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Cinderela Frankenstein

por Vivi Whiteman — publicado 10/05/2014 00h15, última modificação 11/05/2014 10h16
Na lógica das novas consumidoras de cirurgias plásticas, se o sapatinho de cristal não entrar, a solução é entrar na faca. Por Vivi Whiteman, colunista de moda de CartaCapital
Reprodução/Ji Yeo
Ji Yeo

Fotos da fotógrafa Ji Yeo mostram moças recém-saídas de múltiplas cirurgias em clínicas da Coreia do Sul

Entre todos os setores do mercado de moda e beleza, o que tem se desenvolvido de forma mais radical é o das transformações corporais cirúrgicas. Esse desenvolvimento não diz respeito apenas às inovações tecnológicas do ramo, bastante significativas, mas principalmente ao comportamento das pessoas que buscam esse tipo de intervenção.

Uma comparação inicial faz entender melhor a mudança que está ocorrendo. Desde os anos 90, com a ascensão, auge e quase normalização dos implantes de seios siliconados (que foram se tornando menos exagerados, imitando o formato “natural” da anatomia humana), a indústria de roupas sofreu adaptações. Sutiãs, biquínis e até mesmo decotes foram modificados levando em conta a nova geração de consumidoras  e seus contornos. Ou seja, a opção pela cirurgia teve reflexo numa certa gama de produtos.

Porém, o que se observa agora é o crescimento de um movimento inverso: cirurgias feitas para adaptar o corpo a produtos que já existem no mercado.

É claro que esse movimento já existia. A lipoaspiração estética, a lipoescultura, talvez seja sua melhor tradução: a pessoa retira o excesso de peso para adquirir um tamanho e formato de corpo que melhor se adapte  aos padrões  vigentes de beleza, elegância etc.

Mas o que se passa entre as paredes das clínicas hoje em dia é bem mais específico. O jornal The New York Times publicou recentemente depoimentos de cirurgiões plásticos especializados em modificar pés. Suas pacientes não têm problemas anatômicos sérios, não são “doentes do pé”. Algumas, no entanto, talvez estejam meio ruins da cabeça...

A maioria dessas pacientes-clientes quer algo bem pontual: usar sapatos de grifes como os famosos saltos Louboutin. Quem tem um Louboutin no armário ou já provou um sabe que os pares, em geral, são tão lindos quanto desconfortáveis. Além da exigência de equilíbrio, têm formas estreitas, que apertam os dedos. O próprio Christian Louboutin, criador dessas belíssimas máquinas de moer pés, declarou aberta e claramente em entrevista que simplesmente “odeia o conceito de conforto”.

Os cirurgiões então encurtam e modelam dedos e contornos dos pés, esculpindo “peças” capazes de entrar melhor em bicos finos, sandálias abertas e outros sapatinhos-desejo feitos pelas maiores grifes do mundo. Algumas chegaram ao extremo de pedir a retirada do “dedinho” do pé: mesmo com cirurgias anteriores, não conseguiam entrar nos modelos mais estreitos, e acharam que esse dedo tão pequenino poderia ser sacrificado em nome da moda...

Os médicos têm negado, ao menos por enquanto, fazer esse tipo de intervenção super extrema. O interessante é notar que, do ponto de vista da paciente-cliente, mesmo a cirurgia mais absurda é vista como um privilégio. Essas mulheres não acham que estão sendo oprimidas pela moda. Pelo contrário. Elas têm dinheiro e querem usar símbolos de status e glamour como as solas vermelhas dos Louboutin. No raciocínio dessas moças e senhoras, o que oprime é a genética, ou seja, o pé largo, os dedos compridos demais, que as impedem fisicamente de usar esses produtos. E a cirurgia aparece como um facilitador, um produto intermediário, mas essencial, que vai tirar o obstáculo genético entre elas e o luxo.

E, conforto, de fato, é o de menos. Em geral, estamos falando de mulheres que não  precisam se preocupar com a lotação do ônibus nem do metrô. Basta que os pés entrem no sapato, que tocará o chão de casa até o carro e do carro até a mesa do restaurante, da galeria, da festa (onde ela se deslocará pouco ou permanecerá a maior parte do tempo sentada), etc.

Aqui as semelhanças com as chinesas “pé-de-lótus” são muitas.  A “moda” de enrolar e deformar os pés, de modo que eles atrofiassem até ficar pequeninos, virou símbolo de status e beleza entre as classes altas na China por volta dos séculos 10 e 11. As mulheres ricas podiam arcar com esse padrão estético porque não precisavam trabalhar, ao contrário das camponesas. Mais tarde, no entanto, até mulheres não tão abastadas aderiram à prática, preferindo o sofrimento ao fardo de serem consideradas “feias”.  Essa tendência só foi abandonada no início do século 20. Mas parece que a lógica por trás dela não está morta.

Hoje faz sentido pensar na seguinte imagem: sai a Cinderela, aquela que nasceu pra usar o impossível sapatinho de cristal, e entra a princesa Frankenstein, esculpida aos pedaços.  E a ideia de adaptação vai muito mais longe e atinge resultados mais impressionantes e menos cômicos do que o proporcionado por uma maluca querendo arrancar o dedinho. Principalmente quando o alvo é o rosto.

Nesse sentido, o que vem acontecendo entre as asiáticas é realmente impressionante. As inocentes lentes de contato que aumentam os olhos, dando a impressão de “formato ocidental”, as injeções na boca e o bronzeamento artificial permanente  são brincadeira de criança perto do que se vê nas clínicas da Coreia do Sul.

Numericamente, o país realiza menos plásticas do que Estados Unidos e Brasil (embora ganhe na contagem per capita), por exemplo, mas a natureza das cirurgias feitas por lá é que chama a atenção. A modificação facial extrema é a especialidade local, e já se tornou uma verdadeira obsessão entre os jovens sul-coreanos.

O “antes e depois” é, digamos, de cair o queixo. Moças e moços absolutamente irreconhecíveis. Maxilares destruídos e remoldados, bochechas arrancadas, narizes completamente modificados, pálpebras adicionadas aos olhos cada vez mais arredondados, de modo a apagar o máximo de características orientais possíveis.

A mudança é tão radical que o governo precisou começar a emitir certificados de cirurgia para pessoas de países vizinhos que vão à Coreia para fazer as plásticas. Muitos dos pacientes estavam sendo barrados nos aeroportos, porque seus rostos não guardavam mais nenhuma semelhança com as fotos dos passaportes.

Mas pra que tanto esforço? E será que tudo isso tem mesmo relação com a indústria da moda?

Ao que parece, tem sim. A fotógrafa Ji Yeo, que assina a série de imagens Beauty Recovery Room, com moças recém-saídas de múltiplas cirurgias em clínicas da Coreia do Sul, é uma das que defendem essa tese. Segundo depoimentos que ela ouviu enquanto fazia as fotos, o esforço é visto por essas moças como aperfeiçoamento pessoal. Como se essa mudança de aparência fosse um passo tão necessário quanto estudar, ter boa alimentação, amores, amigos e  investir na carreira.

As orientais estão hoje entre o grupo mais importante de compradores de luxo do mundo. Basta ver as filas nas lojas de grife em qualquer “capital de estilo” da Europa. A presença de chinesas, coreanas e japonesas formando filas nas boutiques da Champs Elysée, atoladas em sacolas, por exemplo, já se tornou uma das cenas mais manjadas de Paris.

Elas já têm acesso aos produtos. O que falta é o corpo, o rosto que está nas revistas. Elas não querem se parecer com a Vogue chinesa, por mais inovadora e bacana que ela seja. Elas querem se parecer com as mulheres das revistas americanas. Elas querem o star system principal, Hollywood, Nova York etc.

Como usar a sombra, o blush, o batom do momento, se suas pálpebras inexistentes, bochechas  avantajadas e lábios estreitos não permitem?

Por que lidar com a decepção de, mesmo depois de comprar o look completo que está estampado num editorial, não se parecer em nada com aquela moça da foto? É a sensação cruel de ser geneticamente excluído do mundinho do consumo.  Sensação que o próprio mundinho do consumo se oferece para corrigir, ao menos para aqueles que aceitam e desejam o caminho extremo da cirurgia.

É uma discussão complexa, que passa pela ideia do que muitos analistas apontam como uma nova forma de racismo autoinfligido. Outros dizem que se trata do velho racismo de sempre, sob embalagem modificada. A indústria e muitos homens e mulheres discordam. Dizem que são livres para buscar satisfação com seus próprios corpos, seja lá como for.

De fato, a economia entre prazer e dor não é simples. Assim como as dinâmicas entre senhores ditadores de padrões e escravos da moda também não se dividem apenas em carrascos contra vítimas. Pesquisas feitas por psicanalistas e psicólogos, e seguidas de perto por marqueteiros, mostram que existe um certo deleite perverso naqueles que se submetem de forma mais intensa ao chicote fashion.

Não deveríamos nos preocupar tanto com aqueles que entram nessa onda pelos jogos de prazer e satisfação, contanto que sejam adultos. O perigo parece estar numa outra ideia que brilha acima disso tudo. Um imperativo que deveria ser duramente combatido: aquele que garante “faça isso, siga aquilo, mude aquilo outro e  SEJA FELIZ”.

Pouca coisa tem causado mais sofrimento no mundo contemporâneo do que a obrigação da felicidade. Felicidade que ninguém sabe exatamente o que é, que parece só existir em instantes fugazes ou em situações de comunhão sem nenhuma pirotecnia, mas que o mercado tem se esforçado em transformar num pote de ouro no fim de diversos e cada vez mais vistosos arco-íris – inclusive o da moda.

A moda e suas mercadorias “mágicas” podem trazer uma série de sensações e ilusões que funcionam perfeitamente na performance de aparências da realidade social. Entregam poder, sedução, sucesso, beleza, ideia de superioridade (da hierarquia do dinheiro à capacidade de driblar a genética) e uma série de outros patrimônios  valiosos.

Mas se você estiver buscando felicidade, seja em vitrines ou mesas de cirurgia, pare já de se enganar. Está aí uma coisa que a moda adora vender, mas jamais será capaz de produzir.

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