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Sociedade

Entrevista

"Não conhecem os Tenharim, e tiram conclusões preconceituosas"

por Rodrigo Martins publicado 09/02/2014 08h40, última modificação 09/02/2014 08h48
Ivã Bocchini, coordenador da Funai exonerado após os conflitos do final do ano em Humaitá (AM), fala sobre seu trabalho, a visão dos índios e o futuro da Funai
Arquivo pessoal
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Ivã durante cerimônia dos tenharim

O acirramento do conflito entre indígenas e colonos em Humaitá resultou na exoneração do coordenador regional da Funai na região do Madeira, Ivã Bocchini. Por solicitar uma investigação das circunstâncias da morte do cacique Ivan Tenharim e levantar a hipótese de homicídio, lastreada no relato de diversos indígenas descrentes na versão oficial de acidente de trânsito, o servidor sofreu uma intensa campanha difamatória pela internet.

São incontáveis os ataques em redes sociais nos quais o indigenista é apontado como responsável pela morte de três homens no trecho da Transamazônica que passa pela reserva dos Tenharim, vítimas de uma retaliação dos índios, segundo a Polícia Federal. O erro de Bocchini? Ter antecipado em um blog da Funai que havia indígenas inconformados e ciosos de vingança. O alerta foi acompanhado de ofícios às autoridades policiais, mas o esforço resultou inútil.

Após o desaparecimento dos três homens, e mesmo sem a confirmação da morte deles, grupos armados atearam fogo em casas da aldeia e destruíram as instalações da Funai em Humaitá. A sede da coordenação regional foi consumida pelas chamas, assim como carros e um barco do órgão de proteção indígena.

A presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, esclareceu a CartaCapital que o afastamento de Bocchini se deu por razões de segurança. “Era preciso proteger a integridade dele e dos demais servidores. Não podemos responsabilizá-lo pela violência na região. Ao contrário, sempre desempenhou um trabalho impecável”. Um grupo de antropólogos também assinou uma carta de apoio a Bocchini, na qual o apresenta como bode expiatório de um conflito com raízes profundas, que remontam à violenta colonização da Amazônia ao longo do século XX.

Restou, contudo, na versão consagrada pela mídia tradicional, a visão de um servidor escorraçado por ter agido com imprudência. Talvez por isso Bocchini tenha recusado conceder entrevistas nas últimas semanas, exceção feita a CartaCapital, para a qual concordou em responder algumas perguntas por e-mail:

CartaCapital: Que trabalho o senhor desempenhava na coordenação regional da Funai em Humaitá?

Ivã Bocchini: Durante esses três anos em que trabalhei lá atuei em todas as áreas da Funai. Coordenei ações de fiscalização e de gestão dos recursos naturais dos territórios indígenas. Desenvolvi projetos de fortalecimento cultural e organizei ações de geração de renda através de atividades sustentáveis, como a produção de farinha de mandioca e a coleta da Castanha-do-Brasil. Sempre me dediquei, também, aos processos administrativos, buscando conferir eficiência e transparência à gestão do órgão. Os principais problemas vivenciados pelos índios dizem respeito às fortes pressões que existem sobre os seus territórios. Existem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros, políticos e empresários da região que desejam explorar os recursos naturais existentes nas terras indígenas. Humaitá está na linha de frente do arco do desmatamento na Amazônia. A existência de terras indígenas são, nesse contexto, indispensáveis para a conservação ambiental.

 

CC: Quando surgiram os conflitos entre índios e colonos?

Ivã: Sempre houve conflito entre índios e colonos em Humaitá. Seja no início do século XX, quando os Parintintin eram vítimas de expedições de extermínio promovidas pelos senhores da borracha, seja na década de 1940 quando chegaram as primeiras levas de garimpeiros no Igarapé Preto, na década de 1970 quando foi aberta a Transamazônica sobre o território Kagwahiwa ou nos anos 1990, quando foram demarcados os territórios pela Funai.

 

CC: E os polêmicos pedágios cobrados pelos indígenas?

IB: A implantação do pedágio a título de compensação socioambiental foi fator de acirramento das tensões. Apenas a partir de 2009, com a criação da Coordenação Regional do Madeira, a Funai passou a ter uma presença mais forte na região e pode iniciar medidas de prevenção e mitigação desses conflitos históricos. No que toca a Transamazônica, palco de mortes, atropelamentos e todo tipo de violência, a Funai trabalha junto aos indígenas e ao Ministério Público Federal no sentido de regularizar a estrada através de um processo de compensação e indenização que repare os prejuízos históricos sofridos pelos indígenas. Tratam-se de violações imprescritíveis dos direitos humanos que deixaram graves passivos socioambientais.

 

CC: Após a morte do cacique Ivan Tenharim, o senhor publicou um texto em um blog da Funai no qual levanta a possibilidade de a liderança indígena ter sido assassinada, e não vítima de um acidente de trânsito. O que o motivou a escrever tal texto?

Ivã: O texto visava dar voz aos índios, uma obrigação de qualquer indigenista. Simultaneamente, agi como administrador, dentro de minha atribuição, e enviei ofícios para as autoridades policiais competentes solicitando investigação sobre a morte de Ivan Tenharim, já que as circunstâncias do acidente de moto eram desconhecidas. Nunca afirmei que o cacique tinha sido assassinado, como dizem por aí. E tampouco contrariei a polícia, já que naquele momento sequer havia sido aberto inquérito policial para apurar a causa da morte.

 

CC: Recentemente, um grupo de antropólogos publicou uma carta de apoio, na qual o apresenta como bode expiatório dos complexos problemas vivenciados pela população indígena em Humaitá. Você se sente injustiçado?

Ivã: Sem dúvida que tem muita gente querendo me por de bode expiatório, me fazendo pagar por pecados que não cometi. Houve uma forte campanha de difamação da minha pessoa, mas os ataques, no fundo, são direcionados à Funai e aos direitos indígenas. As pessoas que assinam a carta de apoio são todos conhecedores da seriedade com que eu desenvolvia meus trabalhos em Humaitá. Eles falam com conhecimento de causa.

 

CC: Há quem sustente que os Tenharim são índios “aculturados”, usam roupas, andam de motos, vivem em casas de madeira com eletricidade, torcem para o Flamengo...

Ivã: A noção de “índio aculturado” – ou índio sem cultura – já foi abandonada pela antropologia há muito tempo. As pessoas não conhecem os Tenharim, não sabem quais são as características de sua cultura e tiram conclusões preconceituosas. Os Tenharim possuem um modelo de organização social sedimentado sobre uma divisão clânica que organiza todas as relações deles entre eles e deles com os demais. Regras de casamento, obrigações familiares, posturas políticas, papéis sociais, noções de “certo” e “errado”, todo o comportamento é definido a partir dessa divisão em dois clãs e sua mitologia fundadora. Mas ninguém sabe disso – e geralmente não quer saber.

 

CC: Normalmente, esse discurso da “aculturação” vem acompanhado de outro, que prega o fim das políticas específicas para índios. Quem se vale deste argumento diz que o índio não precisa de proteção da Funai, é um cidadão brasileiro como outro qualquer. Não precisaria, portanto, da proteção da Funai. Bastariam os programas já disponíveis ao conjunto da população, como Bolsa Família e Bolsa Verde. Como o senhor avalia esse discurso? A quem interessa essa mudança?

Ivã: Por isso que ninguém quer saber sobre a organização clânica dos Tenharim, porque senão vão ser obrigados a admitir que eles constituem uma sociedade diversa e que merecem, portanto, deter direitos específicos. Dizer que os índios não são mais índios significa deixá-los ao sabor das tímidas políticas universalistas e assistencialistas que hoje são voltadas para pobres, do campo ou da cidade. Essas políticas universalistas não garantem o direito à diferença. É passada a hora de o Brasil se orgulhar de ser um país multiétnico e fazer disso um potencial gerador de novas respostas para velhos problemas do mundo ocidental, em especial aqueles relativos aos caducos paradigmas desenvolvimentistas que orientam nossos governos.