Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Ciclovia da Paulista: vitória dos ativistas (e da população)

Sociedade

Mobilidade

Ciclovia da Paulista: vitória dos ativistas (e da população)

por Ingrid Matuoka publicado 28/06/2015 16h24, última modificação 05/09/2015 13h19
A faixa para bicicletas na principal avenida de São Paulo é inaugurada, atrai uma multidão e vira o símbolo maior dos grupos que pedem por uma mobilidade urbana mais inclusiva e humana
André Tambucci / Fotos Públicas
Ciclovia na Avenida Paulista

A Avenida Paulista ficou cheia neste domingo 28

Desde a manhã deste domingo 28 de junho, milhares de pessoas se reuniram ao longo da avenida Paulista, a via mais famosa de São Paulo, para celebrar a inauguração dos 2,7 km de ciclovia implantados entre a avenida Angélica e a praça Oswaldo Cruz. Foi também um ensaio para outro plano da prefeitura: deixar a avenida livre de carros aos domingos, tonando-a uma enorme área de lazer. 

Com os acessos à avenida bloqueados para automóveis, quem tomou conta do asfalto foram os ciclistas, crianças --em bicicletinhas ou na cadeirinha dos pais--, cachorros. Eram famílias inteiras, jovens e idosos de bicicleta, patins e patinete além de centenas de pedestres. Agora, a cidade conta com um total de 451 km entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. 

O prefeito Fernando Haddad (PT) inaugurou a obra percorrendo o trecho entre a avenida Brigadeiro Luís Antônio e a praça do Ciclista, onde foi instalada uma placa comemorativa. O petista fez das ciclovias uma de suas bandeiras. Antes de sua gestão, São Paulo tinha pouco mais de 63 km de ciclovias e o prefeito ainda pretende entregar mais 161,7 km de faixas exclusivas para bicicletas. 

Moradores de regiões afastadas do Centro e até de outros estados foram prestigiar a conquista. Malvino Pires, 59 anos, mora na zona leste de São Paulo e era um dos entusiastas do fechamento da avenida aos domingos: "Nem moro aqui perto, mas viria para cá sempre, porque é muito gostoso ter esse lugar para passear, a cidade precisa disso".

Bruna Rodrigues Caldeira, 31, veio de ainda mais longe: "Lá em Belo Horizonte a malha cicloviária ainda é muito pouca para o que a gente precisa. Então vim aproveitar para lutar pela nossa causa também".

oposição à obra também esteve presente. Na madrugada, a ciclovia foi sujada com tinta azul, a cor do PSDB, rival do PT --os tucanos batalharam para barrar a faixa para bicicletas. Um caminhão-pipa, contudo, conseguiu limpar a obra antes da inauguração.

No final da manhã cerca de 10 militantes do MBL (Movimento Brasil Livre), que defende a derrubada da presidenta Dilma Roussef, também tentaram, protestar. Foram abafados, no entanto, pelos gritos de comemoração pela ciclovia.

A implantação das ciclovias em São Paulo encontra resistência, como ocorreu em países como a aAlemanha e a Dinamarca na época de sua implementação. Por aqui, alguns motoristas e setores mais conservadores da mídia e da Justiça também tentaram impedir a novidade.

Em março o Ministério Público tentou impedir a obra, alegando falta de estudos técnicos. Após dois protestos de cicloativistas, a Justiça derrubou a tese do MP. Até mesmo a cor das faixas exclusivas, vermelha, foi alvo de ataques, por ser a mesma cor do PT, o partido de Haddad. Acontece que o Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito determina que esta é a cor oficial, a mesma usada em praticamente no mundo todo e até por gestões municipais anteriores, de outros partidos.

A inauguração da faixa exclusiva em uma das principais vias da maior cidade do País, celebrada por tantas pessoas, pode agora ter sinalziado para a população que as bicicletas e as ciclovias vieram para ficar.

Para os ativistas, as faixas exclusivas agora têm de seguir aumentando em São Paulo e por todo o Brasil. "Espero que o projeto não pare, que não voltem atrás, quero que essa beleza continue a crescer", afirmou a dentista Renata Carvalho, 31 anos.

Cicloativista de Belo Horizonte
Cicloativista de Belo Horizonte reivindica obras ao prefeito da capital mineira (Foto: André Tambucci / Fotos Públicas)

Neste domingo, o barulho do motor dos carros foi substituído por meios de transporte alternativos, muita conversa e uma calmaria apenas quebrada pelos diversos grupos musicais que se apresentaram informalmente em alguns pontos da via.

Ficou claro para todos que lá foram que, neste domingo, a Paulista não esteve "fechada para carros", mas aberta para as pessoas.