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Análise/Pedro Serrano

Com computador, para quê senador?

Os garotos de 20 anos não são despolitizados; apenas não confiam nas relações tradicionais de representação
por Pedro Estevam Serrano publicado 20/06/2013 13:21, última modificação 23/06/2013 09:44
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Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Protesto em Brasília

Manifestantes protestam em Brasília contra os gastos públicos na Copa das Confederações, mais verbas em educação e saúde e contra a PEC 37

O movimento reivindicatório que se iniciou em São Paulo e se espalhou por todo o país surpreende analistas e lideranças políticas. Apartidário, embora ideológico, não tem lideranças claras nem forma hierárquica de organização, modelo político próprio da sociedade industrial. Organiza-se em rede e a partir da rede.

Manifesta reivindicações concretas da juventude de todas as classes dispensando a intermediação de lideranças politicas tradicionais ou mesmo de estruturas de representação, o que dificulta a adoção das formas dialógicas construtoras de consenso próprias do mundo democrático pós-queda do muro de Berlim.

A mídia que estimulou a repressão fascista e facínora da PM no inicio do movimento é obrigada a mudar de lado e passa a tentar partidarizar a mensagem do movimento. Procura, assim, manter a aparência apartidária em bordões próprios da oposição ao PT e ao governo Dilma usando mais uma vez do “efeito lupa” propiciado pelo registro de imagens parciais do fenômeno social para distorcer seu sentido geral.

Não tem logrado esse intento: se há algo aparentemente geral no movimento é seu sentido “anti-Rede Globo”, o que já oferece intuição de seu sentido de crítica às formas tradicionais de comunicação controlada - algo maior que a própria Rede Globo.

A direita mais empedernida tenta transformar o movimento em um ato golpista, propondo impeachment da presidenta majoritariamente eleita e fazendo até campanha de boicote para a Copa do Mundo no Brasil. A falta de adesão a qualquer sentido maior do conceito pátria, bem como a falta de participação aberta na disputa democrática - preferindo sempre táticas golpistas - é algo que sempre diferenciou nossa direita das de outros países democráticos.

Não sou adivinho para saber se o grupo direitista que habita o movimento conseguirá assumir sua direção. Creio que não: nas ruas, sem o filtro midiático, o movimento tem mais ares libertários do que golpistas.

A critica mais geral do movimento ao governo federal parece focada na retração que houve no governo Dilma na forma aberta ao diálogo com os movimentos sociais que havia no governo Lula. É uma critica ao conservadorismo do governo Dilma e não à sua dimensão de manutenção dos avanços sociais de Lula. É uma critica à esquerda portanto.

O PT, um tanto quanto atrasado, convoca seus militantes a aderirem ao movimento. Não creio também que o PT consiga a direção ou hegemonia do movimento. Poderia fazê-lo se houvesse no País alguma regressão nas conquistas sociais do governo Lula. O movimento, ao contrario, trata mais da radicalização dessas conquistas

Há algo no movimento que sinto como geral, presente em quase todas suas críticas e que tem passado ao largo do debate, talvez por não interessar nem à mídia nem ao governo nem à oposição: um verdadeiro sentimento público de descrença e enfado com a representação democrática.

Leciono em uma prestigiada universidade paulista e, como tal, tenho contato cotidiano coma juventude de classe média e com a que chega da periferia à universidade via Prouni. Ao contrário do que se pensa, os garotos de 20 anos do centro e da periferia não são despolitizados; apenas não confiam nas relações de representação.

Criados em meio à comunicação direta e iterativa da web, não sentem necessidade de alguém para falar por eles. E veem no Parlamento mais um centro de malfeitos do que de real representação de seus interesses.

Não acreditam mais na forma partidária e nos instrumentos clássicos da democracia; exigem participação direta e decidirem por si o seu futuro.

Como sabem que democracia direta ainda não é exequível, votam e participam das eleições, mas nelas não confiam. Vislumbram cotidianamente os representantes populares traindo seus mandatos e a perda dos mecanismos de diálogo com a sociedade conquistada sob Lula.

O movimento reivindicatório se põe, assim, como um evento coletivo de reivindicação de algo concreto da vida cotidiana e não de uma ideologia universal que resolva abstratamente os problemas da humanidade - e não se opondo frontalmente às instâncias democráticas.

É o sentido talvez que Negri deu ao termo multidão: seres singulares e diferentes entre si que se reúnem por uma causa comum nos limites dessa causa, sem formas hierárquicas de representação, em rede e pela rede.

Algo novo vai rondando a vida política de nossos tempos. Quem sou eu para tentar decifrá-lo? Como todos de minha geração, serei por ele devorado.

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