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Crônica / Matheus Pichonelli

Adeus, Orkut

por Matheus Pichonelli publicado 02/07/2014 16h43, última modificação 02/07/2014 21h52
Vou sentir falta das comunidades como “Cabras não tem muitas pretensões”, “Mamma Bruschetta With Lasers”, “Niilismo miguxo” e “Chorei quando o Bial morreu”
https://www.facebook.com/UnidosPeloOrkut
Orkut

Post da fan page no Facebook "Unidos pelo Orkut", uma paródia sobre os usuários das duas redes socias

O murmurinho começou na aula sobre novas tecnologias. Escondido atrás do PC escuro do laboratório de informática, ouvia sem muito interesse a professora falar sobre uma "site novo que vai mudar o futuro" (provavelmente não eram essas as palavras) enquanto deixava os e-mails em dia, tirava alguma dúvida no Google e conferia as notícias dos portais de últimos segundos. Nem todo mundo tinha computador com internet em casa – eu, pelo menos, não tinha – e aquelas aulas eram uma oportunidade valiosa para aproveitar o que a rede tinha de interessante e economizar o dinheiro da lan house.

Até que a professora decidiu nos apresentar à ideia de rede social, um termo ate então inédito para mim. E lançou como teste o desafio de criar uma conta em um tal de Orkut, que até então pedia o convite de outro usuário para aceitar inscrições.

Naquela sala, todo mundo convidou todo mundo e parecia que montávamos um inocente álbum de figurinha da nossa turma até nos depararmos com um campo de preenchimento obrigatório chamado “about me”. Era o chamado a uma definição existencial adiada durante 21 anos.

O jeito era ganhar tempo, com frases de músicas da Legião Urbana ou versos jamais escritos por autores consagrados. Uns iam além e rabiscavam a projeção do que eram e de como se imaginavam a partir dos olhos de alguém. A construção narcísica levava a outras construções. De repente todo mundo era da paz, gostava de uma boa festa, amava os amigos, os Beatles e os Rolling Stones, e se dizia normal até quando flertava com o sublime: “Meu maior defeito é minha sinceridade”.

Tínhamos assim, em uma espécie de confissão comunitária, nosso momento De Frente Com Gabi. A bem dizer, achei tudo aquilo muito perigoso até receber, pouco depois, uma notificação de um amigo de Araraquara que não encontrava havia algum tempo. Naquela ilha cheia de distâncias chamada São Paulo, a ideia de uma sociedade em rede piscou para mim como a possibilidade de enviar e receber notícias de um mundo distante– algo que sempre existiu, mas era até então espalhado pelo módulo analógico, o boca a boca do fulano ao encontrar beltrano e contar que o acima assinado estava grávido, gordo, careca, solteiro ou mal amado. Era a chance de tomar a dianteira e mandar um beijo no ombro das inimigas: “Nós estamos bem, felizes e realizados”.

A coisa virou moda muito rapidamente. E de repente se tornou temerário passear por aqueles figurinhas na companha de álcool e ansiedade, combinação que rendia confissões públicas e testemunhos melosos dos quais nos envergonharíamos no dia seguinte. “Você é o cara. Poucas pessoas no mundo são mais o cara do que você. Eu te amo, cara. Meu santo amado, como eu te amo”.

No fundo gostávamos receber homenagens, ler/ouvir que éramos pessoas de caráter, confiáveis, divertidas e raras. Muita amizade se reforçou depois daquele clique na sala de laboratório, e outras tantas viraram vinagre com a mania contagiosa de fuçar o scrap alheio. Bastava ler um elíptico “adorei, gata, boa noite pra você” para entender todos os antes, durantes e depois da vida de todo mundo, com suas poses com cerveja na mão (alguns beijavam os rótulos), abraços coletivos em tardes de churrasco, imagens de casamentos per-fei-tos e confissões públicas de amor datado.

Tudo graças a um impronunciável Orkut Büyükkokten, que descobrira uma forma de preservar distâncias e fronteiras com a sensação virtual de proximidade. Mais do que isso, o gênio turco criara um campo fértil para o nosso ócio, manifestado em comunidades sobre nossa classe, nosso time do coração, nossa cidade, nossa balada favorita e temas de relevância inquestionável como “Cabras não tem muitas pretensões”, “Mamma Bruschetta With Lasers”, “Niilismo miguxo”, “Já pensou se pega no olho?”, “Chorei quando o Bial morreu”.

A pessoa que nos visitava descobria assim, num passeio de mouse, que éramos pessoas bem-humoradas e interessantes graças às nossas comunidades. Não era preciso ler Karl Marx nem Fernando Pessoa, bastava participar de comunidades sobre O Capital ou O Livro do Desassossego. Foi o único período da história em que eles conviveram tão próximos com aquela parente distante que poluía nossa caixa pública de mensagens com brilhos, luzes, solos do Kenny G e votos por um dia abençoado.

O problema é que mudamos um bocado desde nosso primeiro “about me”. Em 2004, éramos estudantes, esperávamos aflitos o que seria o último álbum dos Los Hermanos, os smartphones ainda não haviam substituído os laboratórios de computadores, uma galera ainda estava viva, o Brasil era o atual campeão do mundo, o Robinho era nossa grande esperança para 2014, o Neymar tinha só 12 anos e o José Dirceu era o provável futuro presidente da República.

Mudamos com o mundo e migramos, graças a um americano de nome um pouco mais pronunciável, que mais ou menos na mesma época criou uma ferramenta similar ao Orkut – similar na base, mas distinta na natureza. Sua maior sacada foi sistematizar na rede mundial de computadores uma velha inclinação humana, a que nos leva a fechar um livro e procurar ao lado o primeiro sinal de vida para poder dizer: “Cara, você precisa ler isso”. Foram as duas pauladas fatais do Facebook no feito do jovem turco: o botão compartilhar e o botão de curtir, que deu para as empresas um público alvo filtrado. Era um verdadeiro arsenal sobre nossos gostos e afinidades com base em tudo o que replicamos no Facebook enquanto o Orkut agonizava.

Só então percebemos que a primeira ferramenta se tornara obsoleta, como as polaróides, o fax, o walkman e os discos de vinil. Como disse um amigo, o Orkut se tornou assim uma espécie de Cine Belas Artes do mundo virtual: pouca gente frequentava, mas todos lamentaram a sua perda. Talvez porque até ontem ainda havia um conforto: a possibilidade da visita.

Era como poder visitar uma casa antiga, apertada mas cheia de memórias, e poder dizer: ainda sei seu endereço e podemos sempre matar a saudade, e a saudade daquele tempo. Mas rede social é também negócio, e só memória afetiva não mata a fome, ao menos não a do seu criador, que de gênio virou piada, e das boas, em uma fan page da rede rival chamada “Unidos pelo Orkut”.