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As flores e o zinco

por Carolina Nogueira — publicado 24/05/2011 10h15, última modificação 26/05/2011 18h30
Nos tetos de Paris, abelhas produzem um mel de sabor inigualável
As Flores e o Zinco

Nos tetos de Paris, abelhas produzem um mel de sabor inigualável. Por Carolina Nogueira. Foto: Louis Vuitton/Eric Tourneret

Poucas imagens inspiram menos a pensar em insetos e outros seres do microcosmo do que os telhados e os balcões floridos de Paris. No meio da turba de turistas ávidos por vitrines, cafés e obras de arte, os olhos dificilmente prestarão atenção em... abelhas.
No entanto, elas estão lá. Tomada de flores em seus balcões, árvores e mesmo nas brechas de calçadas, a capital francesa e suas centenas de restaurantes são um verdadeiro banquete para elas, o que inspirou criativos apicultores a mudar radicalmente seus hábitos de produção.
Desde o ano passado, colmeias instaladas sobre os poéticos telhados de zinco da cidade têm obtido um resultado que surpreende até os maiores entusiastas da apicultura urbana: além de alta produtividade, sabores inesperados.
Se nas regiões tradicionalmente apícolas da França uma família de abelhas produz, em média, 20 quilos de mel por ano, sobre o teto do Grand Palais ela rende mais que o dobro: 50 quilos ou 600 potes pequenos de mel em cada colmeia.
“A flor é a comida das abelhas. Como em Paris há muitas flores, há muita comida. Logo, elas produzem muito mel. Simples assim”, explica o apicultor Nicolas Géant, que há dois anos trocou terno e gravata de executivo pela blusa xadrez de apicultor. São mantidas por ele as colmeias que ficam no teto do Grand Palais, na sede da Louis Vuitton e em mais uma dezena de empresas em pleno coração de Paris.
Como muitas das plantas cultivadas pelos parisienses em suas varandas são incomuns para a região, de lavandas a pequenas laranjeiras, o mel da cidade tem um sabor complexo, diferente dos tradicionalmente encontrados no mercado francês, onde o pólen de acácias ou girassóis é dominante.
“É um sabor heterogêneo, resultado da melificação do pólen de castanheiras, de árvores de frutas cítricas e mesmo da florzinha amarela do dente-de-leão, uma erva que cresce em qualquer rachadura de muro”, explica Géant.

O mel colhido no ano passado nas colmeias próximas a Champs Élysées mostrou um sabor cítrico. Das que ficam sobre o telhado do estrelado restaurante Tour D’Argent, às margens do Sena, veio um produto com notas de lavanda e menta.
O Tour d’Argent, que desde o século XVI acolhe a elite parisiense em torno da alta gastronomia, agora oferece uma família de pratos feitos a partir de seu mel de grife: pato ao molho de mel, figos assados com queijo branco e mel.
O pote de 200 gramas do mel da grife custa 15 euros, cinco vezes o preço de um supermercado.
Investindo nas colmeias assinadas desde 2009, a Louis Vuitton não tem interesses comerciais na experiência. Mesmo sem ser vendido em lojas, distribuído apenas entre os amigos da marca, seu mel La Belle Jardinière tornou-se objeto de desejo. “Nosso intuito não é comercializar esse produto, mas sensibilizar nossos colaboradores para a necessidade de preservar a biodiversidade”, explicou o presidente da Louis Vuitton, Yves Carcelle.
A lição não pode ser mais eloquente do que a recebida no início da primavera pelos funcionários da sede da empresa localizada ao lado da Pont Neuf. Da janela dos escritórios, eles acompanharam a divisão natural de uma das colônias de abelhas da marca. Após o nascimento de uma nova rainha, a antiga migrou com parte de seus súditos para uma árvore do jardim de inverno da empresa. “A imagem é impressionante, uma nuvem preta de abelhas num voo sincronizado no meio dessa paisagem burocrática”, conta uma funcionária.
A divisão da colônia, que atesta sua saúde, faz pensar em eventuais riscos de milhares de abelhas a se reproduzir no meio urbano. “As raças escolhidas são as mais dóceis. Elas só se alimentam de pólen, não se interessam por sucos ou refrigerantes”, explica o apicultor Géant.
Mas o encarregado de estudos sobre fauna da Agência de Ecologia Urbana de Paris, Thomas Charachon, explica que a prefeitura acompanha de perto essas experiências para evitar que a moda do mel de grife fuja de controle e gere um desequilíbrio ambiental. “Ainda estamos longe de uma saturação do número máximo permitido de 700 colmeias na cidade. Temos a metade disso. Ainda assim, vetamos novas autorizações com fins lucrativos e exigimos o cumprimento de regras estritas, como a distância de pelo menos 5 metros da cir-culação das pessoas, por exemplo.”
Como alternativa às colmeias da moda, a prefeitura estimula outras iniciativas de incentivo à biodiversidade urbana. “Até porque a mortalidade das abelhas está longe de ser um dos problemas centrais da preservação ambiental em Paris. Esse é um problema real no campo, não na cidade”, diz Charachon.

A produtividade superior das colmeias urbanas em comparação com as regiões tradicionalmente apicultoras na França tem sido encarada como um sintoma grave de que algo vai muito mal na agricultura francesa. “Fala-se tanto da poluição das cidades, mas a pequena produção das nossas abelhas em seu ambiente original prova que a poluição no campo é muito mais séria. E é bom lembrar que nós também comemos o que é produzido nesse campo”, alerta a especialista da União Nacional Apícola Francesa, Anne Henriot.
Os pesticidas adotados recentemente nos campos de girassol, lavanda e acácias intoxicam as abelhas e são apontados como a causa da morte de cerca de 30% dessas trabalhadoras que saem em busca de pólen. Além disso, florestas naturais cederam espaço para plantações de cereais, que não produzem flores.
Instalada a 200 quilômetros de Paris, vizinha de uma bela plantação de girassóis que servia de alimento para suas abelhas, a apicultora Sophie Dugué viu sua produção do ano passado reduzida a 10 quilos de mel por colmeia.
Após 25 anos na região de Sarthe, ela perdeu tanta produtividade nos últimos dez anos que decidiu mudar a orientação de seu negócio: hoje Sophie cria abelhas ra-i--nhas e fornece a outros apicultores. “Ficou mais rentável”, consola-se.

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