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Assédios e carnaval

por Socrates — publicado 13/03/2011 14h01, última modificação 13/03/2011 14h01
Nas escolinhas de futebol, a perigosa sombra da pedofilia. No exterior, as ciladas armadas contra os atletas que não sabem escolher a companhia. No carnaval, a redenção que só a nossa maior festa popular pode propiciar. Por Sócrates

Nas escolinhas de futebol, a perigosa sombra da pedofilia. No exterior, as ciladas armadas contra os atletas que não sabem escolher a companhia. No carnaval, a redenção que só a nossa maior festa popular pode propiciar

Apesar de nunca ter sofrido qualquer tipo de assédio sexual, quando comecei a jogar futebol ainda criança sempre ouvia falar de que o meio estava repleto de indivíduos com tendências pedófilas. Ao saber que um brasileiro que trabalhava em uma escolinha de futebol na Espanha foi expulso do país por crimes sexuais praticados contra menores, percebo-me estarrecido com a notícia. Não que alguma vez tenha duvidado da existência desse tipo de pessoa, mas sim com as graves consequências que podem advir de seus descontrolados atos. Por essas e outras é que proponho há tempos a criação de uma escola de treinadores de futebol, na qual não só o conhecimento específico sobre o esporte estaria em jogo, como também o conhecimento das estruturas emocional e psicológica adequadas para trabalhar com crianças.

Imagino a preocupação que os pais têm quando colocam seus filhos em mãos inexperientes e alteradas de alguns seres que denominam a si próprios treinadores de futebol, como se essa atividade não tivesse importância fundamental na formação e educação de qualquer indivíduo. Queremos sempre acreditar que tudo ocorrerá dentro dos limites dos objetivos pretendidos, porém, os riscos existem quando pensamos em seres despreparados para determinadas funções. E não tem aqui nenhuma conotação de intolerância, pois reconheço e respeito qualquer opção de quem quer que seja. Mas devemos deixar que as crianças caminhem sem interferências em seus desenvolvimentos até poderem ter condições de definir alguma coisa.

Outro caso grave envolvendo um esportista aconteceu na França, onde um atleta brasileiro está sendo acusado de estupro. O caso está sendo investigado, mas já ocorreram episódios em que ficou patente o oportunismo de alguns para extorquir celebridades com falsas acusações, a exemplo do que aconteceu com Robinho quando jogava na Inglaterra. Jogadores de futebol estão extremamente expostos a esse tipo de golpe e, quando no exterior, estão desprotegidos ao extremo. Acredito que tudo não passa de uma farsa montada para extorquir aqueles de boa índole e esse fato é inaceitável, ainda que endêmico nos dias de hoje.

Infelizmente, deveremos ver muitos episódios semelhantes, já que a testosterona dos jogadores de futebol se encontra no ápice e a conquista de uma companhia feminina, mesmo que pouco conhecida, é uma das formas mais frequentes de autoafirmação nesse meio. E não custa lembrar: meninos, evitem essas ciladas.

Enquanto essas excrescências se faziam notar no além-mar, por aqui o povo brasileiro se esbaldava no carnaval, nossa maior festa popular. Carnaval, futebol e essa miscigenação ma-luca que estimulou Darcy Ribeiro a proclamar que estamos criando uma nova civilização são os pilares da cultura e da nação brasileira. Quando vivi no Rio de Janeiro, berço de quase tudo que somos em essência, ainda que São Paulo seja a máquina que coloca o País para andar, uma das mais belas descobertas que fiz foi o carnaval carioca. Não só o do Sambódromo na Avenida Marquês de Sapucaí, inaugurado por Brizola tendo como vice o mesmo Darcy Ribeiro citado acima, mas também a tradição dos blocos de rua como a Banda de Ipanema ou o Cordão do Bola Preta.

Foi no Sambódromo, contudo, que estreei de verdade. Nem tinha seis meses por lá quando fui convidado a ser um dos jurados do grande desfile. Calhou de ser no quesito bateria, onde teria de tirar não sei de onde uma veia musical ainda desconhecida e que depois geraria frutos em mais de cem composições. Meu parceiro era o genial Sérgio Ricardo. Ao final dos dois dias, sentamo-nos em uma sarjeta para finalmente trocar duas ou mais palavras. E depois de poucos minutos saí dali encantado com a pureza, a delicadeza e a sensatez de suas expressões. Já teria validado a minha estada lá acrescida da grande homenagem que a Mangueira fez ao insuperável Dorival Caymmi. Aliás, Gaviões da Fiel e Mangueira são minhas paixões carnavalescas. •

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