Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Assassinados pela polícia substituem militares nas ruas de Porto Alegre

Sociedade

Memória

Assassinados pela polícia substituem militares nas ruas de Porto Alegre

por Iuri Müller — publicado 07/10/2013 17h10, última modificação 07/10/2013 18h32
A intervenção fez o pedreiro Amarildo, desaparecido no Rio, ocupar o lugar do General Vitorino, numa das esquinas do Centro de Porto Alegre.
Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
portoalegre

A intervenção urbana foi levada a cabo pelo coletivo Defesa Pública da Alegria

Porto Alegre despertou na última quarta-feira 2 com a reinvenção de parte dos seus logradouros públicos. Ruas que levam nomes de marechais, coronéis e generais deram lugar aos de militantes políticos e vítimas da repressão do Estado na América Latina. Foram lembrados, entre outros, o sem-terra Elton Brum e a argentina Azucena Villaflor, fundadora da Associação Madres de la Plaza de Mayo. A intervenção urbana foi levada a cabo pelo coletivo Defesa Pública da Alegria.

A intervenção noturna modificou placas de três bairros de Porto Alegre. A Rua Lima e Silva, na esquina com a República, no coração da Cidade Baixa, foi rebatizada como Rua Elton Brum. Elton, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), foi morto por um tiro de espingarda em São Gabriel no ano de 2009. À época, o movimento ocupava a fazenda Southall quando a Brigada Militar realizou a ação de reintegração de posse – um dos soldados que participou do operativo policial admitiu no mesmo ano ter efetuado o disparo.

O Duque de Caxias deixa de estampar, pelo menos por alguns dias, a placa da esquina da rua homônima com a Rua Floriano Peixoto. A descida que leva os andarilhos para a parte baixa do Centro Histórico passa a abrigar o nome de Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura militar brasileira em 1975. Por muito tempo, a versão oficial da morte de Herzog apontou para “suicídio”, como muitos dos assassinatos forjados pelo regime. Apenas recentemente a família obteve a declaração de que Vlado morreu devido a intensas sessões de tortura no DOI/CODI.

Azucena Villaflor nasceu em Avellaneda numa família que se envolveria intensamente na luta social na Argentina. Poucos meses após o início da ditadura militar de 1976, Azucena teve o filho e a nora sequestrados pela repressão. Empenhada na busca por informações e justiça, Azucena se organizou com outras treze mães de desaparecidos políticos para se manifestar no centro de Buenos Aires, na mobilização que originou a associação Madres de la Plaza de Mayo. Azucena foi morta em 1977 e, já em tempos de democracia, teve os restos mortais enterrados na própria praça. A recordação da militante argentina substitui o nome do Coronel Vicente na esquina com a Rua Alberto Bins.

A praça que inaugura o chamado Caminho dos Antiquários, no Centro Histórico, teve as letras da Rua Coronel Genuíno apagadas para que surgissem as de Alexandre Nunes Machado da Silva. Alexandre morreu no massacre do Carandiru, em 1992, quando a Polícia Militar de São Paulo interveio numa rebelião com tiros de fuzis, metralhadoras e pistolas. Mais de cem presos foram assassinados naquele dois de outubro. Na esquina com a Rua Vasco da Gama, a menção ao General João Telles é escondida com um adesivo. O cruzamento agora mostra o nome de Paulo Roberto de Oliveira, morto na chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, em 1993.

A intervenção ainda fez o pedreiro Amarildo, desaparecido neste ano no Rio de Janeiro, ocupar o lugar do General Vitorino, numa das esquinas do Centro de Porto Alegre. O marechal Floriano Peixoto, por sua vez, é ocultado atrás do guerrilheiro Carlos Marighella, na esquina com a Rua Fernando Machado. E o próprio Machado, no mesmo cruzamento, desaparece frente à homenagem ao campesino Oziel Alves, assassinado em Eldorado do Carajás, no Pará. Oziel, que militava no MST na época, foi morto aos dezessete anos.

publicado originalmente em Sul 21