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Rio de Janeiro

Chacina da Candelária faz 20 anos com autores soltos

por Deutsche Welle publicado 24/07/2013 12h37, última modificação 24/07/2013 12h42
Crime faz aniversário em meio à Jornada Mundial da Juventude. Enquanto os condenados estão em liberdade, ativistas lutam para que o caso não seja esquecido
Fernando Frazão / ABr
Candelária

Chacina da Candelária completa 20 anos com autores soltos

Eram 23h43 daquele 23 de julho de 1993 quando um grupo de homens mascarados abriu fogo contra mais de 70 crianças e jovens que dormiam em frente à Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Oito morreram, e os que sobreviveram ainda sofrem com as sequelas da violência.

Duas décadas depois, um dos crimes mais atrozes da história do Rio parece cair no esquecimento– e a sensação é de impunidade. A investigação da Chacina da Candelária, como o massacre ficou conhecido, levou à condenação de três policiais militares.

Considerado o principal responsável, Marcus Vinícius Emmanuel Borges recebeu indulto da Justiça e foi liberado após 18 anos de prisão. O Ministério Público do Rio recorreu da sentença, e o indulto acabou sendo suspenso. Desde então, ele é considerado foragido. Os outros dois condenados – Marcos Aurélio Dias Alcântara e Nelson Oliveira dos Santos Cunha – receberam penas superiores a 200 anos, mas também foram indultados e hoje estão soltos.

Ofuscada pela visita do papa

Em meio ao tumulto provocado pela visita do papa Francisco, a lembrança da tragédia da Candelária acabou ofuscada. Enquanto a abertura do festival católico reuniu mais de 500 mil peregrinos na praia de Copacabana, faltou público para o evento em memória das vítimas do massacre.

"Esse crime brutal de repercussão planetária completa 20 anos coincidentemente no dia em que estamos pedindo vida para os jovens, mais oportunidades de trabalho", diz o padre Marco Lázaro, da paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, no bairro de Botafogo.

O jovem padre franciscano faz pregações para os ouvintes da Rádio Catedral durante as madrugadas. Ele dedicou o programa de terça-feira (23/07) às vítimas da Candelária.

"A vigília deve ser um grande momento de oração e também um momento para dizer a este mundo carioca tão bonito que ainda há muita coisa feia aqui, como o desprezo às crianças", afirmou Lázaro.

O "lado feio" de muitas grandes cidades brasileiras é comprovado pelas estatísticas. De acordo com o Censo, em 75 cidades com mais de 300 mil moradores havia 23.973 crianças e adolescentes morando nas ruas em 2011. A maioria são garotos entre 12 e 15 anos. O estado com maior número de meninos e meninas de rua é o Rio de Janeiro (5.091 jovens), seguido por São Paulo (4.751) e Bahia (2.313).

Trauma ainda vivo

Uma semana antes da abertura da Jornada Mundial da Juventude, ONGs realizaram uma missa em homenagem às vítimas. Assim como fizeram na época da chacina, eles colocaram uma cruz em frente à Igreja da Candelária – desta vez, a cruz usada na Jornada – para lembrar os jovens mortos 20 anos atrás.

"Todo ano, a gente realiza uma atividade aqui na Candelária para não cair no esquecimento da população. A gente quer que isso [chacina] não aconteça mais, mas sempre acontece", lamenta Patrícia de Oliveira, irmã do sobrevivente Wagner dos Santos, após participar da celebração.

Na época do massacre, Wagner tinha 20 anos. Na ação, o rapaz foi arrastado por policiais militares para dentro de um carro, alvejado e depois solto. Juntamente com um amigo, ele teria atirado pedras contra o para-brisa de uma viatura.

Depois de sofrer um atentado em 1994, Wagner, principal testemunha da chacina, entrou num programa de proteção e há 19 anos mora na Suíça. Ele ainda tenta superar várias sequelas da violência e sofre de envenenamento por chumbo, decorrente dos fragmentos de bala que ficaram alojados sem eu corpo.

O padre Marco Lázaro espera que o papa Francisco se recorde da tragédia da Candelária e de suas vítimas durante a Jornada Mundial da Juventude. "A Igreja deve ser mais proativa, mais ousada na sua missionaridade, mostrar que está atenta aos problemas sociais. Sem substituir o Estado, a Igreja pode ter uma presença social mais efetiva", afirma Lázaro.

Com suas pregações, ele diz pretender mostrar que o trabalho da Igreja não está limitado a sacramentos e música. "O papa Francisco está fazendo essa voz ecoar muito bem", opina.

Autoria: Astrid Prange (msb)
Edição: Rafael Plaisant

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