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Ditadura

Como deveria ser o ataque a bomba no Riocentro

por Marsílea Gombata publicado 20/02/2014 18h15, última modificação 20/02/2014 19h29
Atentado fracassado na véspera do 1º de maio de 1981 foi planejado com um ano de antecedência, tempo necessário para o treinamento de quatro equipes
Reprodução
riocentro jb

Foto da capa da edição de 1º de maio de 1981 do 'JB'

Planejado inicialmente para ocorrer em 1980, o ataque a bomba no Riocentro contava com diferentes equipes para executá-lo e fazer com que parecesse obra de militantes de esquerda contrários à ditadura.

A ideia era que quatro bombas fossem explodidas para gerar pânico entre os presentes ao show do “Dia do Trabalhador”. A intenção era que o ataque repercutisse na opinião pública a necessidade de maior endurecimento.

Segundo denúncia do Ministério Público Federal, quatro equipes foram designadas para a execução do atentado a bomba. Entenda o que estava previsto para cada uma delas fazer:

Primeira equipe - Responsável por instalar três bombas no pavilhão, chegou com os artefatos no Puma, dirigido pelo proprietário Wilson Luiz Chaves Machado (“Dr. Marcos) e com o sargento Guilherme Pereira do Rosario (“Agente Wagner”) no banco do passageiro. A missão, no entanto, falhou quando a bomba manuseada por Rosário explodiu no colo do sargento. Além de ferir gravemente o motorista, destruiu portas e para-brisa do carro e decepou as mãos de Rosário, estraçalhou sua barriga, arrancou seu pênis, e arremessou pedaços de seu corpo a uma distância de mais de 30 metros.

Segunda equipe - Chefiada pelo coronel Freddie Perdigão Pereira (“Dr. Flávio”), a equipe era responsável por detonar a bomba contra a estação de eletricidade do local para pânico naqueles que assistiam ao show. O artefato, no entanto, errou o alvo, e não teria potência suficiente para destruir a estação de luz. Além disso, mostrou-se uma ação equivocada, uma vez que o Riocentro possuía geradores e o máximo que poderia acontecer seria apagar as luzes dos banheiros.

Terceira e quarta equipes – Do lado de fora do pavilhão do Riocentro estavam a terceira e quarta equipes operacionais, que tinham de forjar evidências da autoria do atentado, fazendo parecer que havia sido obra de movimentos contrários à ditadura. Enquanto uma parte prenderia ilegalmente inocentes para que a farsa parecesse real, a quarta equipe tinha a tarefa de promover a pichação de placas e muros nas redondezas do Riocentro om os dizeres “VPR” (sigla da Vanguarda Popular Revolucionária), além de fabricar documento encaminhado aos jornais atribuindo a autoria do atentado a um desconhecido “Comando Delta”.

Não é demais lembrar que para a ação ter êxito o coronel Nilton de Albuquerque Cerqueira, um dos seis denunciados pela Procuradoria, tinha ciência do planejamento do atentado para aquele dia 30 de abril de 1981 e colaborou para que a ação acontecesse sem maiores empecilhos. Para isso, exonerou o antigo comandante do 18º Batalhão em 28 de abril de 1981; marcou a passagem de comando ao novo comandante para o próprio dia 30 de abril; agendando-a para o horário das 15h – “algo fora dos padrões da PMERJ” - a fim de impedir que o novo comandante estivesse a par de todas as escalas e afazeres do Batalhão -; viajou no dia 30 de abril para se reunir com militares do alto escalão das Forças Armadas em Brasília, de onde deu ordem por telefone para suspender o policiamento de 40 PMs que cuidariam do trânsito e segurança na região do Riocentro.

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