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Caseiro de Paulo Malhães nega ter participado de crime, diz Comissão da Verdade do Rio

por Marsílea Gombata publicado 06/05/2014 16h06, última modificação 06/05/2014 19h55
Segundo Wadih Damous, comissão vai pedir à Defensoria Pública do estado o acompanhamento da defesa de Rogério Pires
Tomaz Silva/Agência Brasil

Diferentemente da versão apresentada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro na semana passada, o caseiro do sítio onde vivia o coronel Paulo Malhães negou ter participado do crime que culminou com a morte do ex-agente do Centro de Informações do Exército (CIE) no dia 24 de abril. A afirmação foi feita pelo presidente da Comissão da Verdade do Rio, o advogado Wadih Damous, que esteve na manhã desta terça-feira 6 com o caseiro Rogério Pires.

“Ele negou que tenha participado do crime e disse que não facilitou a entrada dos homens que invadiram a casa, apesar de já ter sido abordado por eles anteriormente”, disse Damous. “Além disso, contou que seu depoimento à polícia foi feito sem a presença de um advogado e se disse analfabeto.”

Segundo Damous, que visitou Pires na carceragem da Delegacia Anti-Sequestro, o Leblon, juntamente com os senadores Randolfe Rodrigues (Psol-AP), João Capiberibe (PSB-AP) e Ana Rita (PT-ES), presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Pires se disse surpreso por ter sido detido na semana passada depois de não ter declarado “nada que significasse uma confissão” de ter qualquer participação do crime de latrocínio (roubo seguido de morte).

Após a reunião com Pires, Damous e os três senadores se reuniram com Fernando Veloso, chefe da Polícia Civil no Rio, com quem confrontaram a versão oficial. “Ele (Veloso) também não disse peremptoriamente que o caseiro havia confessado, mas contou que como ele caiu em contradição e havia indícios acabou sendo pedida sua prisão cautelar”, explicou.

A Polícia Civil fluminense reafirmou que Pires teve participação na morte de Malhães. O titular da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, Pedro Henrique Medina, disse que a participação do caseiro no crime "é irrefutável”. “O que eu posso falar, sobre o teor do depoimento dele, é que ele tem envolvimento no crime”, afirmou o delegado.

O presidente da Comissão da Verdade do Rio, no entanto, disse que a morte do coronel reformado que confessou ter torturado, matado e ajudado a ocultar cadáveres não pode ser tratada como um crime qualquer. “Isso mostra que ainda falta muito para elucidar esse crime. A investigação não pode se esgotar na ocorrência ou não de latrocínio. Latrocínio houve, não precisa nenhum policial dizer. Mas quem foi para lá e com qual intenção?”.

Segundo Damous, a Comissão da Verdade do Rio pedirá à Defensoria Pública do estado para acompanhar o caso de Pires e solicitará a entrada da viúva Cristina Batista Malhães e de Pires no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. Já a Comissão de Direitos Humanos do Senado irá requisitar as peças do inquérito para acompanhar de perto a investigação sobre as circunstâncias da morte de Malhães.

Em interrogatório na Comissão Nacional da Verdade no dia 25 do mês passado, Malhães confessou crimes cometidos na chamada Casa da Morte, centro de tortura clandestino em Petrópolis. O militar deu sua versão sobre a operação do Exército para desaparecer com os restos mortais do deputado federal Rubens Paiva e contou que os agentes do CIE mutilavam corpos de vítimas da repressão assassinadas em Petrópolis, arrancando suas arcadas dentárias e as pontas dos dedos para impedir a identificação.

*Com informações da Agência Brasil