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Cansei

por Marcio Alemão publicado 06/10/2010 17h03, última modificação 06/10/2010 17h25
Beócios dizem a néscios o que devem comer e beber. E a turba de seguidores cresce a cada segundo. Por Marcio Alemão

Beócios dizem a néscios o que devem comer e beber. E a turba de seguidores cresce a cada segundo
Sou ruim com datas. Por isso não sei dizer em que ano escrevi minha primeira coluna para o JT, o Jornal da Tarde. Lembro-me bem do que escrevi: “Comida da moda. Existe isso?” Se não consigo precisar a data, posso afirmar que mais de 20 anos se passaram e eu continuo achando isso bem esquisito. Mas cá estamos, mostrando um interesse fora do comum por tudo que está na moda. Melhor não generalizar? Também prefiro, até porque conheço o leitor de Carta e sei que ele não se identifica com os desesperados caçadores de tendências.
A má notícia é que eles estão à solta e se multiplicando de maneira, diria eu, nociva. Quase resignadamente não me espanta que sejam cada vez mais numerosos. Pensar e escrever bem é tarefa rara, que poucos desenvolvem com talento. É muito mais simples escrever frases breves e contundentes: “Preste atenção nos brancos do norte da Mongólia. Espumas? Só se forem do mar! Azeite trufado? Você deve estar brincando, né? A nova aposta está no sertão mineiro”.

Não me seduz esse tipo de escrita, mas quem sabe seja essa a nova... tendência da mídia. São frases boas para “tuitar”. Boas para compartilhar em redes sociais. Cada uma delas gera profunda reflexão e reações notáveis: Uhahahahahahahah! Hiiiiiiii! kkkkkkkkk! blzzzzz. wowwow?
huhuhuuuuuuuuuuuuu! A turba de néscios que tendem a obedecer e seguir essas ideias, lamento dizer, cresce a cada segundo.
Eu cansei.
Não que em algum momento tivesse sido seduzido por esse tipo de sugestão.
Cansei de ver beócios dizendo aos citados néscios o que eles devem gostar de comer e de beber. Paro na comida e bebida por ser meu assunto, mas essa gente é capaz de colocar os filhos para adoção se algum trendsetter disser que isso é a coisa mais bacana a se fazer hoje.
Você gosta da uva Merlot? Que pena! Ela acaba de sair da moda.
Polenta? O tempo dela passou. Se você adorava comer polenta, azar o seu.
Nenhuma pessoa moderna deverá comer mais polenta, até que a gente, beócios cults, voltemos a considerá-la. Arroz-doce com poeira de cupuaçu é o que você pode desejar de melhor para sua boca. O quê? Você odeia arroz-doce? Odiava, amiguinho. Passará a amá-lo.
Chef  sustentável a gente quer, ainda que cozinhe mal. E entre uma ideia ridícula e outra que publicam, imagine as risadinhas. Elas devem estar presentes o tempo todo na elaboração desses mandamentos para néscios que desejam estar... na crista da onda, como diria um dinossauro como eu. Risos porque não chego a crer que alguém possa considerar essas propostas com alguma seriedade, ainda que milhares de trouxas o façam.
Comida tem de ser boa e bem-feita. Bebida, idem. Será mesmo que alguém deixa de tomar um vinho porque um “deformador de opinião” sugeriu que aquela uva já era? Creia que sim. Pode parecer que isso jamais acontece, mas isso acontece o tempo todo. Tem muita gente desesperada para ditar uma tendência e milhões ainda mais desesperados para abraçá-las.

Fala-se em um novo homem, em uma nova mulher, em novas crianças. Falamos sem parar de uma nova cozinha brasileira. A-liás, veja que divertido pensar nisso: pulamos etapas. A velha cozinha brasileira, nenhum dos laureados conseguiu levar a cabo com sucesso. Diante disso, por que não passarmos para a moderna? Melhor apostar em algo que não tenha referência, certo?
 Jack Crabb, o Pequeno Grande Homem, do filme de mesmo nome, a certa altura diz: “O mundo havia se tornado um lugar muito ridículo para se viver”. Se vivo, Jack Crabb provavelmente diria o mesmo. •

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