.

No mesmo período, junto com o surgimento dos coletivos técnicos radicais, surgiam também os coletivos de mídia independentes. Anderson também participou da criação da rede Indymedia, que se espalhou em diversos coletivos locais pelo mundo, e chegou ao Brasil na forma do CMI, o Centro de Mídia Independente. Foi de dentro do CMI que, em 2005, inspirado pelo Rise Up e outros coletivos que atuavam de maneira semelhante, nasceu o Saravá.

Segundo seus porta-vozes, o coletivo Saravá se mantém organizado em torno destas questões, as quais denominam “tecnopolíticas”. Eles explicam que “o escopo dos movimentos antiglobalização não era exclusivamente a defesa da internet livre ou do direito a privacidade”, mas que essas pautas sempre foram e ainda são necessárias para todos os coletivos que lutam por transformação social. A atuação do Saravá e do Rise Up fornece, portanto, bases tecnológicas para as atividades políticas destes grupos.

Micah Anderson conta que se no início a preocupação central da atuação do Rise Up sempre foi essa: “tornou-se muito óbvio, muito rápido, que a vigilância chegaria a ter o alcance que sabemos que hoje ela tem”, referindo-se às revelações de espionagem internacional massiva feitas pelo ex-consultor da NSA (Agência Nacional de Segurança, dos EUA), Edward Snowden, em 2013. 

Distopias pós-Snowden

Anderson recorda que quando viram a rápida ascensão de ferramentas como o Google, se deram conta do perigo que as possibilidades de espionagem e monitoramento na internet representavam. “Percebemos que as grandes corporações haviam descoberto como a espionagem poderia ser economicamente rentável, e, há cerca de 10 anos, começamos um esforço de debater e divulgar o perigo que isso representava”, conta Anderson.

“Se, por um lado, Snowden nos ajudou a ter acesso a uma série de documentos que comprovam a vigilância por parte das agências governamentais, ainda precisamos destrinchar os meandros da vigilância corporativa, que funciona como um modelo de negócio”, afirma.

O Saravá cita o Facebook – que está em negociações com o Estado Brasileiro para o fornecimento de serviços de internet em regiões ainda desprovidas de conexão no País através do Internet.org – como um exemplo bem acabado das estruturas de poder que operam na internet através da vigilância: “o Facebook não inovou as comunicações, ele criou bolhas de participação política, social e econômica. Além de ser uma ferramenta abrangente de marketing e de publicidade, capaz de vigiar e analisar as tendências das pessoas em tempo real”, explicam.

Para Anderson, a internet surgiu como uma “utopia maluca e anárquica” de liberdade de organização e expressão que, no entanto, não se concretizou, pois “foi encapsulada pelas mesmas estruturas de poder que estavam fora dela”.

Apesar de ambos os coletivos observarem que há um interesse maior na militância pelo direito a privacidade e a segurança como resposta ao “cenário distópico” comprovado pelas revelações de Snowden, o Saravá nota que as pessoas têm muita dificuldade de aprender e levar adiante a utilização de ferramentas seguras de comunicação, porque “qualquer preocupação com a segurança da sua comunicação é acompanhada de algum nível de perda de conforto”, e ferramentas como Google e Facebook, que “capturaram a diversidade da internet em múltiplas bolhas”, exercem uma espécie de “encantamento” por conta de sua eficiência e alcance.

Tanto Anderson quanto o membros Saravá acreditam que enquanto as pessoas não se dispuserem a sair de sua zona de conforto para encarar o fato de que, além do Estado, empresas extraem enormes lucros de seus dados pessoais, nós “não conseguiremos nem fazer cócegas na estrutura da vigilância em massa”.