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Chatô, o ídolo

por Cynara Menezes — publicado 21/07/2010 15h09, última modificação 28/07/2010 10h38
Wilma Magalhães, socialite brasiliense, ex-presidiária e dona de jornal, diz inspirar-se no criador dos Diários Associados

Wilma Magalhães, socialite brasiliense, ex-presidiária e dona de jornal, diz inspirar-se no criador dos Diários Associados

 Aos 16 anos, a futura socialite brasiliense Wilma Magalhães era ainda escriturária do finado Banco Nacional, quando descobriu o prazer de manusear papel-moeda – isso, uns bons 30 anos antes de o ex-governador José Roberto Arruda, de quem Wilma se tornaria admiradora, ser flagrado em vídeo acariciando notas e suspirando “ah... ótimo”. Rapidamente, a jovem assumiu a tarefa de carregar para o cofre os sacos de dinheiro que circulavam pela agência e ganhou uma mesinha ao lado da gerência.
“Eu achava o máximo carregar aqueles sacos. Me sentia importante contando dinheiro para os clientes vip. Nem era meu e já achava lindo. O material em si é cheiroso”, diz. A intimidade entre a moça e o careca Benjamin Franklin das verdes notas de 100 dólares foi crescendo, e Wilma tornou-se expert em câmbio nos alegres tempos da inflação estratosférica. Mas eis que – ó azar! – um cheque seu foi parar logo onde? Na lotérica em que o anão do orçamento João Alves “lavava” o dinheiro surrupiado ao Erário, comprando bilhetes premiados.
A versão da Justiça é outra: Wilma Magalhães foi condenada a seis anos de prisão em regime semiaberto por enviar ilegalmente ao exterior mais de 4 milhões de dólares do “sortudo” Alves. Transformada “injustamente” na Branca de Neve da fábula, a socialite conta que, por ser “jovem e ingênua”, não acompanhou o processo e, quando se deu conta, já havia mandado de prisão expedido em seu nome há mais de um ano. Em 2007, acabou em uma penitenciária feminina do Distrito Federal. Passava o dia fora e voltava para dormir.
Sem dramas. “A prisão é toda pintadinha, bem feminina. As meninas vestidas de branco, parece um hospital. O único inconveniente mesmo foi que o Gama (cidade-satélite) é longe de onde moro, no Lago Sul. Peguei um trânsito horrível e gastei muita gasolina”, conta. Os seis meses foram proveitosos: Wilma escreveu um livro, ainda inédito, sobre a experiência. Intitulado Banho de Sol, é uma espécie de autoajuda para criminosos de colarinho-branco. “Provei que com um limão faço não uma limonada, mas uma caipirosca. Adoro drinques.”

A doleira também saiu convencida de que bom negócio mesmo é comunicação. Dois anos depois de deixar o xilindró graças a um recurso judicial, dona de um jornal e de uma revista, a ex-presidiária sonha  tornar-se a maior empresária de mídia do Centro-Oeste, à semelhança da apresentadora americana Oprah Winfrey, “com algumas recaídas pela Paris Hilton”. Além de entrar na política: é candidata a deputada distrital pelo PTB.
“Na verdade, tô entrando na política porque o (senador) Gim Argello me convidou, ele é meu amigo de infância lá de Taguatinga. Mas o que dá poder mesmo é a mídia”, diz. “Precisa ver o tanto que o tratamento é diferente. Quando vou a um ministério, entro na frente, enquanto muitos deputados ficam lá na fila, coitados.” O grande modelo da empresária é Assis Chateaubriand, o fundador dos Diários Associados. “Sigo bem a linha do Chatô. Mas não essa linha de ameaçar. Ameaçar não precisa, é baixo.”
Na opinião de Wilma, Roberto Marinho diferenciou-se de Chatô por preferir fazer um jornalismo mais “linkado” com empresas e governos. “Isso é legalizado, viu?” A ex-presidiária já possuía uma revista com suas iniciais, WM, nos dourados anos dos dólares à farta, quando ficou famosa justamente por servir em seus jantares filé salpicado com pó de ouro. Depois de sair da cadeia, a revista foi repaginada pelo filho publicitário. Manteve o nome WM, mas com outro significado, em inglês, muito mais chique: for women and men. Antes modelo de todas as capas da publicação bimensal, Wilma cedeu espaço a artistas de Hollywood.
No recheio, tudo que ela mais adora: compras, celebridades, viagens... Já o semanário Jornal do DF, que adquiriu na prisão, traz na capa de sua última edição o jogador Kaká, nascido em Brasília, ao lado de notícias sobre política, música e outra paixão da proprietária, as interferências estéticas. “Meu jornalismo é light, não tenho paixão por denúncia. É muito melhor colocar o Kaká na capa, que é um gato.” Por estar convencida de que só o jornalismo de denúncia faz sucesso, ela não pretende rivalizar com o Correio Braziliense, principal diário da capital, embora ache o jornal “bem fraco” atualmente.

“O Correio já fez uma linha mais firme. Hoje é um jornal, só. Essa cota de publicidade do governo compromete muito. E no DF ela é enorme”, analisa a publisher candanga. Desde que descobriu o poder da mídia, Wilma viu que aqueles sacos de dinheiro do início da história não são tudo na vida: há as “incríveis” permutas de publicidade, com as quais pode ganhar viagens, jantares, bebidas, tratamentos de beleza, roupas e sapatos sem desembolsar um tostão. Ou seja, o famoso “jabá”, termo para o qual torce o nariz. “Não falo assim. Para mim, a permuta é a nova moeda. Tem muito na mídia.”
Entre ter uma revista e um jornal, ela aconselha o segundo. “O jornal dá lucro desde o primeiro dia. E se precisar bater em alguém, dá. A revista, com sorte, se paga. E é só para falar de coisas maravilhosas.” A próxima jogada da empresária é aumentar a tiragem do jornal de 30 mil para 60 mil exemplares semanais, lançar um canal de tevê pela internet, a TV Wilma Magalhães, e uma rádio.
Na política, a ex-detenta tem claro o que pretende fazer: embelezar a cidade para atrair mais turistas. “Poxa, fico olhando para Caldas Novas (MG), cheia de palmeiras, e aqui sem nenhuma? Acho isso uma vergonha”, diz a candidata a distrital, para quem “todo político é ladrão”. E a senhora, é honesta? “Me considero honestíssima. Quando fui presa, não envolvi ninguém. Por isso minha credibilidade aumentou.”
Wilma só não decidiu ainda quem vai apoiar para governo do Distrito Federal. “O Agnelo (Queiroz, do PT) frequenta a minha casa e a deputada Liliane Roriz é minha amiga.” Mas o ex-governador e pré-candidato Joaquim Roriz (pai de Liliane) não tem fama de corrupto? “Não conheço os processos dele. Agora, realmente ele popularizou a cidade demais. Disso tenho medo: é só ele falar que é candidato e o povo começa a invadir tudo.” Se ganhar a eleição, Wilma pretende, claro, fazer uma festa de arromba. Só não vai ter pó de ouro. “O povo enjoou do meu pozinho de ouro... Preciso descobrir um pó de diamante.”

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