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Ciência, tecnologia e inclusão social

por Coluna do Leitor — publicado 24/11/2010 10h52, última modificação 24/11/2010 10h52
Aumenta o fosso que separa as nações desenvolvidas daquelas em processo de desenvolvimento, muito em função do papel desempenhado pelas novas tecnologias de informação e comunicação, diz o leitor Por Aluizio Belisário

Aumenta o fosso que separa as nações desenvolvidas daquelas em processo de desenvolvimento, muito em função do papel desempenhado pelas novas tecnologias de informação e comunicação
Por Aluizio Belisário
Embora tenhamos passado por um século em que o mundo sofreu vigorosa transformação, particularmente em função de grande avanço científico e tecnológico, em algumas áreas as coisas não mudaram muito: vivemos o mesmo quadro de desigualdades e exploração dos primórdios do capitalismo, em uma sociedade caracterizada centralmente por uma estrutura de dominação, resultante de uma relação econômica fundada na propriedade privada dos meios-de-produção, estrutura mantida, reproduzida e ampliada pela utilização de instrumentos ideológicos cada vez mais sofisticados, interdependentes e independentes.
Na verdade, vê-se, a cada dia, aumentar o fosso que separa as nações desenvolvidas daquelas em processo de desenvolvimento ou subdesenvolvidas, muito em função do papel desempenhado pelas novas tecnologias de informação e comunicação e porque não dizer, da ciência e tecnologia em geral. Ronaldo Sardemberg, em artigo publicado no Jornal “O Globo”, em setembro de 1996 já afirmava vivermos em um mundo onde as fronteiras físicas entre os países tornavam-se cada vez mais voláteis, fazendo surgir o que poderiam ser chamados “estados virtuais”, caracterizados pela concentração do desenvolvimento de serviços estratégicos, tais como: a pesquisa, desenvolvimento, desenho industrial, entre outros, em contraposição aos estados que concentram as “linhas de montagem”, trazendo de volta a divisão dos países em desenvolvidos e subdesenvolvidos, aumentando cotidianamente o contingente de excluídos por conta dos efeitos da globalização.
Também em artigo publicado no jornal “O Globo”, em setembro de 2003, o sociólogo Domenico De Masi afirmava que a partir da segunda metade do século XIX as sociedades teriam evoluído rapidamente de um foco industrial para um foco pós-industrial, baseando-se na produção de bens não materiais e que, paralelamente, os países teriam se agrupado em 3 blocos: o das nações pós-industriais, que se dedicam à produção de ideias, patentes, informações, ciência, arte, etc., através da pesquisa científica, universidades, laboratórios, telecomunicações, etc., enfim, com os recursos intangíveis através dos quais uma nova cultura e modelos de vida são produzidos e impostos aos demais países; um segundo bloco, composto pelos países que apresentam condições de desenvolvimento e escolaridade capazes de atrair as fábricas do Primeiro Mundo; e um terceiro bloco, daqueles países que não apresentam condições de produzir bens (materiais ou não) e são obrigados a consumir as sobras do Primeiro e Segundo Mundos.
Ainda que possa parecer contraditório em relação ao quadro exposto, não fossem ambíguas todas as ações emanadas das estruturas de intermediação social que atuam sobre os conflitos provocados pelas contradições que caracterizam a economia capitalista; no campo da pesquisa científica, seja no das ciências físicas, seja no das ciências sociais, já vivemos em um mundo em que a colaboração entre pesquisadores ultrapassa as fronteiras territoriais, linguísticas e ideológicas, proporcionando um avanço sem precedentes na história da humanidade.
É possível afirmarmos que se encontra em construção um novo mundo e, com ele, mais uma vez, cria-se uma enorme quantidade de excluídos das descobertas no campo da ciência e tecnologia e particularmente, das novas tecnologias de comunicação, como já aconteceu anteriormente com outras inovações de caráter científico e tecnológico, exclusão que se agrava também em função dos altos custos que a integração e participação neste mundo envolvem.
É possível afirmar-se que esta exclusão não é apenas de pessoas, mas também e principalmente, de nações inteiras, seja por conta dos fatores citados, seja pela própria divisão de trabalho determinada pelo capitalismo internacional, que marginaliza grande parte dos países da pesquisa e desenvolvimento de ciência e tecnologia de ponta, como as tecnologias de informação e comunicação, dificultando seu acesso a estas tecnologias, deixando-os à margem deste “novo mundo” e condenando sua população a uma dependência ainda maior que a vivida no século passado. Acrescentem-se as diferenças regionais nesses países e temos um agravamento do quadro de exclusão social em todo o mundo, criando fossos quase intransponíveis a separar pessoas, regiões e países.
Notícias recentes nos levam a crer que o Brasil começa a trilhar o caminho do 1º bloco, das nações pós-industriais dedicadas à produção de ideias, patentes, informações, ciência, arte, etc., através da pesquisa científica, universidades, laboratórios, etc.. Entretanto, algumas questões se colocam para que este desenvolvimento da ciência e tecnologia em nosso país avance mais consistentemente e sirva, não para ampliar mais o quadro de exclusão social descrito, mas sim como instrumento de inclusão social.
Elenco a seguir algumas medidas que podem fortalecer o desenvolvimento da ciência e tecnologia:
Aumento dos investimentos públicos nas universidades e outras instituições públicas que se dedicam às pesquisas no campo da ciência e tecnologia, ampliando sua capacidade de produção, seja através da criação ou melhoria de seus laboratórios, seja através do financiamento sistemático de projetos de pesquisa e inovação científico-tecnológica.
Localização das universidades públicas no âmbito de ação do Ministério da Ciência e Tecnologia ou das Secretarias Estaduais e Municipais congêneres, como já acontece, com sucesso, em alguns Estados, retirando-as da esfera de ação do Ministério da Educação que poderia cuidar, mais detidamente do ensino fundamental e médio.
Realização de uma séria discussão no interior das universidades públicas, sobre a relação entre estas e o setor produtivo privado: é preciso que se encontre um ponto de acordo entre a necessidade e importância do investimento público que garanta o funcionamento básico independente e autônomo das universidades, preservando sua gratuidade e a participação delas em projetos financiados pela iniciativa privada ou desenvolvidos de modo compartilhado.
Outras medidas que me parecem mais diretamente ligadas à questão da inclusão social podem ser:
Considerando a produção da ciência um papel da academia e das instituições envolvidas em processos de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e, o Estado como responsável por criar e manter condições para que isto aconteça, sendo principalmente divulgador da ciência e tecnologia, é preciso que se ampliem as Secretarias de Ciência e Tecnologia ou órgãos que as substituam nos municípios, uma vez que hoje a área está presente institucionalmente em menos de 4% dos municípios brasileiros.
Fortalecimento das Pró-Reitorias de Extensão nas universidades públicas, quase sempre relegadas a um segundo plano, seja em sua estrutura, seja em seu orçamento ou mesmo na agenda das Reitorias, de modo a abrir espaço para maior integração das universidades com a sociedade, através de mostras, feiras de ciências, cursos e outras atividades que divulguem as pesquisas e inovações delas oriundas.
Implementar a interação da Universidade com a rede escolar de ensino fundamental e médio, de modo a criar uma cultura voltada para o desenvolvimento científico e tecnológico estimulando, desde cedo, o estudo das ciências.
Muitas ações podem ser desenvolvidas em busca de melhorias na produção de ciência e seu partilhamento com a população, mas uma das mais importantes parece ser a promoção de um grande debate nacional sobre o papel de todas as instancias envolvidas e a definição e implementação de políticas públicas que visem a inclusão de todos os setores da sociedade neste “novo mundo”, cada vez mais mediado pelas novas descobertas no campo da ciência e tecnologia.
Aluizio Belisário é Professor Adjunto da UERJ. Doutor em Educação-PROPED/UERJ, Mestre e Bacharel em Administração Pública-EBAPE/FGV.

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