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Sociedade

Mauricio Dias

Violência no Rio

26.11.2010 09:49

Como em Canudos

O temor espalhado pelos traficantes entre a população carioca deu carta-branca à reação do poder público. Por Mauricio Dias. Foto: Marcos de Paula/AE

O temor espalhado pelos traficantes entre a população carioca deu carta-branca à reação do poder público

A sociedade só formula problemas que pode resolver. Às vezes, demora por falta de apoio social e político. Mas, quando é hora, ela resolve de qualquer maneira. Ocorreu em Canudos (1896) e assim pode ocorrer com cerca de duas centenas de traficantes cariocas que, na tarde da quinta-feira 25, transitaram em fuga da favela da Vila Cruzeiro para se refugiar no complexo de favelas do Alemão. Eram integrantes da facção Comando Vermelho reforçada por aliados.

Essa é uma área favelada, na zona norte da cidade, em grande parte da qual o poder público nunca apareceu. Vivia sob um cruel poder paralelo. O poder público só deu as caras, naquele mesmo dia, com a sua face mais temida pela população pobre: a polícia. Mais de 300 homens, apoiados por blindados e um grupo de fuzileiros navais da Marinha Brasileira, cercaram os traficantes, que, fortemente armados, esboçavam reação. Só a rendição evitaria um massacre.

Caso prevaleça essa insensatez, será sequência de um conflito antigo e, também, da resposta rápida do governo do estado às ousadas e violentas ações dos traficantes na capital e em outras áreas do estado. Um grande medo, alimentado no tempo e, no momento, pela transmissão ao vivo dos episódios da quinta-feira, atravessou de alto a baixo a população.

A atuação dos fuzileiros navais deixou o estado, indiscutivelmente, sob intervenção fede-ral pelos parâmetros constitucionais.

Não há explicação razoável para que não seja assinado o decreto interventivo que legalize a ação. A situação exige, a população quer, o governador do estado quer, o presidente da República quer. O que falta? Da forma como está sendo feita a intervenção, quem fica fragilizado é o presidente, sob o risco de crime de responsabilidade. Aí talvez conte com o beneplácito da oposição.

O argumento usado para justificar a presença dos fuzileiros navais é risível. Apenas transporta os policiais militares. Ora, quem está dirigindo os carros de combate e quem dá segurança são os fuzileiros. As Forças Armadas. No caso, a Marinha.

Será que alguém ainda se importa com a legalidade?

Transcrevo informação restrita que circulou, entre os dias 24 e 25, por e-mail, no meio empresarial do Rio de Janeiro:

“… o traficante FB (Fabiano Atanásio da Silva) do Complexo do Alemão (…) fechou acordo para que os traficantes daquela comunidade e do Vidigal se tornassem membros do Comando Vermelho (CV), fortalecendo assim o Comando Vermelho…”.

Segue: “…e, conforme as interceptações e informes de que o CV estaria orquestrando várias ações criminosas e terroristas no próximo fim de semana, solicito a todos que utilizem apenas veículos blindados e, se possível, evitarem sair na noite de sexta-feira e sábado”.

Esse grande medo, que dá frio na espinha dos cariocas, legitima qualquer ação do poder público. Uma perigosa carta-branca para agir. Como ocorreu em Canudos.

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Sua opinião

  1. Ronaldo Florentino disse:
    Alem da impropriedade e pressa na comparação com Canudos, o artigo não aborda a questão básica: O combate vai se limitar ao tráfico varejista? Banheira de hidro e piscina não conferem ao traficante o status de produtor ou intermediário entre o atacado e o varejo. Quem está por trás daqueles que, ao adquirir armamento e pagar propinas, pràticamente esgota o lucro com as vendas locais? Onde está a base do iceberg? A ponta está nas favelas.
  2. Ronaldo Florentino disse:
    A primeira favela do Rio, o chamado Morro da Favela ( uma planta comum naquele elevado), recebeu sobreviventes da Guerra de Canudos, mas já era habitada por ex-escravos. Depois o nome favela se generalizou e aquela se tornou a Favela da Providencia. Será por esta referencia histórica que tantos comentaristas estão falando em novo Canudos? A não ser que a população estivesse disposta a combater ao lado dos traficantes, predispondo a um massacre, a comparação é totalmente romântica (para usar um eufemismo) e faz uma transposição mecânica de análise de uma época para outra. O curso de jornalismo deveria aumentar seus créditos de História do Brasil. A leitura de Euclides da Cunha não é suficiente para entender as diferenças, embora seja fundamental como romance épico.
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