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"Aqui é um pedaço do inferno"

por Bruna Carvalho — publicado 24/01/2014 18h02
Usuários da Cracolândia relatam ação repressiva da Polícia Civil na região. MP abriu inquérito para apurar "atuação estranha" do Denarc
Bruna Carvalho

Um dia depois da ação repressiva da Polícia Civil na rua Barão de Piracicaba, no centro de São Paulo, pessoas em situação de dependência química relataram as cenas de violência promovidas por agentes do estado como uma rotina para quem vive há anos pelas região da Cracolândia.

Desde a adolescência, DJ, 37 anos, 23 deles dormindo nas calçadas da capital paulista, afirma conviver com a violência policial. "Clima de tensão a gente vive todo dia. A gente não sabe se vai acordar. Aqui é um pedaço do inferno."

Sobrevivente da Chacina da Sé que, em agosto de 2004, deixou sete mortos, DJ estava na região quando, na tarde de quinta-feira 24, agentes do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil de São Paulo, usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. A ação, segundo a polícia, terminou com a prisão de quatro traficantes e dezenas de usuários. "Uma pá de policial civil chegou quebrando todo mundo. Pegaram um usuário, moeram ele e começou uma guerra", disse.

Nascido em Guarulhos, DJ saiu de casa após ter sido espancado pelo pai, viciado em cocaína. Deixou um bilhete na geladeira: "Vocês nunca mais vão me bater." Ele conta ter a intenção de participar da segunda etapa da Operação de Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo, aposta do governo Fernando Haddad (PT) para alterar a realidade da Cracolândia. "Eu espero que minha vida tenha melhoras, mas eu não acredito mais em promessas. Estou no mundo real."

Na semana passada, o programa municipal desmontou os barracos erguidos nas calçadas nas ruas Helvétia e Dino Bueno e ofereceu hospedagem em cinco hotéis da região, a contratação para serviços de varrição e zeladoria com carga horária de quatro horas diárias, mais duas de qualificação e salário de 15 reais por dia de trabalho, além de três refeições gratuitas.

O modelo não prevê o desligamento dos atendidos caso faltem ao trabalho, mas busca garantir a oportunidade de reabilitação ao beneficiário.

Por volta das 9 horas, Luiz Carlos, de 36 anos, se preparava para mais um dia de trabalho na varrição de calçadas. Com o uniforme azul do programa, ele contou que estava na alameda Barão de Piracicaba no momento em que os policiais fecharam a rua com suas viaturas na quinta.

"Saímos correndo e pedimos abrigo em uma oficina. Eles estavam lá oprimindo mesmo, pegando todo mundo, dando tapa. Eles entraram na oficina onde a gente estava e uma colega foi parar no hospital."

Na sexta-feira, dia em que os beneficiários deverão receber o primeiro pagamento pela semana trabalhada, em dois dos cinco hotéis do programa a movimentação era normal. Os agentes municipais de saúde e de assistência social estavam na região para atender os usuários.

A ação truculenta da Polícia Civil gerou preocupações entre os funcionários da Prefeitura de que o programa fosse prejudicado. Pela manhã, Haddad afirmou que sua equipe iria se dedicar para motivar os profissionais e os beneficiários do programa para que a operação prosseguisse normalmente. O prefeito evitou fazer críticas contundentes à operação dos policiais, subordinados do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

No mesmo dia, o governador tucano defendeu a ação. Segundo ele, o objetivo era prender quatro traficantes. Para Alckmin, o uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo foi uma resposta ao “ataque”.

Prisões. A rotina do chamado fluxo da Cracolândia teve seu ritmo interrompido na manhã de sexta. Na alameda Barão de Piracicaba, quase esquina com a Ribeiro da Silva, duas viaturas da Polícia Militar pararam na calçada e detiveram uma mulher que estava sentada na escadaria de um hotel, por volta das 10h20.

Cerca de dez minutos depois, um tumulto começou a se formar na outra esquina, perto da Alameda Northman. Usuários batiam boca com três agentes da PM que estavam no local. Uma segunda mulher havia sido presa.

Segundo os dependentes, ela era apenas uma usuária. “Me tirem daqui. Eu não estava fazendo nada”, gritava, da janela da viatura.

Os policiais afirmaram que as duas estavam sendo levadas ao 77º Distrito Policial por suspeita de tráfico de entorpecentes. Na ação desta sexta, ninguém ficou ferido.

Pouco antes do tumulto, Mauro, 34 anos, afirmava ter sido um dos detidos pelo Denarc na quinta-feira 24. “Isso aconteceu porque pegaram um traficante e a gente foi pra cima. Traficante não...traficante de verdade não fica aqui na Cracolândia”, contou. “Ontem, aqui, virou uma guerra de usuário e de polícia. Traficante não tem nenhum preso. Só os nóias.”

Mauro relatou ter sido levado por uma viatura com outros dois usuários até o Denarc, da Polícia Civil sob violência. “Me deitaram no chão, bateram em senhor de idade, jogaram spray de pimenta”, enumerou. Sua liberação se deu poucas horas depois. Ele não estava com seus documentos, mas possuía um alvará de soltura dobrado no bolso. Um dia antes, tinha sido liberado do Centro de Detenção Provisória Chácara Belém após dois meses e meio de prisão por assalto.

“Isso aqui é um ímã. Se a gente vai preso, a gente volta pra cá. Se a gente se interna, a gente volta pra cá. Acho que isso acontece, porque um tem respeito pelo outro aqui. Na nossa família, na nossa sociedade, a gente é discriminado”, disse o ex-morador do bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo, que havia passado sua primeira noite dormindo na rua.

Inquérito do MP. A estranha operação da Polícia Civil, que pegou de surpresa a Prefeitura de São Paulo e a Polícia Militar na quinta-feira, está sob investigação. O Ministério Público de São Paulo abriu nesta sexta um inquérito civil público para apurar as circunstâncias da ação do Denarc na Cracolândia.

“A situação merece ser melhor investigada, ainda porque há informações dando conta de que a Corregedoria da Polícia Civil investiga policiais civis, um deles do Denarc, que, em tese, estariam promovendo o tráfico de entorpecentes na região”, diz o texto do inquérito, assinado pelos promotores Arthur Pinto Filho, Luciana Bergamo Tchorbadjian e Maurício Antonio Ribeiro Lopes.

O MP ressaltou que a “prisão por averiguação” é uma situação que não tem base na legislação penal e processual. “Estranha-se porque, na história do Denarc, jamais ocorreu uma atuação como esta, com várias viaturas cercando quarteirões na capital e disparando bombas de efeito moral e balas de borracha.”

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