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Sociedade

The Observer

Como a acelerada vida digital nos faz perder contato com nossos sentidos

por The Observer — publicado 11/12/2013 06h39
Não admira que as empresas estejam treinando seus funcionários em técnicas de conscientização

Por Jemima Kiss

Quando os carros que se autodirigem se tornarem comuns, o que faremos com todo o tempo livre? Quando pudermos relaxar e deixar o carro assumir o comando, o que faremos durante a viagem de três horas até a casa dos avós ou a de 30 minutos até o trabalho? A realidade será que, em vez de aproveitarmos esses preciosos momentos para todas as coisas que sempre dizemos que gostaríamos de fazer, acabaremos trabalhando e debruçando-nos distraidamente sobre nossos celulares. Como dois terços das pessoas nos trens de subúrbio de manhã, estaremos freneticamente devorando o maior número de e-mails e torpedos, ou percorrendo nossas inúteis e infinitas atualizações no Facebook o máximo possível antes de chegarmos ao nosso destino. Então teremos realmente ganho alguma coisa?

William Powers expressou uma simples mas astuta observação sobre o impacto do uso da tecnologia sobre o comportamento em seu livro Hamlet's Blackberry. A consciência digital, ele escreveu, não tolera três minutos de pura concentração. "Havia-se tornado difícil para mim manter-me concentrado em uma única tarefa de qualquer tipo, mental ou física, sem acrescentar novas. Enquanto escovava os dentes, eu saía do banheiro em busca de alguma coisa para fazer nesse tempo. Organizava minha gaveta de meias com uma das mãos enquanto tentava alcançar o dente do siso com a outra, e mesmo assim sentia-me desejando mais uma tarefa."

Todos reconhecemos esse tipo de mania: a ver ificação instintiva do celular (cada um de nós faz isso a cada seis minutos durante o dia, em média), a dificuldade de nos concentrarmos durante um filme ou um livro inteiros. Os argumentos de que a tecnologia estraga nossos cérebros e destrói nossa capacidade de concentração felizmente foram superados por pesquisas de neuroplasticidade: nossos cérebros são muito mais flexíveis e abertos ao recondicionamento do que imaginávamos anteriormente. Mas a observação inquieta de Powers sobre seu próprio comportamento reverbera. Qual é o preço dessa constante distração e falta de disciplina digital sobre nossos relacionamentos, nosso bem-estar e nossa produtividade?

De modo nada surpreendente, com a maturidade da indústria tecnológica e o apetite por um modo mais saudável de lidar com a sobrecarga digital, o interesse pelos movimentos de conscientização e meditação estão passando por um significativo renascimento. Eles parecem tão opostos a esse estado de ansiedade inquieta online quanto é possível. E, embora você não precise procurar longe para encontrar a cultura hippie pela qual essas práticas se tornaram conhecidas, essas disciplinas milenares são muito maiores que isso. Certamente o mundo corporativo está levando a coisa a sério, e poderia demonstrar pouca tolerância por qualquer coisa que não conduza diretamente a resultados concretos.

A consciência também é um negócio em si, é claro, o que significa que já há uma série de aplicativos de meditação, retiros caros e a inevitável conferência Sabedoria 2.0. O evento pode se gabar de ex-participantes notáveis, como os fundadores do Twitter, Evan Williams, e Biz Stone, o cofundador do Facebook, Dustin Moskovitz, e a criadora do Huffington Post, Arianna Huffington. Williams disse ao New York Times que a indústria tecnológica havia anteriormente rejeitado o tipo ruim de meditação "mágica", mas que ela lhe permite "pensar mais claramente e não se sentir tão dominado".

Os céticos poderiam indicar que os norte-americanos ricos e suas empresas tecnológicas borbulhantes podem se dar ao luxo de aulas de meditação. O Google abrigou o célebre praticante de conscientização e mestre zen Thich Nhat Hanh em 2011, e oferece cursos regulares superlotados sobre energia, reprogramação neural e "almoços de consciência". A nova empresa de Williams, Medium, oferece meditações guiadas duas vezes por semana; o Facebook organiza sessões regulares no escritório de conscientização e prática de meditação; e a General Mills, a fábrica norte-americana de cereais, tornou-se a inspiração improvável para muitos programas de consciência corporativa, com 700 membros praticantes.

Deixando de lado a moda hippie, a indisposição de muitos a explorar esse tipo de exercício psicológico fala sobre nossas antigas dificuldades sobre saúde mental. O exercício físico nós aceitamos, mas a saúde psicológica, temos muito medo de abraçar. Qual é o equivalente a um acampamento de condicionamento físico para sua mente?

"Nós somos humanos, e não robôs", disse recentemente o cofundador da empresa Asana, Justin Rosenstein, à Fast Company. "Estamos envolvidos em um empreendimento criativo que exige muita energia, e por isso se você estiver constantemente envolvido na produção – no expirar – ficará sem fôlego." A essência de sua firma, um serviço de administração de projetos, é que o equilíbrio tem a ver com o bem-estar de seus funcionários e significa mais que simples produtividade. A conscientização é vista como uma busca de objetividade, uma maneira de recuperar parte do equilíbrio de como existimos no mundo real, em vez do lugar hipermidiático que criamos para partes de nós mesmos online.

A produtividade no mundo real para os simples mortais fora do Vale do Silício tem maior probabilidade de ser incentivada por bolos baratos e café ruim. Mas nesta atual batalha para recuperar parte do controle sobre as exigências da tecnologia sobre nós, a consciência é uma ferramenta poderosa para criar um pouco de espaço e perspectiva valiosos.

Na próxima vez que você se vir perdido em uma teia sem sentido, talvez um pouco de conscientização valha a pena. Trata-se de explorar a experiência sensorial de estar vivo, em vez das sensações superficiais de estar online.

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