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Análise

Ainda existe identidade no futebol

por Matheus Pichonelli e Fernando Vives — publicado 19/07/2011 10h36, última modificação 24/07/2011 18h42
A principal vítima do futebol como negócio é a seleção brasileira. Nunca a CBF lucrou tanto, mas o jeito brasileiro de jogar futebol desapareceu. Sorte do Uruguai
Ainda existe identidade no futebol

Nunca a CBF lucrou tanto, mas o jeito brasileiro de jogar futebol desapareceu. Sorte do Uruguai. Por Fernando Vives e Matheus Pichonelli. Foto: Eitan Abramovich/AFP

O futebol virou um empreendimento financeiro tão enraizado que se tornou comum aceitar, hoje em dia, algumas das maiores bobagens do mundo dos negócios. É como quando os mendigos da rua, personagens mais visíveis da tragédia social, são incorporados como parte da paisagem de todo dia.

Não somos saudosistas de um futebol romântico que não existe mais. O dinheiro no futebol é bem-vindo, mas é evidente que ele não pode tomar conta do espetáculo. E é isso o que tem ocorrido.

Um caso típico recente do futebol como negócio total: semana passada, o Palmeiras venceu o Santos por 3 a 0 pelo Campeonato Brasileiro. A cada gol os jogadores do Palmeiras corriam dirigindo um volante imaginário, em fila. Para quem não entendeu a piada interna, no dia seguinte a revelação: era uma ação de marketing da montadora automotiva que patrocina o clube.

Os jogadores receberam uma “bonificação” para comemorar daquela forma. E pouca gente achou absurdo. Pelo andar da carruagem, o próximo passo é fazer com que os atletas tatuem a logomarca do patrocinador ou citem as empresas em qualquer entrevista coletiva. É o esporte virando um grande Show de Truman, aquele filme no qual o personagem do Jim Carrey nasce e vive dentro de um programa de tevê e sua família e amigos fazem merchan o tempo todo para as câmeras escondidas.

Talvez a principal vítima do futebol como negócio total seja a seleção brasileira. Nunca a Confederação Brasileira de Futebol teve tantos patrocinadores nem lucrou tanto ao explorar a marca do único pentacampeão mundial. Paralelamente a isso, o jeito brasileiro de jogar futebol, que nos fez famosos no mundo inteiro, parece não existir mais. É cada dia mais difícil conseguir ver um jogo do Brasil e achar ali um pingo de cumplicidade, de identificação popular.

Neste contexto, ver a seleção de futebol do Uruguai é uma espécie de respiro futebolístico para a América do Sul. Não que o Uruguai seja uma seleção imune ao mercantilismo total do futebol, mas ao menos não tem deixado isso falar mais alto dentro de campo.

O técnico Oscar Tabárez assumiu uma seleção falida de um país pequeno de população envelhecida que mal conseguia disputar uma Copa do Mundo. Ele achou um grupo esforçado que joga em função de dois grandes talentos, o meia Diego Forlán e o atacante Luiz Suárez. E resgatou o espírito antigo do futebol uruguaio: catimba, raça, catimba, aplicação tática, catimba, pontapés, catimba e muita catimba.

Justamente os ingredientes que levaram o time a sair vivo de uma das mais dramáticas e vibrantes partidas que o futebol já produziu. Exatamente quando o destino já parecia definido para os uruguaios nas quartas-de-final da última Copa, contra Gana. Um destino que ninguém parecia disposto a aceitar até que, no último minuto da prorrogação, a mão salvadora de Suárez impediu, em cima da linha, um gol certo dos adversários.

Expulso, o atacante-goleiro matou a jogada e morreu por uma improvável sobrevida. Quase à beira dos vestiários, pulou, esmurrou o vento, chorou e benzeu a camisa ao ver Gyan desperdiçar a cobrança do pênalti para Gana. O triunfo contra os africanos, nos pênaltis, logo depois, não só colocou a equipe entre as quatro melhores do mundial, como coloriu de azul celeste todo um país: nas ruas, bares ou mesmo nos corredores apertados do Mercado do Porto, em Montevidéu, só o que se vê até hoje são referências à seleção, Forlán à frente, com cartazes, bandeiras e imagens do Mundial heroico. O país abraçou o time, que abraçou o país. Não é pouco.

Quase um ano depois, e o Uruguai, novamente, vai à semifinal de uma competição, desta vez após, de novo, vencer nos pênaltis, desta vez a Argentina, desta vez a anfitriã da Copa América. De novo, termina um torneio à frente dos vizinhos ricos.

O Uruguai é um bom time de futebol? Não chega a ser. Mas empolga, dá gosto de ver. Resgatou a essência de seu futebol.

Em tempos de Ricardo Teixeira, que prioriza os lucros e vê a seleção perder o que tinha de melhor, e de uma Argentina sem personalidade que tenta, a todo custo, vestir a carapuça de Maradona em Lionel Messi, ver esse Uruguai jogar é um alento.

É a nova velha novidade da América do Sul. A Celeste pode até perder para o Peru na semifinal da Copa América nesta terça-feira, ou ser derrotada na final. Mas é impossível dizer que não é a principal seleção do continente. Que sua autenticidade sirva de exemplo para Neymar e companhia.

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