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Abmudos, ou aqueles que se calam diante dos absurdos

por Dal Marcondes publicado 03/02/2011 09h35, última modificação 08/02/2011 13h22
A história humana é acompanhada desde suas origens pelos abmudos. Aqueles que assistem os absurdos sem nada dizer. São eles os responsáveis por grande parte dos males que assolam o homem
Abmudos, ou aqueles que se calam diante dos absurdos

A história humana é acompanhada desde suas origens pelos abmudos. Aqueles que assistem os absurdos sem nada dizer. São eles os responsáveis por grande parte dos males que assolam o homem. Por Dal Marcondes

A história humana é acompanhada desde suas origens pelos abmudos. Aqueles que assistem os absurdos sem nada dizer. São eles os responsáveis por grande parte dos males que assolam o homem. Não importa a cultura. Não importa a época. Abmudos estiveram presentes em todas as grandes catástrofes e convivem diariamente com dramas menores. Ficam quietos quando assistem infrações de trânsito, quando percebem que alguma coisa pode dar em confusão, sempre que é necessário interferir. Ou seja, calam-se diante dos absurdos. Alguns exemplos podem ajudar a definir melhor o que é um abmudo:

Uma pessoa caminha pela calçada e vê alguém estacionando um carro sobre a mesma calçada. Ao motorista não parece importar que estará colocando outras vidas em risco por obrigar os pedestres a fazerem um perigoso desvio pela rua movimentada. Uma situação de absurdo, mas o passante não se detém em sua caminhada, desvia-se pela rua e segue seu caminho. Não tem coragem de interferir, não tem a dimensão de sua responsabilidade de cúmplice, acredita piamente que não tem nada a ver com isso. Apenas no fundo roça-lhe um vago pensamento sobre como essa situação não aconteceria em um país desenvolvido.

Esse exemplo faz recordar a história contada por outro passante em outra calçada. Ia esse por uma rua em Genebra, na Suíça, quando presenciou uma cena que em terras tupiniquim pareceria insólita: apressado, seguia pela calçada um senhor bem aparentado, terno alinhado e um pequeno papel nas mão. Após uma olhada detida no papel, amassou-o e atirou ao chão. Poucos metros atras vinha um outro homem, mais jovem, que abaixou-se e apanhou o papel amassado. Hesitou um pouco mas chamou o homem de terno.

"Senhor, deixou cair um papel". A resposta foi seca: "Não o quero, é lixo". E o mais jovem respondeu: "Pois é, é lixo e a cidade também não o quer". Há os que vejam nesse exemplo apenas o fato de que a civilização existe na Suíça, o que é verdade, mas ela existe em todos os lugares onde os abmudos superam seus traumas e enfrentem os absurdos.

Quase sempre há leis coibindo os absurdos e quase sempre há um abmudo os encobrindo. Não podem, na maioria das vezes, ser taxados legalmente como cúmplices, mas são quase tão culpados quanto os que cometem os absurdos. Um pequeno jogo entre as palavras absurdo e abmudo pode explicar muito da trama psicológica que envolve a relação entre as duas personagens. Os absurdos (vistos aí como os sujeitos da ação absurda) agem como surdos diante dos apelos éticos e morais que deveriam coibir suas ações. Os abmudos, por acreditarem que suas vozes não serão ouvidas, calam-se. Esse círculo vicioso acompanha a humanidade desde seus primórdios. (Envolverde)

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