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Atendimento psicológico a vítimas da ditadura beneficiou 4 mil pessoas

por Camilla Feltrin — publicado 30/08/2015 09h00, última modificação 20/10/2015 08h46
O programa Clínicas do Testemunho oferece reparo psicológico para vítimas da tortura do Estado e terá uma segunda fase, com novos núcleos
Yghor Boy
Camila-Sipahi-Pires

Camila ajudou a desenvolver uma oficina de bordado: "É como se cerzíssimos feridas do passado"

A designer gráfica Camila Sipahi Pires, 48, acompanhava os ex-ditadores militares Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel ainda na infância quando eles apareciam na televisão. “Solta minha mãe, solta meu paizinho”, falava sozinha, olhando para os aparelhos na década de 1970. Os pais da paulistana, ativistas da Ação Popular (AP), foram detidos e torturados sob acusação de subversão e às vezes podiam ser visitados pelos filhos no pátio do presídio Tiradentes, em São Paulo.

Voltar a falar e superar o passado dolorido, sobretudo para elaboração do projeto gráfico do livro “Infância Roubada - Crianças Atingidas Pela Ditadura Militar no Brasil”, foi o motivo de Camila participar do projeto Clínicas do Testemunho, iniciativa do governo federal que oferece ajuda psicológica para vítimas de tortura entre as ditaduras de Getúlio Vargas e a militar, no período entre 1946 e 1988.

A vivência no projeto de reparação psicológica foi resumida como “fantástica” pela paulistana. "Aquela época era terrível, não dava para explicar para as pessoas que os pais estavam presos, eles iam ser confundidos com bandidos e nós sabíamos que não eram. Eu e meu irmão éramos recriminados e crescemos com este sentimento. E poder compartilhar isso foi muito bom”, contou a diretora de arte.

A análise terapêutica em grupo ou individual proporcionada pela Clínicas do Testemunho é uma iniciativa da Comissão da Anistia do Ministério da Justiça que lançou o projeto no fim de 2012. Os trabalhos foram realizados em quatro cidades distintas até o primeiro semestre de 2015, sendo duas clínicas conveniadas em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e outra em Porto Alegre - além de uma quinta e mais compacta em Recife bancada pelo governo pernambucano.

Agora, novas instituições poderão oferecer o mesmo serviço em parceria ao governo federal. De acordo com o novo edital a ser finalizado em agosto de 2015, o trabalho valerá por 24 meses e cada núcleo deverá atender ao menos 30 pessoas de forma simultânea. A União investirá R$ 1,250 milhão nesta segunda chamada.

74 mil pacientes em potencial 

Quatro mil cidadãos já foram atendidos entre acompanhamentos em grupo, individuais e outras atividades públicas engenhadas nos cinco núcleos espalhados no Brasil. O país tem 74 mil capacitados a terem o auxílio: anistiados e requerentes do status junto às autoridades, além de familiares até a quarta geração.

Na visão do psiquiatra e psicanalista Moisés Rodrigues da Silva Júnior, o programa-piloto atendeu a um número de vítimas adequado. “Saber que o Estado brasileiro, através do Ministério da Justiça, tenha manifestado o cuidado com quem foi vítima de uma violência que o próprio Estado determinou é fundamental no tratamento”, considerou o profissional, envolvido no projeto através de sua clínica, a Projetos Terapêuticos.

“Não existe uma marca específica sobre quem foi violentado. E não só o corpo, mas também a existência é afetada. São pessoas que adoecem mais, têm internações mais longas e graves, mais incidência de suicídio (cerca de 2,5 vezes mais que a população comum), psicoses, problemas de álcool e drogas e dificuldade de relações. A tortura transtorna a existência”, enumerou Silva Júnior.

Moisés-Rodrigues
“A injustiça [...] causa uma chaga irreparável não só para as pessoas, mas para o país”, disse Silva Júnior / Crédito: Yghor Boy

Coronel Ustra

Em reuniões realizadas em grupo, que geralmente duravam duas horas, cada um dos participantes falava um pouco das experiências. Às vezes, porém, o bate-papo emperrava. "Existe momentos de profundo silêncio no grupo porque as pessoas ficam maturando as ideias e sensações. Alguém fala alguma coisa e aquilo fica dentro de você funcionando, mesmo que você não diga nada durante a sessão”, informou a médica e ex-combatente do regime militar Elzira Vilela, 75, que integrou o projeto, em São Paulo, junto com uma das filhas e dois sobrinhos.

Uma crítica da médica é relatada por outras pessoas envolvidas no projeto: dois anos é muito pouco para um efetivo reparo psicológico. “A preocupação que a gente tenha uma quantidade maior de sessões. Eu pude fazer análise anteriormente, mas ali tinha gente da minha idade que era a primeira vez que poderia ter um atendimento especializado e por toda a angústia para fora”, considerou a ex-ativista da Ação Popular (AP) e ainda militante dos Direitos Humanos.

Porto Alegre

Além do atendimento clínico, o primeiro edital do Clínicas do Testemunho previa a capacitação de profissionais para atuarem com pessoas com a psique abalada e produtos multiplicadores de conhecimento histórico e aprendizado. Cada clínica conveniada ficou responsável por atividades locais.

Em Porto Alegre, por exemplo, a clínica Sigmund Freud Associação Psicanalítica produziu vídeos, um livro técnico (“Clínicas do Testemunho - Reparação Psíquica e Construção de Memórias”) e outro didático voltado para alunos do ensino médio foram elaborados (“Os Arquivos da Vó Alda”, ainda em fase de finalização).

“Em atividades que levamos para as universidades, notamos que os jovens na faixa dos 20 anos, de modo geral, desconhecem a história brasileira. Ainda mais nos pontos de como a ditadura civil-militar foi forjada, aconteceu, sobre os métodos de dominação utilizados e, principalmente, no medo e silenciamento do terror que persistem até hoje”, contou a psicóloga e psicanalista Bárbara de Souza Conte.

Em São Paulo, Camila Sipahi Pires ajudou a desenvolver uma oficina de bordado. "Muitas pessoas que não conseguiram se abrir durante as sessões trabalharam ativamente durante o trabalho com fotos antigas e bordado. É como se cerzíssemos feridas do passado", falou.

O projeto Clínicas do Testemunho não é uma iniciativa isolada e funciona com outras ações do Ministério da Justiça. Caminha de forma complementar com a Comissão da Verdade, instrumento pelo qual vários analisados no projeto psicológico puderam se preparar para relatar experiências pessoais nos anos de chumbo, e outras políticas públicas de reparação.

Novidade no Brasil, a reparação psicológica para vítimas da violação de Direitos Humanos promovidas pelo Estado não é bem novidade nos países vizinhos ao Brasil, sobretudo Argentina e Uruguai que já, inclusive, julgaram e condenaram torturadores. A Ong Tortura Nunca Mais ofereceu ação semelhante entre 1991 e 2010. “A injustiça em algum momento tem que ser punida. Causa uma chaga irreparável não só para as pessoas, mas para o país”, considerou Silva Júnior.