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Comece a falar “a travesti”, por favor

por Lino Bocchini — publicado 26/11/2014 18h44
O apelo é inspirado por Claudia Wonder, artista que nos deixou há quatro anos, em novembro de 2010. Mas todas agradecem
Facebook Travesti Reflexiva/Reprodução
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No começo de 2010 fui recebido por Claudia Wonder em seu simpático apartamento no bairro paulistano dos Jardins para uma longa e agradável entrevista. A multiartista não escapava do mesmo tipo de desinformação que rotula como homens as mulheres transexuais. Um dos maiores ícones trans do Brasil, Claudia morreria poucos meses depois, em 26 de novembro de 2010, aos 55 anos, vítima de uma infecção.

Aquela conversa ficou gravada em minha cabeça.

Jornalistas são procurados por suas fontes após a publicação de uma reportagem pelos mais variados motivos. Comigo não é diferente. Fui procurado, em 2011, por uma artista plástica carioca citada em uma reportagem que fiz para a revista Trip especial Diversidade Sexual – aquela famosa pela capa com dois surfistas se beijando. Travesti, ela me agradeceu imensamente pelo fato de eu ter usado o artigo feminino a cada vez que me referia a uma mulher transexual, ela incluída. “Você não sabe como isso é importante para nós”, enfatizou.

Essa conversa também me marcou e, desde então, estou “devendo” este texto.

Mulheres transexuais compõem o extrato da população que mais sofre com o ódio e o preconceito da sociedade. Mais do que os negros, mais do que os gays ou as lésbicas, mais do que os presidiários. São a Geni máxima do mundo. Para o cidadão comum, mesmo um dependente químico de crack que more na rua e pratique roubos para manter seu vício “merece” mais respeito ou piedade. Muitos reconhecem o “craqueiro”, no fundo, como uma vítima. A travesti não. Essa é uma “sem-vergonha”, e leva essa vida “porque quer”.

Esse tipo de julgamento é deplorável, mas gostaria de me solidarizar com o leitor não militante.

Claudia Wonder
Multiartista, Claudia Wonder não escapava da desinformação que rotula como homens as mulheres transexuais

Faço reportagens sobre o universo transexual desde a faculdade, e mesmo assim não sou o melhor exemplo. Correto seria nem sequer usarmos a palavra “travesti”, afinal estamos falando de mulheres. Num grau ainda mais elevado de correção política, a divisão se dá entre homens e mulheres cisgênero e trans. Sendo “cis”, as pessoas nascidas com um corpo masculino ou feminino e que se reconhecem como tal. Pelo senso comum um tanto preconceituoso, são os homens e mulheres “convencionais”.

E o artigo feminino com isso?

Só nos últimos anos comecei a usar exclusivamente o artigo feminino para referir-me às mulheres trans. E faço aqui um mea culpa: várias vezes oscilei entre o uso do artigo masculino e o feminino, como em uma outra matéria para a revista Trip, da qual fui redator-chefe por 4 anos. Era um perfil de Andreia de Maio, travesti mítica, ao mesmo tempo cafetina e mãezona das travestis da região da rua Amaral Gurgel. Carismática, inteligente e poderosa, Andreia, falecida em 2000, foi a última “xerife” desta tradicional área de prostituição de travestis no centro de São Paulo.

Quando a conheci, nos meados dos anos 90, ela andava “menos arrumada” que nos anos 70 ou 80, e seu rosto “descuidado” enganou minha inexperiência. Acabei usando algumas vezes o artigo masculino no texto, desconsiderando que Andreia, como toda travesti, “desarrumada” ou não, nasceu e sempre foi Andreia.

Confesso que algumas vezes ainda me vejo obrigado a um pequeno esforço mental para evitar usar “o travesti”.

E termino convidando o leitor não militante para este exercício simples e saudável de usar sempre o artigo feminino para elas. A cada vez que você conseguir, terá pensado na questão trans por uma fração de segundo. Já ajuda. E pode ter certeza de que elas agradecem.

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