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Direitos humanos

Façamos pouco pelos moradores de rua

por Fabiana Motroni — publicado 10/10/2013 15h27, última modificação 10/10/2013 20h43
Às vezes estão lendo um desses jornais distribuídos gratuitamente na rua (sim, eles querem saber o que rola no mundo). Às vezes ganham um café quente de moradores ou transeuntes
Fabiana Motroni
bob e moradores de rua.jpg

Taísa, Tiago e seu Francisco. Taísa abraça Bob, cachorro que um dia já foi também um morador de rua na região da Avenida Paulista.

Bom dia pra você que amanheceu de mau humor porque está fazendo 15 graus em plena primavera paulistana.

A Taísa, o Tiago e o seu Francisco também amanheceram nessa mesma São Paulo. Eles são meus vizinhos aqui na Paulista, mas, diferente de mim, não dormem dentro de um apê quentinho. Eles dormem ao relento numa esquina, na frente de um Mc Donald's. São moradores de rua na avenida mais importante da cidade.

Mesmo assim, toda manhã, não importa se quente ou fria, eles acordam de bom humor. Sorriem pra mim, me dão bom dia, e fazem festa com o Bob, meu cachorro. Às vezes estão lendo um desses jornais distribuídos gratuitamente na rua (sim, eles lêem e querem saber o que rola no mundo). Às vezes ganham um café quente de moradores ou transeuntes (sim, eles tomam café da manhã). Mas às vezes só estão olhando para as milhares de pessoas que andam pela avenida, contabilizando quantas delas os enxergarão de verdade, quantas os olharão como se fossem apenas paisagem (sim, eles existem, e sentem).

Quando paro pra conversar com eles, algumas dessas pessoas me olham, incomodadas. Tanto as que vão e vem, quanto as que trabalham nos prédios ao lado. Incomodadas por eu atravessar a faixa imaginária que separa esses moradores de rua da sua humanidade, diariamente negada, faixa metafórica e conveniente que separa pessoas por suas supostas relevâncias humanas. Incomodadas porque se eu falo com um morador de rua, é porque ele é visível, então o incomodado se sente despido na sua farsa do não-enxergamento.

Me lembro de uma entrevista que eu dei tempos atrás ao lado de um grupo de ativistas contra o sexismo na mídia, do qual faço parte, na qual o jornalista nos perguntava porque o 'militante' incomoda tanto. "Porque a gente obriga algumas pessoas a se repensarem, a reverem suas posições, saírem da inércia, e mudar incomoda... porque a gente insiste em lembrar de coisas que todo mundo tenta desesperadamente esquecer, mas que todos sabem, no fundo, que são as coisas certas a serem feitas."

É muita coisa a ser feita pra mudar a situação de moradores de rua --- ou 'pessoas em situação de rua', como são eufemisticamente classificados. E já tem muita gente boa, tanto na sociedade civil organizada quanto no governo, agindo para mudar isso, trabalhando em soluções a médio e longo prazo. Podemos nos juntar a elas. Mas individualmente também podemos fazer um pouco. Podemos ao menos reconhecer as suas existências, respeitar suas presenças no local que ficam ou dormem, tratá-los com afeto, saber seus nomes, ajudá-los pontualmente quando possível.

Isso é muito pouco e muito fácil de ser feito por quem tem onde dormir todo dia. Mas é muito, muito, para a auto-estima e a dignidade da Taísa, do Tiago e do seu Francisco. É o suficiente para fazê-los acreditar em mudanças e em dias menos frios. E é o bastante para fazê-los sorrir todo dia.

Façamos pouco.