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Sociedade

Violência policial

Apesar da violência da PM baiana, há vida no Cabula

por Douglas Belchior — publicado 10/03/2015 19h15, última modificação 10/03/2015 19h18
Uma atividade de reflexão e resistência negra ao racismo institucional no bairro de Salvador que foi palco de uma chacina que matou 12 jovens
Leo Ornelas
Negro Blul

Na Vila Moisés, bairro do Cabula, em Salvador, homenagem a Negro Blul, assassinado aos 22 anos de idade, pela polícia, na comunidade de Nova Brasília, no ano de 2006

Na manhã do último sábado 7, moradores da Vila Moisés, no Bairro do Cabula, periferia de Salvador (BA), promoveram uma atividade de reflexão e fortalecimento da resistência negra à violência estatal e policial. Exatamente um mês antes, uma ação das Rondas Especiais, a tropa de elite da PM baiana, resultou numa chacina que deixou 12 jovens mortos e 5 feridos - todos negros e moradores da região.

O ato, promovido ao lado da Campanha Reaja ou será morta! Reaja ou será morto! também foi um tributo à Clodoaldo Souza, o Negro Blul, assassinado aos 22 anos de idade pela polícia na comunidade de Nova Brasília em 2006.

“Essa atividade marca também os dez anos da Campanha, sempre ao lado dos moradores das comunidades e dos familiares de vítimas desse Estado racista”, disse ao abrir os trabalhos Andrea Beatriz, coordenadora do Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária.

O sorriso inocente das muitas crianças que brincavam desde cedo pelas ruas e becos da comunidade contrastavam com o olhar apreensivo e atento de senhoras e senhores e com a revolta verbalizada e exposta pelos jovens moradores do bairro. A postura era de poucas palavras e muita desconfiança, principalmente por conta da presença de equipes de TV que acompanharam a atividade.

Não sem motivos, afinal, como em todo o País, a programação das principais redes de TV e de programas jornalísticos da Bahia dedica-se a promover a ação violenta das polícias, endossar a truculência do governo e criminalizar a população negra.

A mensagem de paz, amor e respeito à diversidade foi simbolizada pelo culto ecumênico que abriu a atividade política e contou com a presença de um pastor evangélico, representantes de terreiros de candomblé e da comunidade islâmica.

O rapper e poeta Okaris, jovem negro militante e morador da periferia de Salvador, em sua mensagem à comunidade falou da importância da tomada de consciência entre os jovens: “Muitas vezes acabamos, por falta de oportunidades ou até por revolta, fazendo exatamente o que o sistema quer que a gente faça. Às vezes nos envolvemos em situações que eles usam pra justificar a violência contra nós. Nós estamos com medo de nós. Precisamos nos unir e nos amar".

Para Hamilton Borges, militante do movimento negro baiano e fundador da Campanha Reaja, é preciso reagir com mais força: “A política de segurança pública e o sistema de justiça no Brasil são racistas. Odeia e quer matar os negros. Precisamos de uma reação mais dura. Precisamos exigir o fim da Polícia Militar. Aqui (em Salvador) há um componente a mais, pois existe um cinismo de uma localidade de maioria negra ser tratada como se não fosse nada”.

Sobre a postura do governador Rui Costa (PT), que se posicionou a favor da ação policial que resultou na chacina, Hamilton foi duro: “Pra gente não tem novidade nenhuma. Ele se congrega e está filiado a uma casta de superioridade branca que tem massacrado os negros todos estes anos. Ele está fazendo apenas o seu roteiro habitual”, dispara.

Para o sociólogo e professor da UNEB, Fábio Nogueira, militante do Círculo Palmarino, o governador da Bahia, com suas declarações, estimula e endossa a violência policial, “O Governador sinaliza para uma parcela enorme da população (seu eleitorado) que apoia esse tipo de conduta policial”.

Artistas, poetas, militantes e representantes de diversos estados se solidarizam por Maria de Fátima Silva, mãe de Douglas Rafael da Silva Pereira. O dançarino, conhecido como DG, fazia parte do programa Esquenta e foi morto em abril durante uma ação militar na Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro, também esteve presente. Sobre o caso, disse a CartaCapital: “A cartilha policial é universal. Vale para todos os estados do Brasil: a seletiva é racial. DG era só mais um negro. Um negro de periferia, só isso”.

O Rapper Dexter, que foi a Salvador especialmente para participar da atividade, reafirmou o papel do Rap em continuar denunciando a realidade dos jovens negros nas periferias do País: “Enquanto me preparava para vir a Salvador, nesta madrugada, 11 jovens foram assassinados no Jd. São Luiz, zona Sul de São Paulo. É como o que aconteceu no campinho da Vila Moisés no mês passado. Igual ao ano passado, retrasado e assim vai. O rap continua cantando a realidade. O jovem negro ainda é alvo da polícia e isso é inadmissível”.

GOG, o poeta do rap, em seu recado à comunidade, falou da importância de uma reação também interna. “É preciso reagir na forma de pensar e de organizar a nossa reação. Temos necessidades que são imediatas e que precisamos resolver agora, mas sem deixar de lutar por mudanças maiores.”

Estiveram presentes também rappers e poetas locais, dentre eles Nelson Maca, o poeta Ricardo Aleixo, o poeta e grafiteiro Zezé Ifatola Olumeki, as rappers e militantes do Kilombagem SP, Katiara e Tata, as ativistas Fernanda Monteiro e Arísia Barros, o secretário nacional de juventude Gabriel Medina, representação do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), e representantes de grupos políticos e Ongs de Direitos Humanos, Movimento Sem Teto, Levante Popular da Juventude, Enegrecer, Rosa-Zumbi, Círculo-Palmarino, Uneafro-Brasil, Justiça Global do Rio de Janeiro, Conselho Regional de Psicologia CRP-SP, Associação de Juízes pela Democracia, entre outros.

Até o momento, um mês depois da chacina, as informações são de que os policiais da Rondesp que promoveram o massacre continuam trabalhando normalmente.

Segundo a imprensa local, a Secretaria de Segurança Pública declarou que “nenhum policial foi afastado, pois, inicialmente, não há elemento que comprove a ilegalidade da ação”.

Uma reconstituição da ação deverá ser realizada nos próximos dias, em data a ser definida. Cerca de 40 pessoas já foram ouvidas por quatro delegados destacados para o caso. O CONANDA, aprovou uma NOTA sobre o ocorrido e deve protocolá-la junto ao Governo Estadual, SSP e MP até esta segunda-feira 10.